sábado, 21 de março de 2026

DIA MUNDIAL da ÁRVORE e DIA INTERNACIONAL das FLORESTAS

As árvores são mais do que paisagem — são presença.

Erguem-se com a serenidade de quem conhece o pulsar da Terra e guardam, nos seus corpos, capítulos inteiros da nossa história. Cada raiz que se estende é um gesto de amabilidade, cada folha que nasce um acto poético, cada fruto uma celebração discreta da vida.

No silêncio das florestas, as árvores ensinam-nos a crescer, a resistir às tempestades e a procurar o caminho da luz. São abrigo, alimento e sombra. São casa comum.

Neste Dia Mundial da Árvore, que possamos honrar aquilo que elas nos oferecem todos os dias — plantando, protegendo e cuidando, porque cada árvore é um sinal de futuro.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


DIA INTERNACIONAL PARA A ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL

Num mundo ideal, seríamos todos como livros numa estante iluminada: diferentes por fora, surpreendentes por dentro e igualmente dignos de ser lidos. Ainda assim, há quem prefira julgar um livro apenas pela capa. Comentam a cor da lombada como se isso dissesse algo sobre as histórias que ela guarda, como se a superfície fosse mais importante do que o enredo.

É curioso, quase trágico, porque qualquer leitor sabe que a magia vive nas páginas: nos capítulos que se entrelaçam, nas ideias que se cruzam, nos mundos que se abrem quando se tem a coragem de folhear. E, no entanto, alguns continuam a agir como se a grande biblioteca da humanidade tivesse prateleiras proibidas, zonas onde certos livros “não deveriam estar”.

O mais irónico é que os próprios livros, esses mestres silenciosos, convivem lado a lado sem reclamar da cor do vizinho, sem exigir que todos pertençam ao mesmo género literário. Não se incomodam com diferenças; pelo contrário, enriquecem-se mutuamente. Talvez seja pedir muito que nós, humanos, alcancemos a maturidade… dos livros.

Hoje, no Dia Internacional contra a Discriminação Racial, vale a pena lembrar o óbvio que tantos insistem em esquecer: a diversidade não é um problema — é a biblioteca inteira.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


LIVROS, POESIA, ÁRVORES E DIVERSIDADE

Hoje é um daqueles dias ricos em comemorações, em que o calendário parece querer lembrar-nos de tudo aquilo que insistimos em esquecer. É Dia Internacional contra a Discriminação Racial, Dia Mundial da Poesia, Dia Internacional da Árvore e Dia Internacional das Florestas — celebrações que, curiosamente, combinam melhor do que se poderia pensar.

Num mundo ideal, seríamos como livros numa estante iluminada: diferentes por fora, surpreendentes por dentro e igualmente dignos de ser lidos. Ainda assim, há quem prefira julgar pela capa, como se a cor da lombada pudesse resumir a profundidade das páginas. Ironias da vida: até os livros, que não têm voz, sabem conviver melhor do que nós.

E já que hoje também se celebra a poesia, importa lembrar que nenhum poema se repete só porque rima, e nenhuma metáfora perde valor por ser diferente. A poesia habita a diversidade — de ritmos que se cruzam, de imagens que se misturam, de sentidos que se revelam quando se ousa ler além da superfície. Talvez fosse útil aplicarmos essa mesma sensibilidade ao mundo real.

E porque é também Dia da Árvore e das Florestas, não custa recordar que nenhuma floresta existe com um só tipo de ser. As árvores crescem lado a lado, sem discutir tonalidades de casca, sem exigir que todas deem o mesmo fruto. Raízes diferentes podem entrelaçar-se no mesmo solo; copas distintas podem partilhar a mesma luz. A natureza não discrimina — floresce.

Hoje, entre livros, poemas e árvores, a mensagem é simples e antiga: a diversidade não é um problema a resolver, mas uma riqueza a preservar. Hoje é o dia para abrir a porta — e deixá-la aberta para sempre.

© Fernando Alagoa


segunda-feira, 16 de março de 2026

SE O MUNDO OUSASSE

E se, em vez de guerras, construíssemos navios que fossem jardins sobre o mar?

Porta‑aviões que não transportam medo, mas sementes por germinar.

Que atravessam o oceano como quem leva um abraço a quem tem frio.

Navios onde o ar cheira a pão acabado de cozer,

onde as paredes guardam risos,

onde cada corredor é um caminho de regresso à dignidade.


E se os drones que cruzam o céu fossem apenas pequenos guardiões,

a deslizar sobre campos de flores,

a seguir o brilho dos rios,

a ouvir o coração profundo dos mares?

Máquinas que não procuram alvos — procuram vida.

Que não vigiam fronteiras — vigiam fragilidades.

Talvez seja isto que nos falta:

virar o mundo com a delicadeza de quem vira uma pétala caída,

e descobrir que, do outro lado, ainda há luz.

Usar a mesma inteligência que hoje ergue muros

para construir abrigos.

A mesma tecnologia que hoje vigia destruição

para vigiar renascimentos.


Imagina um “porta‑esperança”:

um navio onde a noite brilha com estufas suspensas,

onde as vozes ensinam alfabetos e canções,

onde os passos não treinam guerras,

mas gestos de cuidado.


Não é fantasia.

É só uma escolha que ainda não fizemos.

E todas as escolhas começam assim: num sussurro,

num pensamento pequeno, quase tímido,

o de acreditar que o impossível é apenas o que ainda não tentámos.


Porque a verdadeira força nunca esteve no cano de uma arma,

mas na ternura que resiste.

E a vitória verdadeira nunca foi conquistar território,

mas garantir que ninguém fica esquecido.


A humanidade sabe ser grande.

Só precisa de recordar o caminho de volta ao seu próprio coração.


© Fernando Alagoa

quinta-feira, 12 de março de 2026

AGITAR O MUNDO AO SABOR DE CAPRICHOS

Há males que vêm por bem — uso o ditado com reservas, mas a ideia merece destaque. Se há algo que esta guerra nos pode ensinar, é que negociar com ditadores quando convém e descartá‑los quando interessa não é apenas uma postura ingénua: é perigosa. Mais importante ainda, creio que está na hora de o mundo investir seriamente em investigação que permita encontrar alternativas viáveis aos combustíveis fósseis. O planeta agradece, e limita‑se o poder de líderes que não hesitam em pôr o mundo de rastos para servir os seus próprios interesses.

A verdade é que, nestes tempos estranhos, percebemos que tanto os ditadores como certos líderes das democracias, quando desprovidos de bom senso, agitam o mundo ao sabor dos seus caprichos, ignorando o bem da casa comum. As novas evidências — no caso europeu, uma dependência energética que há muito se tornara insustentável — apenas confirmam o óbvio: existiam alternativas que se impunham há décadas. Teria sido ajuizado procurar outras, cuja investigação já demonstrava serem possíveis. Porém, os interesses ligados ao petróleo preferiram perpetuar a dependência, alimentando um sistema que nos mantém vulneráveis e politicamente reféns. Ignorá‑las foi um erro estratégico; persistir nesse erro seria uma irresponsabilidade histórica.

© Fernando Alagoa

quarta-feira, 11 de março de 2026

A MESMA REGRA, A MESMA DOR, A MESMA INJUSTIÇA

MESI - Modelo de Estabilização Social da Inflação

O modelo clássico de combate à inflação precisa urgentemente de ser repensado, com ousadia e criatividade. Manter a mesma receita de sempre — que combate a inflação transferindo o dinheiro das mãos de quem luta para pôr alimentos na mesa para o entregar a jactos e iates particulares — é desajustado, injusto e socialmente insustentável. A política monetária não pode continuar a operar com uma visão cega, indiferente às desigualdades estruturais e às fragilidades específicas de países como Portugal. A estabilidade financeira não pode ser construída à custa da instabilidade, leia-se, da miséria social.

A inflação é um fenómeno económico, mas as suas consequências são profundamente humanas. Quando os preços sobem devido a choques externos — como o aumento dos combustíveis, da energia e das matérias‑primas — não são os mercados que sofrem, são as famílias. Num país como Portugal, onde os salários são baixos, a poupança é reduzida e a dependência do crédito à habitação é elevada, basta a subida dos bens essenciais para empurrar milhares de pessoas para a vulnerabilidade económica. Perante esta realidade, insistir numa política de combate à inflação baseada exclusivamente na subida das taxas de juro, sem olhar às realidades de cada país, é aplicar um castigo duplo a quem bastava um só para viver em aflição.

A subida das taxas de juro, quando aplicada mecanicamente, agrava o sofrimento das famílias e das empresas. Primeiro, a inflação corrói o poder de compra. Depois, o aumento das prestações da habitação e dos créditos empresariais retira o pouco que resta. Este mecanismo transfere rendimento dos devedores para os credores, dos trabalhadores para os detentores de capital, das famílias para o sector financeiro. Não é apenas uma questão económica — é uma questão de justiça social.

Urge a criação de um Modelo de Estabilização Social da Inflação, que eu designaria por MESI, que visaria introduzir um novo paradigma: combater a inflação sem destruir vidas. Este modelo teria como ponto principal o congelamento temporário das taxas de juro dos créditos à habitação e dos créditos empresariais essenciais sempre que a inflação seja causada maioritariamente por factores externos e sempre que a subida das taxas de juro não contribua para resolver a origem do problema. O objectivo é impedir que a política monetária se transforme numa máquina de empobrecimento.

Este congelamento não impede o Banco Central de ajustar as taxas de juro, nem compromete a estabilidade financeira. Pelo contrário: cria um amortecedor social que protegeria famílias e empresas, reduziria incumprimentos, evitaria falências desnecessárias e manteria a economia interna funcional durante períodos de choque externo. Os bancos continuariam a receber, o sistema financeiro manter-se-ia estável, mas o impacto deixaria de recair exclusivamente sobre os mais vulneráveis.

Além disso, é incompreensível que, em períodos de inflação elevada, o Estado arrecade milhões adicionais em impostos — nomeadamente através do IVA e dos combustíveis — sem que exista um mecanismo automático de devolução parcial desse excedente às famílias e empresas mais afectadas. Impõe-se, por isso, que parte das receitas fiscais extraordinárias seja devolvida através de reduções temporárias de IVA nos bens essenciais.

Esta ideia avançada assenta num princípio simples: a economia deve servir a sociedade, não o contrário. Combater a inflação é necessário, mas combatê‑la à custa das pessoas é inaceitável. Portugal precisa de um modelo de política económica que reconheça a sua realidade específica e que proteja o seu tecido social. O MESI oferece uma alternativa equilibrada, humana e eficaz: combater a inflação sem agravar a pobreza, proteger a economia sem sacrificar famílias e garantir que o Estado cumpre o seu papel de estabilizador social.

© Fernando Alagoa

terça-feira, 10 de março de 2026

VIVER É SÓ ISTO?

Questiono-me muitas vezes se viver é só isto.

Não esqueço, nem enjeito, que a vida é feita de momentos: momentos de tristeza, pequenos instantes de felicidade, a importância da família e dos amigos, o tal “sucesso” pessoal e profissional e, entre tudo isso, a relevância absoluta da saúde.

Mas não é disso que falo. Refiro-me ao mundo: ao ódio, à inveja, à exploração do ser humano, às guerras que se repetem como vícios antigos que ninguém que
stiona.

Imaginava que, chegados ao primeiro quartel do século XXI, se não habitássemos já na Lua ou em Marte, tivéssemos pelo menos conseguido aproximar-nos de um paraíso possível aqui na Terra. Não falo de felicidade eterna nem de miragens de pessoas boazinhas ao estilo dos filmes do urso Paddington, onde se celebra a bondade, a educação e o altruísmo genuíno — embora, se assim fosse, ninguém perderia nada.

Falo de um mundo onde, pelo menos, imperassem alguns valores básicos: respeito, honestidade, empatia, responsabilidade, solidariedade. Coisas simples, quase banais, que no entanto,
hoje, parecem luxos de museu milenar.

Infelizmente, tudo isso se tem vindo a perder. Pior ainda: a facilidade com que se invoca o direito à violência para justificar o injustificável. Seja a violência direta entre pessoas
(violência doméstica, violência no namoro, bullying, desacatos, terrorismo), seja a violência entre países, sempre embrulhada em discursos solenes que procuram dar dignidade ao absurdo.

Invoca-se a necessidade de uma guerra e bombardeiam-se países com a mesma leveza com que se vai ao cinema, como se a destruição fosse apenas mais um espetáculo de fim de tarde.

E nós, espectadores obedientes, habituámo-nos.

É talvez isso que mais assusta: a normalidade do horror, a rotina da indiferença, esta capacidade de engolir tragédias como quem toma comprimidos para dormir. A humanidade tornou-se especialista em arrumar cadáveres na gaveta da memória e seguir em frente, desde que o sangue não salpique o sofá e se mantenha do lado de dentro do ecrã do telemóvel.

Vivemos rodeados de discursos sobre progresso, inovação, futuro: palavras bonitas que servem para disfarçar a velha miséria moral que nunca chegámos a resolver. Continuamos a confundir tecnologia com evolução, riqueza com dignidade, ruído com pensamento. E no meio disto tudo, fingimos que sabemos viver, quando na verdade apenas sobrevivemos ao dia seguinte.

Talvez seja esta a nossa maior tragédia: a facilidade com que desistimos de ser melhores e a rapidez com que nos acomodamos ao pior.

No fim, viver não é só isto — mas é isto que fazemos
da vida, e esse é o verdadeiro escândalo.

© Fernando Alagoa

segunda-feira, 9 de março de 2026

USURA PARADISÍACA

Abençoada guerra!

Não há como uma crise internacional e um governo em estado apático permanente para transformar oportunistas em visionários. O meu armazém continua a transbordar de produtos suficientes para abastecer o mercado nacional durante um ano inteiro, mas se o mercado internacional tropeça, por que não aproveitar o tropeção? Subo os preços com a serenidade de quem se limita a seguir “as regras do jogo”. A propaganda encarrega‑se do resto — repete, repete, repete — e eu limito‑me a acenar com ar inocente.

É o mercado a funcionar, murmuram, como quem recita uma lei da natureza. Entretanto, aqueles que viram as casas arrastadas pelas águas e as colheitas devastadas pelas tempestades, tal como o resto da população, serão chamados a pagar o preço destes aumentos escabrosos. Hão de tentar sobreviver com salários que mal chegam para sustentar o corpo, quanto mais o futuro.

Resta‑lhes a magra consolação filosófica de saber que habitam um sistema impecavelmente eficiente, desde que se pertença ao lado certo da eficiência.

Consciência social? Só para quem ainda acredita que o capitalismo tem coração, ou que os colecionadores de marfim choram pelos elefantes.

A insensibilidade tecnocrática, a acumulação de impostos, a falha em garantir direitos económicos e sociais e a permissão de uma escalada imediata de preços — que se traduzem num desequilíbrio entre lucros corporativos e rendimentos das famílias — configuram uma forma de violência estrutural e um abuso por omissão.

© Fernando Alagoa


sábado, 7 de março de 2026

ARTE, ARTISTAS e CIÊNCIA

Vejo a Casa d’Amália com a mesma admiração daquele garoto que sonhava ser cantor, mas a quem Deus, num daqueles gestos que nunca se explicam, decidiu oferecer outros atributos. À bênção de a ouvirmos junta-se este saudosismo que as canções de outrora, nas vozes divinais de hoje, nos devolvem como se fossem cartas antigas encontradas numa gaveta esquecida — em busca do tempo perdido — que já não volta. A idade tem destas ternuras que a juventude raramente entende, talvez porque ainda não aprendeu a despedir-se. E depois penso nesta sociedade de consumo, nos programas que nos entram pelos olhos dentro e nos vão corroendo o cérebro, triturando neurónios como quem passa tudo a pente fino até não sobrar nada, e pergunto-me se as direcções de programas de certas televisões terão perdido o norte ou se a guerra pelas audiências passou a justificar tudo, até o vazio que esses formatos nos oferecem com a arrogância de quem acha que nos faz um favor.

Vinte e seis anos, repito, 26 anos de Big Brother, não é alucinação nem delírio: é uma espécie de transe colectivo, uma dormência prolongada que talvez a ciência um dia consiga explicar. Como se a alienação não bastasse, acrescentam ao catálogo deprimente primeiras companhias, agricultores de plástico e outras pérolas da mesma estirpe, todas embrulhadas no mesmo celofane brilhante que esconde a falta de substância.

A máquina que produz a Casa d’Amália devia ser replicada por toda a cultura e por todo o saber, e daqui envio um abraço ao José Gonçalez — que não conheço — e à sua equipa, pelos momentos extraordinários que nos têm oferecido ao longo dos anos, como quem acende uma luz num corredor demasiado comprido e obscuro.

Imagino, sem a grandeza de John Lennon, o que seria se todas estas equipas e investimentos fossem colocados ao serviço do teatro, do cinema, da música, do bailado, da literatura, da pintura, das ciências?!... Num dia teríamos a Casa d’Amália, no dia seguinte a Casa d’Amélia Rey Colaço, e depois a de Max, de Toni, de Carlos do Carmo, de José Cid, de Paco Bandeira, de Rui Veloso, de Ricardo Ribeiro, de Camané, de Pedro Abrunhosa, de Marisa, de Carminho, de Katia Guerreiro, de Cuca Roseta, e ainda a de Mário Cláudio, de Mário de Carvalho, de Camões, de Saramago, de Pessoa, de Lobo Antunes, de Rui de Carvalho, de Eunice Muñoz, de Diogo Infante, de Júlio Pomar, de Nádir Afonso, de Vieira da Silva, de Graça Morais, de Eduardo Lourenço, de Manuel Sobrinho Simões, de Carolina Beatriz Ângelo, de Raquel Boia, e ao lado delas as casas que guardam as memórias da cultura: Gulbenkian, Casa da Música, Companhia Nacional de Bailado, São Carlos, Casa das Histórias Paula Rego, Serralves, TAS, Comuna, Teatro Dona Maria e de tantos outros que me é impossível enumerar. Lugares onde a arte ainda respira, mesmo quando o país parece esquecer-se de que precisa dela para continuar a ser país, como quem se esquece de regar uma planta e depois se espanta por vê-la morrer.

Em vez disso, temos rios de euros e gravações de coisa nenhuma, e penso muitas vezes nisto, no país que nos tornámos, na pseudo‑democracia que prolifera em interesses, propaganda e alienações, esquecendo que a grandeza de um país se faz pela cultura e também por aqueles que trabalham para que haja comida na mesa, libertando-nos o pensamento para a grandeza da ociosidade. Sim, refiro-me aos verdadeiros agricultores, pescadores, pastores..., esses que mereciam o regresso de um “TV Rural” que lhes desse o destaque que verdadeiramente têm nas nossas vidas.

Um país que esquece a sua cultura não perde apenas memória: perde a capacidade de se reconhecer ao espelho.

© Fernando Alagoa

sexta-feira, 6 de março de 2026

MORTE

Homenagem a António Lobo Antunes

A morte, mais do que assustadora, é um verdadeiro estado de aborrecimento. Hoje estamos e amanhã já não estamos. Há qualquer coisa de ficção científica nisto, tipo Espaço 1999: um momento estamos aqui, no outro enviam-nos para um sítio qualquer sem nos pedirem autorização, como se fossemos um eco ou uma luz fluorescente.

Sempre me pareceu que a morte tem ar de elevador avariado: carregamos no botão, esperamos, esperamos, e quando finalmente chega, vem sempre para o piso errado.

O que mais me irrita é não poder beijar, ouvir música, ler um bom livro, fumar ou comer uma bela feijoada acompanhada de um tinto divinal. Imagino o além como um sítio onde tudo sabe a puré de batata requentado, servido por almas que já desistiram de temperos. Talvez haja feijoada, mas sem sal, sem gordura, sem alegria — uma feijoada metafísica, que é como dizer: nada. Ao menos que no além nos deixassem abusar do tabaco e do colesterol.

Isto de morrer incomoda-me solenemente. Não saber onde vou acordar no dia seguinte, sem hora marcada nem local certo, é muito inconveniente. A vida até era um tanto ou quanto tranquila; já a morte, ao que parece, é uma espécie de intervalo confuso e demasiado longo entre dois pensamentos esquecidos, daqueles que nos fazem perder o fio à meada e perguntar: “O que é que eu vim aqui fazer?”

Às vezes imagino que morrer é acordar num sítio onde finalmente ninguém nos incomoda. Um descanso absoluto. Mas conhecendo‑me, mesmo morto continuaria a entediar-me sem um bom desassossego — o que, convenhamos, estraga um bocado a eternidade.

E depois há esta coisa de não poder avisar ninguém. Como se fosse natural desaparecer sem aviso, sem deixar um bilhete, sem a importância de um “volto já”. Morre‑se e pronto, desaparece‑se como quem sai de fininho de uma festa aborrecida. A diferença é que na festa ainda se podia levar um croquete para o caminho para rematar um último gole de champanhe.

Deixo-vos uns livros e umas crónicas, pelo menos fico com a ideia que enquanto me lerem não morrerei.

Ainda assim, preferia o croquete e o champanhe  eu que até nem gosto de champanhe.

Morrer é mesmo uma chatice!

© Fernando Algoa

quinta-feira, 5 de março de 2026

DOCE ILUSÃO

No início desta guerra atroz, como são todas as guerras, alguém ligado ao sector dos combustíveis apressou‑se a garantir que os portugueses não tinham razões para se preocupar: existiam reservas para vários meses. O gás natural, vindo sobretudo do Norte de África, manteria estável o preço da eletricidade. Mas, no dia seguinte — ainda que a guerra pudesse terminar amanhã — a propaganda já reinava. Os preços dos combustíveis ganharam nova vida, como se tivessem encontrado um pretexto perfeito para crescer antes do tempo.

A ganância, que não conhece limites, é a personificação da falta de vergonha. Armazéns cheios a preços baixos não combinam com aumentos do crude que ainda nem chegaram. Mas isso pouco importa a quem aprendeu, durante a pandemia, que o medo é um negócio rentável. Rumores de uma “pandemia 2” ficaram em suspenso, à espera de dias mais propícios ao saque. Esses dias parecem estar à porta. Nada alimenta melhor fortunas fáceis do que o desespero alheio. Os juros espreitam. As dificuldades, a fome e a miséria também.

A ditadura persegue, silencia, aterroriza, tortura, mata. A pseudo‑democracia persegue, silencia, aterroriza, tortura, mata. Cada uma à sua maneira, ambas esmagam vidas e sonhos. A diferença é que a democracia nos oferece apenas a doce ilusão da liberdade — e talvez por isso a crueldade seja maior. A pseudo‑democracia age na sombra: aterroriza pela calada, mata sonhos com promessas vazias, rouba dignidade sem deixar marcas visíveis.

Na ditadura, um homem pode morrer a lutar pela liberdade — e morre com dignidade. Na pseudo‑democracia, um homem não morre por um ideal; morre lentamente, no degredo de uma imoralidade que não consegue combater.

© Fernando Alagoa.