sexta-feira, 1 de maio de 2026

BAIRRO USURA | DIA INTERNACIONAL DO TRABALHADOR

O 1.º de Maio nasceu como um grito colectivo contra a exploração, um dia em que trabalhadores de todo o mundo reivindicaram dignidade, tempo, salário justo e condições humanas. Mais de um século depois, a data continua carregada de simbolismo, mas também de ironia. Porque, apesar das conquistas, a exploração não desapareceu; apenas mudou de forma, de linguagem e de estratégia.

Se olharmos para Portugal no contexto global, quase parece que habitamos um “bairro usura”. Tal como as grandes cidades têm o seu bairro chinês, italiano ou japonês, nós temos um bairro peculiar: o bairro onde a usura é estrutural, silenciosa e legitimada. Não se trata de uma usura de esquina, mas de um sistema inteiro que, perante qualquer crise, encontra sempre a mesma solução: fazer com que os mais frágeis paguem a conta.

Quando surge uma crise — seja financeira, sanitária ou geopolítica — seria lógico que fossem aqueles com maior capacidade de resistência a assumir o maior peso. Mas o que acontece é o contrário. Os preços das casas disparam, o combustível aumenta, as taxas de juro sobem, a energia encarece, a alimentação torna-se um luxo para muitos. E tudo isto num país onde os salários permanecem estagnados e a mobilidade social é quase uma miragem.

Do lado de quem governa, a resposta às crises raramente passa por proteger os mais vulneráveis. A prioridade parece ser criar novas linhas de crédito, alterar leis laborais, impor seguros adicionais e multiplicar obrigações. Enquanto isso, não só o povo vai empobrecendo, como os serviços públicos vão definhando — escolas, hospitais, transportes — todos a perder capacidade, todos a perder fôlego, todos a reflectir o mesmo padrão de desgaste.

O resultado é um mecanismo perverso: o dinheiro flui das mãos dos pobres para os bolsos dos ricos, que saem das crises ainda mais fortalecidos. Os pobres tornam-se mais pobres, e muitos deixam de ser apenas pobres para se tornarem miseráveis. É uma transferência de riqueza ao contrário, um Robin Hood invertido, institucionalizado e repetido crise após crise.

O 1.º de Maio, então, não é apenas um dia de celebração histórica. É um lembrete incómodo de que a luta continua, não porque os trabalhadores não tenham conquistado direitos, mas porque o sistema encontrou novas formas de os contornar. É um convite a olhar para este “bairro usura” que habitamos e a perguntar se queremos continuar a viver nele ou se está na altura de reconstruir o bairro, a cidade e o país com regras mais justas.

© Fernando Alagoa