O País de Brincadeira continua um espanto de consistência, habitado por um povo cuja submissão atinge níveis de um romantismo absolutamente comovente.
Miguel Torga, que já nos topava à légua, explicou o fenómeno com precisão cirúrgica: «É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.»
Sou e serei sempre contra a violência. O que se passa em França, por exemplo, é de um civismo bizarro. Aquela necessidade folclórica de queimar carros e vandalizar o património alheio, tudo sob o pretexto de exigir direitos, é incompreensível.
Mas sejamos justos: quando os governos franceses ou espanhóis decidem colocar-lhes o garrote ao pescoço, aquela gente tem a má educação de se zangar e sair à rua para estragar o jantar aos governantes. E estes, coitados, mesmo que fingindo com uma hipocrisia de mestre, lá têm de vir a público gaguejar respostas para acalmar a plebe.
Por cá? Por cá elevámos o mimimi a uma forma de arte abstrata.
Ocupar ruas, becos e jardins com tendas de protesto? Por quem nos tomam! Esse privilégio estético está estritamente reservado aos sem-abrigo de longa data e às "flores do narcotráfico" que os nossos sucessivos desgovernos criaram, alimentaram e mimaram com subsídios de ilusão.
O mundo evoluiu, mas a nossa burocracia estatal é intocável. Qualquer manifestação que ouse ser espontânea comete o sacrilégio de perder a legalidade se não enviar um requerimento com carimbo e pré-aviso, tal como manda uma venerável lei com mais de meio século. Até para gritar na rua é preciso pedir licença ao Estado. O espírito da ditadura dá sempre jeito a quem governa.
Se a história se escrevesse hoje, Abril não daria o sinal pela rádio; enviaria uma notificação formal com 48 horas de antecedência para garantir a legalidade da revolução.
Mas o verdadeiro brilhantismo, o toque de génio, não esteve em proibir as tendas, mas na belíssima histeria criada à volta delas. Com uma destreza mediática que merece palmas, os ilusionistas do poder conseguiram o milagre de apagar do mapa o pequeno detalhe que gerou o protesto: o facto de as rendas custarem os olhos da cara e a habitação ser um mito urbano.
Num passe de magia digno de Hollywood, o debate sério evaporou-se. O discurso “oficial”, convenientemente ofendido, ficou encalhado na arquitectura das tendas montadas por jovens numa contestação pacífica. A falta de casas? Um pormenor irrelevante. Discuta-se antes o impacto visual das tendas no espaço público, a legalidade, as cores, o feitio, a rapidez da montagem… mimimi. mimimi, mimimi.
Os nossos jovens ou são amavelmente convidados pelos governantes a emigrar, ou são brutalmente corridos à bastonada.
Que bom seria se um par de bastonadas implacáveis, no momento certo, fizesse aparecer as casas para quem delas precisa.
O
populismo nem precisa de se dar ao traba
lho. Os nossos ilustres
governantes,
auto-proclamados guardiões do "bom senso", tratam de nos
guiar — com o fulgor das suas acções
— directamente
para o abismo previsível.
© Fernando Alagoa





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