Vejo a Casa d’Amália
com a mesma admiração daquele garoto que sonhava ser cantor, mas a
quem Deus, num daqueles gestos que nunca se explicam, decidiu
oferecer outros atributos. À bênção de a ouvirmos junta-se este
saudosismo que as canções de outrora, nas vozes divinais de hoje,
nos devolvem como se fossem cartas antigas encontradas numa gaveta
esquecida — em busca do tempo perdido — que já não volta. A
idade tem destas ternuras que a juventude raramente entende, talvez
porque ainda não aprendeu a despedir-se. E depois penso nesta
sociedade de consumo, nos programas que nos entram pelos olhos dentro
e nos vão corroendo o cérebro, triturando neurónios como quem
passa tudo a pente fino até não sobrar nada, e pergunto-me se as
direcções de programas de certas televisões terão perdido o norte
ou se a guerra pelas audiências passou a justificar tudo, até o
vazio que esses formatos nos oferecem com a arrogância de quem acha
que nos faz um favor.
Vinte e seis anos,
repito, 26 anos de Big Brother, não é alucinação nem delírio: é
uma espécie de transe colectivo, uma dormência prolongada que
talvez a ciência um dia consiga explicar. Como se a alienação não
bastasse, acrescentam ao catálogo deprimente primeiras companhias,
agricultores de plástico e outras pérolas da mesma estirpe, todas
embrulhadas no mesmo celofane brilhante que esconde a falta de
substância.
A máquina que
produz a Casa d’Amália devia ser replicada por toda a cultura e
por todo o saber, e daqui envio um abraço ao José Gonçalez — que
não conheço — e à sua equipa, pelos momentos extraordinários
que nos têm oferecido ao longo dos anos, como quem acende uma luz
num corredor demasiado comprido e obscuro.
Imagino, sem a
grandeza de John Lennon, o que seria se todas estas equipas e
investimentos fossem colocados ao serviço do teatro, do cinema, da
música, do bailado, da literatura, da pintura, das ciências?!...
Num dia teríamos a Casa d’Amália, no dia seguinte a Casa d’Amélia
Rey Colaço, e depois a de Max, de Toni, de Carlos do Carmo, de José
Cid, de Paco Bandeira, de Rui Veloso, de Ricardo Ribeiro, de Camané,
de Pedro Abrunhosa, de Marisa, de Carminho, de Katia Guerreiro, de
Cuca Roseta, e ainda a de Mário Cláudio, de Mário de Carvalho, de
Camões, de Saramago, de Pessoa, de Lobo Antunes, de Rui de Carvalho,
de Eunice Muñoz, de Diogo Infante, de Júlio Pomar, de Nádir
Afonso, de Vieira da Silva, de Graça Morais, de Eduardo Lourenço,
de Manuel Sobrinho Simões, de Carolina Beatriz Ângelo, de Raquel
Boia, e ao lado delas as casas que guardam as memórias da cultura:
Gulbenkian, Casa da Música, Companhia Nacional de Bailado, São
Carlos, Casa das Histórias Paula Rego, Serralves, TAS, Comuna,
Teatro Dona Maria e de tantos outros que me é impossível enumerar.
Lugares onde a arte ainda respira, mesmo quando o país parece
esquecer-se de que precisa dela para continuar a ser país, como quem
se esquece de regar uma planta e depois se espanta por vê-la morrer.
Em vez disso, temos
rios de euros e gravações de coisa nenhuma, e penso muitas vezes
nisto, no país que nos tornámos, na pseudo‑democracia que
prolifera em interesses, propaganda e alienações, esquecendo que a
grandeza de um país se faz pela cultura e também por aqueles que
trabalham para que haja comida na mesa, libertando-nos o pensamento
para a grandeza da ociosidade. Sim, refiro-me aos verdadeiros
agricultores, pescadores, pastores..., esses que mereciam o regresso
de um “TV Rural” que lhes desse o destaque que verdadeiramente
têm nas nossas vidas.
Um país que esquece
a sua cultura não perde apenas memória: perde a capacidade de se
reconhecer ao espelho.
©
Fernando Alagoa