Volto
ao tema, por indignação e repulsa com a ladainha costumeira.
Os
partidos tradicionais adoram fingir espanto quando um novo movimento
populista começa a ganhar terreno. Falam em “radicalização”,
em “ameaça à democracia”, em “perigo para o país”. Mas
evitam encarar a verdade mais incómoda: o populismo é, muitas
vezes, a consequência directa das suas próprias falhas. É o
resultado acumulado de anos de má governação, promessas quebradas,
escândalos sucessivos e uma distância crescente entre o poder
político e a vida real das pessoas.
E
quando o descontentamento finalmente explode, esses mesmos partidos
fazem de conta que não percebem de onde veio. Mas não há surpresa
nenhuma: o populismo floresce onde a confiança foi destruída.
A
responsabilização que nunca chega
Há
um ponto que raramente entra no debate público: a responsabilização.
Não basta lamentar o crescimento do populismo; é preciso enfrentar
as causas que o alimentaram. E isso implica que quem contribuiu para
o desgaste do país responda pelas suas acções — não por
vingança, mas por justiça.
E
aqui surge um contraste gritante.
O
exemplo da Islândia
Depois
da crise financeira de 2008, a Islândia fez aquilo que muitos países
consideravam impensável:
priorizou
os cidadãos em vez dos bancos,
recusou
resgates irrestritos,
investigou
e responsabilizou gestores financeiros,
procurou
proteger a economia interna antes de proteger accionistas.
Foi
um gesto raro de coragem política. Um país pequeno que decidiu que
a democracia não existe para salvar instituições poderosas à
custa do povo.
E
depois há casos como o de Portugal
Em
países como Portugal, a história foi bem diferente.
A culpa,
como se diz, “morre sempre solteira”.
Os escândalos
financeiros sucedem-se, mas as consequências são quase sempre
simbólicas.
E, em certos casos, como no colapso do BES, os
accionistas acabaram por lucrar com o modelo de intervenção,
enquanto milhares de cidadãos ficaram com prejuízos, incerteza e um
profundo sentimento de injustiça.
É
difícil pedir ao povo que confie na política quando vê que os
erros dos poderosos são pagos pelos mesmos de sempre.
Sem Justiça não há regeneração
Um
país não se regenera com discursos sobre estabilidade.
Regenera-se
quando:
quem
abusou do poder enfrenta consequências reais,
os
danos causados ao povo são reconhecidos e reparados,
a
transparência deixa de ser excepção e passa a ser regra,
a
política volta a ser serviço público e não carreira blindada.
Sem
isto, tudo o resto é cosmética.
Portanto,
a indignação dos partidos tradicionais é tardia e selectiva.
Indignam-se com o sintoma, mas ignoram a doença. Criticam o
mensageiro, mas recusam-se a admitir que foram eles que deixaram a
porta aberta para que ele entrasse.
Se
querem combater o populismo, não basta demonizá-lo. É preciso
recuperar a credibilidade perdida, reconquistar a confiança que
deixaram escapar e, acima de tudo, lembrar que governar não é um
privilégio — é uma responsabilidade. Enquanto isso não
acontecer, o populismo continuará a crescer. Não por causa dos seus
líderes, mas por causa do vazio que os outros deixaram.
P.
S. - Aí está, de novo, a usura praticada com os preços dos
combustíveis, para ilustrar as malfeitorias cometidas contra o
país.
© Fernando Alagoa