quinta-feira, 16 de abril de 2026

O ANTICRISTO

Há gestos políticos que ultrapassam o erro, a imprudência ou a vaidade. Há comportamentos que, pela sua natureza, se tornam uma negação frontal dos valores que afirmam defender. Quando um presidente decide comparar-se a Cristo — e, por consequência, a Deus — não está apenas a cometer um excesso retórico. Está a inverter a lógica moral que deveria orientar qualquer líder democrático. É, simbolicamente, um acto anticristão.

Cristo não procurou poder, não exigiu adoração, não reivindicou privilégios. A sua figura é sinónimo de humildade, serviço e sacrifício. Um governante que se coloca no lugar do sagrado, que se apresenta como salvador, que exige veneração, faz precisamente o contrário. Apropria-se da fé para alimentar o próprio ego. Usa o divino como espelho para engrandecer a própria imagem. E isso, por si só, é uma forma de profanação.

Um governante que se eleva ao estatuto de figura messiânica rompe o contrato democrático e transforma o espaço público num palco de culto. A sua postura deixa de ser vista como participação cívica e passa a ser tratada como blasfémia. A divergência torna-se heresia. E a política, que deveria ser diálogo, degrada-se em liturgia de adoração.

A democracia não tolera deuses. Constrói cidadãos. Enaltece líderes que compreendem que o poder é serviço, não coroação. Que a autoridade é responsabilidade, não glória. Que o cargo é transitório, não eterno. Quando alguém se coloca acima desses princípios, não está a imitar Cristo — está a negar tudo aquilo que Cristo representa.

Nada se opõe mais ao espírito do Evangelho do que a arrogância de quem se proclama salvador. Nada contradiz mais a ética pública do que a fusão entre vaidade pessoal e símbolos sagrados. Nada ameaça mais a liberdade do que um líder que se imagina enviado divino.

É importante lembrar que nenhum governante, por mais poderoso que seja, tem o direito de se colocar no lugar do sagrado, e muito menos de usar o sagrado para justificar a própria sede de poder.

© Fernando Alagoa

terça-feira, 7 de abril de 2026

O POPULISMO NÃO CAI DO CÉU

Volto ao tema, por indignação e repulsa com a ladainha costumeira.

Os partidos tradicionais adoram fingir espanto quando um novo movimento populista começa a ganhar terreno. Falam em “radicalização”, em “ameaça à democracia”, em “perigo para o país”. Mas evitam encarar a verdade mais incómoda: o populismo é, muitas vezes, a consequência directa das suas próprias falhas. É o resultado acumulado de anos de má governação, promessas quebradas, escândalos sucessivos e uma distância crescente entre o poder político e a vida real das pessoas.

E quando o descontentamento finalmente explode, esses mesmos partidos fazem de conta que não percebem de onde veio. Mas não há surpresa nenhuma: o populismo floresce onde a confiança foi destruída.

A responsabilização que nunca chega

Há um ponto que raramente entra no debate público: a responsabilização. Não basta lamentar o crescimento do populismo; é preciso enfrentar as causas que o alimentaram. E isso implica que quem contribuiu para o desgaste do país responda pelas suas acções — não por vingança, mas por justiça.

E aqui surge um contraste gritante.

O exemplo da Islândia

Depois da crise financeira de 2008, a Islândia fez aquilo que muitos países consideravam impensável:

  • priorizou os cidadãos em vez dos bancos,

  • recusou resgates irrestritos,

  • investigou e responsabilizou gestores financeiros,

  • procurou proteger a economia interna antes de proteger accionistas.

Foi um gesto raro de coragem política. Um país pequeno que decidiu que a democracia não existe para salvar instituições poderosas à custa do povo.

E depois há casos como o de Portugal

Em países como Portugal, a história foi bem diferente.
A culpa, como se diz, “morre sempre solteira”.
Os escândalos financeiros sucedem-se, mas as consequências são quase sempre simbólicas.
E, em certos casos, como no colapso do BES,
os accionistas acabaram por lucrar com o modelo de intervenção, enquanto milhares de cidadãos ficaram com prejuízos, incerteza e um profundo sentimento de injustiça.

É difícil pedir ao povo que confie na política quando vê que os erros dos poderosos são pagos pelos mesmos de sempre.

Sem Justiça não há regeneração

Um país não se regenera com discursos sobre estabilidade.
Regenera-se quando:

  • quem abusou do poder enfrenta consequências reais,

  • os danos causados ao povo são reconhecidos e reparados,

  • a transparência deixa de ser excepção e passa a ser regra,

  • a política volta a ser serviço público e não carreira blindada.

Sem isto, tudo o resto é cosmética.

Portanto, a indignação dos partidos tradicionais é tardia e selectiva. Indignam-se com o sintoma, mas ignoram a doença. Criticam o mensageiro, mas recusam-se a admitir que foram eles que deixaram a porta aberta para que ele entrasse.

Se querem combater o populismo, não basta demonizá-lo. É preciso recuperar a credibilidade perdida, reconquistar a confiança que deixaram escapar e, acima de tudo, lembrar que governar não é um privilégio — é uma responsabilidade. Enquanto isso não acontecer, o populismo continuará a crescer. Não por causa dos seus líderes, mas por causa do vazio que os outros deixaram.

P. S. - Aí está, de novo, a usura praticada com os preços dos combustíveis, para ilustrar as malfeitorias cometidas contra o país.

© Fernando Alagoa


segunda-feira, 6 de abril de 2026

NAÇÕES GOVERNADAS POR BULLIES

Há momentos na história em que o poder, em vez de ser exercido com responsabilidade, transforma‑se em instrumento de intimidação. Quando um presidente de uma nação adopta comportamentos típicos de um bully, impondo-se pela força, pelo desprezo ou pela humilhação, o impacto ultrapassa fronteiras. Não se trata apenas de política externa; trata-se de ética, de dignidade e do exemplo que se projecta para o mundo.

O mais inquietante, porém, não é apenas a postura agressiva de um líder, mas a reacção — ou a falta dela — por parte de outros dirigentes globais. Em nome de conveniências diplomáticas, interesses económicos ou simples cálculo político, muitos optam pela passividade. Fecham os olhos, suavizam discursos, relativizam abusos. E, ao fazê-lo, tornam-se cúmplices involuntários de uma dinâmica que corrói princípios fundamentais da convivência internacional.

A submissão disfarçada de pragmatismo é, no fundo, uma forma de abdicação moral. Quando líderes que deveriam defender valores universais escolhem o silêncio, enviam ao mundo a mensagem de que a força vale mais do que o respeito, e que a intimidação pode ser tolerada desde que sirva a determinados interesses.

Mas a história mostra que a complacência com comportamentos abusivos nunca termina bem. A diplomacia não precisa ser subserviente; pode — e deve — ser firme, ética e corajosa. O mundo não avança quando se normaliza o abuso de poder, mas quando se estabelece um limite claro entre autoridade e autoritarismo.

Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente este: lembrar que liderar não é intimidar, e que respeitar não é submeter-se. A verdadeira grandeza de uma nação mede-se não pela força do seu líder, mas pela força dos valores que escolhe defender.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


quarta-feira, 1 de abril de 2026

LAÇO AZUL

Abril chega sempre com uma luz diferente. É como se o mês inteiro respirasse esperança, mesmo quando nos lembra das sombras que nunca deveriam ter tocado os olhos de uma criança. O Movimento Laço Azul ergue-se então como um gesto simples, mas profundamente humano: um símbolo que fala por aqueles que ainda não têm voz suficiente para se protegerem sozinhos.

Há histórias que nunca deviam ter sido escritas. Abril convida-nos a encarar de frente essa realidade, para não nos esquecermos de que nenhuma criança devia crescer a aprender o mundo através da dor.

O laço azul é um abraço que se estende a todas as crianças que precisam de ser vistas, protegidas, amadas. É a lembrança de que cada gesto de cuidado pode ser a diferença entre um futuro ferido e um futuro inteiro.

Proteger as crianças é garantir que o riso delas continue radiante, que os passos delas continuem livres, que os sonhos delas não sejam interrompidos.

Deixemos que o azul nos lembre que a infância é sagrada, que a dignidade é um direito desde o primeiro instante de vida, e que a responsabilidade de cuidar não é de alguns — é de todos. Porque, quando uma criança é feliz, o futuro da humanidade torna-se mais belo.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


É VERDADE

É verdade que, ao longo da democracia, nenhum governo de Portugal contribuiu para a degradação da escola pública;

É verdade que nenhum governo concorreu para a escassez de professores;

É verdade que nenhum governo teve mão na erosão do Serviço Nacional de Saúde;

É verdade que nenhum governo facilitou a fuga de médicos do sector público;

É verdade que nenhum governo alimentou a lentidão crónica da justiça;

É verdade que nenhum governo permitiu a deterioração salarial das forças policiais;

É verdade que nenhum governo deixou a habitação mergulhar no caos;

É verdade que nenhum governo pôde minorar o impacto destrutivo das crises na vida dos portugueses;

É verdade que nenhum governo permitiu o enriquecimento sem causa da banca;

É verdade que nenhum governo salvou bancos enquanto deixava o resto do país à deriva;

É verdade que nenhum governo deixou de combater a corrupção com empenho exemplar.

É verdade que hoje é 1 de Abril, e se comemora o “Dia das Mentiras”!

É verdade.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados