quinta-feira, 15 de outubro de 2026

PAÍS DE BRINCADEIRA: O REINO DO MIMIMI

O País de Brincadeira continua um espanto de consistência, habitado por um povo cuja submissão atinge níveis de um romantismo absolutamente comovente.

Miguel Torga, que já nos topava à légua, explicou o fenómeno com precisão cirúrgica: «É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.»

Sou e serei sempre contra a violência. O que se passa em França, por exemplo, é de um civismo bizarro. Aquela necessidade folclórica de queimar carros e vandalizar o património alheio, tudo sob o pretexto de exigir direitos, é incompreensível.

Mas sejamos justos: quando os governos franceses ou espanhóis decidem colocar-lhes o garrote ao pescoço, aquela gente tem a má educação de se zangar e sair à rua para estragar o jantar aos governantes. E estes, coitados, mesmo que fingindo com uma hipocrisia de mestre, lá têm de vir a público gaguejar respostas para acalmar a plebe.

Por cá? Por cá elevámos o mimimi a uma forma de arte abstrata.

Ocupar ruas, becos e jardins com tendas de protesto? Por quem nos tomam! Esse privilégio estético está estritamente reservado aos sem-abrigo de longa data e às "flores do narcotráfico" que os nossos sucessivos desgovernos criaram, alimentaram e mimaram com subsídios de ilusão.

O mundo evoluiu, mas a nossa burocracia estatal é intocável. Qualquer manifestação que ouse ser espontânea comete o sacrilégio de perder a legalidade se não enviar um requerimento com carimbo e pré-aviso, tal como manda uma venerável lei com mais de meio século. Até para gritar na rua é preciso pedir licença ao Estado. O espírito da ditadura dá sempre jeito a quem governa.

Se a história se escrevesse hoje, Abril não daria o sinal pela rádio; enviaria uma notificação formal com 48 horas de antecedência para garantir a legalidade da revolução.

Mas o verdadeiro brilhantismo, o toque de génio, não esteve em proibir as tendas, mas na belíssima histeria criada à volta delas. Com uma destreza mediática que merece palmas, os ilusionistas do poder conseguiram o milagre de apagar do mapa o pequeno detalhe que gerou o protesto: o facto de as rendas custarem os olhos da cara e a habitação ser um mito urbano.

Num passe de magia digno de Hollywood, o debate sério evaporou-se. O discurso “oficial”, convenientemente ofendido, ficou encalhado na arquitectura das tendas montadas por jovens numa contestação pacífica. A falta de casas? Um pormenor irrelevante. Discuta-se antes o impacto visual das tendas no espaço público, a legalidade, as cores, o feitio, a rapidez da montagem… mimimi. mimimi, mimimi.

Os nossos jovens ou são amavelmente convidados pelos governantes a emigrar, ou são brutalmente corridos à bastonada.

Que bom seria se um par de bastonadas implacáveis, no momento certo, fizesse aparecer as casas para quem delas precisa.

O populismo nem precisa de se dar ao traba
lho. Os nossos
ilustres governantes, auto-proclamados guardiões do "bom senso", tratam de nos guiar — com o fulgor das suas acções — directamente para o abismo previsível.

© Fernando Alagoa


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

IMPLANTAÇÃO da REPÚBLICA PORTUGUESA | O ECO das PALAVRAS e o PESO da REALIDADE

Meditando na ampulheta da vida, concluo que sou um sexagenário. A palavra em si mesma parece carregar um peso incomensurável, embora não passe de um mero número, uma marca no calendário da existência. Mas a idade, essa velha conselheira, traz-nos a sabedoria da aprendizagem, a leveza da relativização e, paradoxalmente, a capacidade de reter a juventude da actualidade, olhando o presente de frente.

Serve este preâmbulo para constatar que hoje, uma vez mais — cumpro talvez a quadragésima estação desta romaria na minha vida adulta —, assisti atentamente à liturgia dos discursos proferidos nas comemorações da República. Reconheço que foram belas homilias. No entanto, aquilo que ecoou dos palcos, salvaguardando o verniz tecnológico e global característico da nossa era, podia ter sido declamado em qualquer outro ano ou década. São palavras esculpidas em blocos de gelo, quase de uma beleza poética, mas com a densidade do fumo: perfeitamente moldadas, mas sem força de conteúdo.

Enquanto a retórica oficial brilha sob os holofotes, o País real caminha de costas para o futuro. Chegados a 2026, paira a certeza de que ou tocámos finalmente o fundo do abismo, ou transformámos o próprio abismo na nossa nova morada. E isto não são névoas da percepção; é a realidade nua que nos bate à porta: o florescer impune da criminalidade, a gritante anemia de meios das nossas forças de segurança e um manto de desresponsabilização que absolve quem se dedica à criminalidade. Assistimos ao naufrágio total de pilares que deviam ser as fundações da nossa casa: a saúde na penumbra, a justiça cega e estática, a educação à deriva e a habitação transformada em miragem. Importámos com orgulho os preços da vanguarda europeia, mas oferecemos em troca as condições do terceiro mundo.

Dizem-nos os guardiões do regime que o grande lobo às portas é o extremismo. Que doce ironia. Os decisores actuais não precisam de temer o populismo; os políticos da alegada sensatez, da ponderação de gabinete, da igualdade de retórica e da democracia de fachada bastarão perfeitamente para demolir o que gerações inteiras ergueram com suor, sangue e lágrimas.

Nada haverá de mais extremista, com visíveis sintomas de ditadura, do que vedar o acesso popular aos paços do município por mero temor às contestações. Um País que festeja os seus dias mais importantes à porta fechada, apenas para gáudio das elites, está irremediavelmente condenado ao insucesso — embora, de olhos bem fechados e embriagado pela própria vaidade, ainda o não saiba.

Resta saber se este velho País, que deixa os idosos ao abandono e expulsa os mais jovens para lá das suas fronteiras, ainda conserva no seu povo a coragem de acordar antes que o manto do esquecimento e da ruína cubra em definitivo a nossa História. Uma pátria não se alimenta da mansidão dos discursos; ou reage, ou definha até se tornar numa mera e irrelevante colónia fiscal e identitária. A nossa tolerância com a decadência é, afinal, o preço que pagamos pela nossa própria extinção.

© Fernando Alagoa



domingo, 20 de setembro de 2026

EVOLUÇÃO, SANITAS DE LUXO E OUTROS RESÍDUOS MODERNOS COM OU SEM VOLTA

O ser humano perdeu o juízo, mas não se preocupem: foi um processo lento, cuidado e altamente planeado.

É o ciclo virtuoso do planeamento moderno: erradica-se o útil, inventa-se o inútil, cria-se o problema e factura-se a solução com o dinheiro do contribuinte. Afinal, mudar de ideias e de infraestruturas ao sabor do vento é sinal de progresso.

Hoje em dia, graças a este design urbano avançado, ninguém ousa beber água da torneira na rua; tem de se comprar a mesma água numa garrafa de plástico que outrora brotava de uma nascente que os nossos antepassados tiveram a delicadeza de nos deixar de graça. E quanto às outras necessidades básicas? Esqueçam os arbustos; agora mija-se com o aval da alta finança num monstro de aço autolimpante de 40.000 euros por unidade, com uma avença anual de manutenção que custa mais do que um Tesla.

No meu tempo de infância, a Idade da Pedra local, as vilas e cidades tinham a mania arcaica de ter chafarizes, fontes e bicas em cada esquina. Havia água de borla e até sanitários públicos onde o cidadão aliviava a bexiga sem precisar de um mestrado em engenharia civil. Mais bonito ainda: as garrafas de vidro tinham valor. Devolvia-se o vasilhame e davam-nos o troco. Que desperdício de atraso de vida.

Veio a luminosa modernidade e salvou-nos com a sua elite engomada e de pensamento cirurgicamente esterilizado. Com base numa tese académica brilhante, decidiram que o ser humano evoluído deixaria de comer, beber, mijar ou cagar na via pública. Problema resolvido por decreto mental. As garrafas de vidro passaram a ser um insulto ao plástico descartável e, num ápice de génio poluidor, inventou-se a "tara perdida" — o belo conceito de pagar por lixo para encher os vales e os oceanos.

Anos mais tarde, os descendentes desses mesmos iluminados, agora com uma queda natural para a filantropia da usura, descobriram que podiam salvar o planeta cobrando mais 10 cêntimos e baptizaram a salvação com um belo logótipo chamado "Volta". Uma janelinha no supermercado a custo irrisório? Ridículo! Precisávamos era de uma frota de robôs comedores de plástico de 150 milhões de euros para justificar a nossa eterna propensão para complicar o óbvio. Enquanto outros países reintroduzem fontes públicas nas ruas, nós reintroduzimos o plástico com selo de alta tecnologia.

Conclusão lógica: a desgraça humana e a eliminação do bom senso não começaram com a Inteligência Artificial. A cretinice estrutural sempre foi gerida por especialistas — e a merda, quando taxada a preço de ouro, é afinal um negócio de milhões.

© Fernando Alagoa

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O PARAÍSO PORTUGUÊS

Ontem, ao deslocar-me a Lisboa, depois de algumas semanas imobilizado devido a uma fractura numa costela, compreendi perfeitamente porque o Governo não cede no que respeita à descida do preço dos combustíveis. A Ponte 25 de Abril estava a abarrotar; veículos de última geração engalfinhavam-se para a atravessar. Até lá chegar, fruto desse instrumento de viabilização dos caminhos que dá pelo nome de rotundas — uma espécie de cogumelos nascidos da inteligência de um qualquer Desmurget, embora aqui os cretinos sejam outros —, há veículos a lutar pelos míseros espaços que a aglutinação permite. A cada entrada na via rápida, alegam, surgem, tal acto felino, mais uma centena enfurecida de motores gritantes.

Já pelas ruas citadinas, o desespero não é menor. Ainda cedo, as esplanadas já rivalizam com as estradas: cafés, bolos, sandes, com os empregados a alternarem-se no virote de pedidos e excentricidades. Ao almoço, cadeiras e mesas são disputadas com entusiasmo quase enfurecido. Almoços e cafés apressados, povoam espaços em autênticas rodas giratórias. Pelas ruas da cidade, apinha-se gente às cotoveladas entre dóceis carteiristas, charros descontraídos e sestas expressivas.

Portugal é o paraíso! Não insistam em anunciar que no Luxemburgo, na Suíça, na Suécia ou na Dinamarca é que se vive bem. Com estes salários de miséria conseguimos milagres, pelo que ganhar mais seria o ócio total. Os combustíveis ainda não alcançaram os 5 euros por litro, mas com este existir sofredor e um espírito crítico que só se manifesta entre futeboladas e big brothers, amanhã tudo é possível.

© Fernando Alagoa

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

BANQUETE DAS MIGALHAS OU A ILUSÃO DOS ABONOS AOS PROFESSORES NA ERA DA DIGITALIZAÇÃO

Depois do caos gerado em torno da digitalização das provas de exame, assistiu-se a uma aparatosa campanha de propaganda governamental destinada a apregoar a "justa compensação" atribuída aos docentes. Apresentada como um acto de elementar justiça, esta remuneração pretendia ressarcir os profissionais que abdicaram do seu tempo de descanso para, com afinco e sentido de Estado, minimizar o desastre provocado pela manifesta incompetência logística da tutela. Contudo, confrontados com a realidade dos números, o que se prometia como uma valorização profissional revelou-se uma profunda afronta.

A aplicação prática do modelo de pagamento por "item" resultou num cenário irrisório: a avaliação minuciosa de cerca de 173 perguntas (num caso em concreto) traduziu-se numa "memorável riqueza" que mal cobre o desgaste psicológico do processo. O paradoxo torna-se ainda mais gritante quando se analisa a dimensão fiscal desta operação. Sob a capa de um pagamento extraordinário, o Estado acaba por reter em impostos uma fatia desproporcional do valor bruto atribuído, arrecadando frequentemente mais do que aquilo que efectivamente paga aos professores. É a consumação de uma ironia perversa: o próprio organismo que cria a crise beneficia financeiramente com o esforço daqueles que a resolveram.

Para agravar esta asfixia fiscal, subsiste o impacto a longo prazo no rendimento anual dos docentes. A inclusão desta escassa remuneração no cômputo global dos rendimentos pode, por via da progressividade do IRS, empurrar hipoteticamente o trabalhador para uma mudança de escalão de retenção ou de liquidação final. O resultado prático é devastador: um acréscimo marginal e pontual de rendimento transforma-se numa carga fiscal significativamente superior sobre todo o salário anual, anulando qualquer vestígio de benefício financeiro.

Em suma, a gestão dos abonos da correção digital demonstra que não há melhor estratégia para o erário público do que capitalizar sobre os seus próprios erros. Cria-se a crise, exige-se o sacrifício de terceiros e, no final, retêm-se os impostos de forma indevida sobre o suor de quem salvou o ano lectivo.

Concretiza-se, assim, o avesso daquela máxima do cinema português que dita que "ou há moralidade ou comem todos": neste caso, sem ponta de moralidade, no fim, só o Estado se banqueteia.

© Fernando Alagoa

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

CANTO DO ESTUDANTE CONQUISTADOR

Reza a história (versão cinematográfica para acentuar o drama) que Alexandre, o Grande, ao olhar para o mapa do mundo conhecido, chorou copiosamente. O jovem imperador, sentado num trono de ouro e mordomias, lavou-se em lágrimas porque já não tinha mais impérios para conquistar, nem reis para humilhar.
Séculos mais tarde, a história repete-se, nos bolsos dos conquistadores do conhecimento.
Hoje, na verdade, foi ontem, o trauma persiste, o estudante moderno olhou para a conta bancária e também chorou.
Não houve lágrimas por falta de mundos para conquistar. Houve lágrimas por falta de fundos para estudar!
Enquanto Alexandre tinha o mundo aos seus pés e uma fortuna incalculável, o jovem conquistador do conhecimento percebeu, num vislumbre de horror e comédia, que o seu orçamento para os estudos foi completamente aniquilado. O "império das propinas", as "hordas de fotocópias e livros" e “as usuras habitacionais”, avançaram mais rápido do que a cavalaria macedónica, deixando os cofres plebeus mais vazios do que a biblioteca de Alexandria depois do incêndio.
E no meio desta crise geopolítica-financeira, ergue-se o grande mistério da humanidade: Porque é que o Euromilhões continua a falhar miseravelmente todas as semanas?!
Aparentemente, as estrelas da Santa Casa decidiram fazer um motim digno dos soldados de Alexandre na Índia. Recusam-se a avançar, recusam-se a alinhar e deixam o nosso herói a ver o elevador social a descer sem esperança de subir. O algoritmo da lotaria tem-se revelado um inimigo mais implacável do que o Rei Dario, cortando a linha de abastecimento financeiro precisamente na noite de sexta-feira.
Alexandre conquistou a Pérsia, o Egito e a Babilónia. O estudante de 2026, por sua vez, tenta a todo o custo conquistar o diploma... rezando para que o próximo sorteio faça justiça histórica e financie, finalmente, a sua campanha académica.
Até lá, o lema é chorar e acender velinhas aos santos. O mundo já não pertence a Alexandre, o Grande. Hoje, os Grandes são outros — a alimentação, os combustíveis, os juros... —, todos bem patrocinados por ilusões que legalizam o esbulho outrora alcançado pelas armas.
© Fernando Alagoa

terça-feira, 25 de agosto de 2026

África

Há dias, revi “África Minha” do princípio ao fim. Provavelmente, como muitos de vós, marquei presença na estreia, em 1986. As narrativas de Karen fizeram-me recordar uma tia-avó que nos deliciava com as suas histórias.

A minha tia-avó dizia que África não se visita, habita-se. Que não se esquece, mesmo quando a partida se impõe. Visitei África uma única vez, mas tenho família que emigrou, nasceu e cresceu em África até que a vida o permitiu. As imagens do filme, sublimes, acompanhadas pela delicadeza da música transportaram-me para as histórias da minha tia. Não eram histórias de colonos. Eram histórias de vida, de quem aprendeu a amar África, das pessoas, das cores, do cheiro inconfundível da terra: a terra molhada após a primeira chuva, o dourado da savana ao entardecer, o murmúrio das acácias ao vento.

Havia algo na maneira como Karen olhava o horizonte, não com saudade, mas com reconhecimento. Como quem vê o próprio rosto num espelho antigo. Talvez África não seja um lugar, mas um modo de ver. Uma forma de habitar o mundo sem o possuir.

Alguns do meus familiares voltaram, outros conheceram Portugal pela primeira vez, mas África permaneceu-lhes na memória. Não sei se foi o cheiro da terra, ou a luz, ou o silêncio que só existe onde ninguém te ouve chorar. Talvez fosse tudo isso, junto com a certeza de que se pode perder uma pátria e ganhá-la noutro lugar.

John Barry toca-nos a alma. A imagem respira. Fica, no peito, aquela sensação estranha e doce de pertença a algo que nunca foi teu — e que, no entanto, te possuiu por completo.

Quarenta anos depois, e ainda assim, parece que foi ontem. O tempo não passa; dobra-se no trilhar do caminho, e nós ficamos no meio dele.

© Fernando Alagoa

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

14 MILHÕES POR DIA. SÃO MIGALHAS, SENHOR.

Portugal tornou‑se um país onde o quotidiano se mede em cêntimos e a esperança em parcelas. Nas filas da saúde pública, nos recibos da renda, nos salários que mal chegam para sustentar uma semana de vida digna, o cidadão aprende a arte antiga da contenção. E, enquanto aperta o cinto, observa a prosperidade exuberante de quem vive do dinheiro dos outros. A desproporção é uma constatação amarga.

A banca, essa entidade abstracta que se apresenta como indispensável, regista lucros diários que ultrapassam os 14 milhões. Não se trata de uma epopeia de inovação, nem de um triunfo da engenhosidade nacional. É, antes, o resultado de uma engenharia mais simples: prestações de crédito que sobem automaticamente, comissões que se multiplicam como cogumelos após a chuva, custos de manutenção de conta que se insinuam nos extractos como pequenas mordidelas, taxas por serviços mínimos que já não têm nada de mínimos. Cada gesto financeiro do cidadão — guardar, transferir, consultar — é convertido em receita. A banca descobriu que pode cobrar por tudo, e fá‑lo com a elegância de quem serve um banquete enquanto recolhe discretamente o ouro dos talheres.

O Estado, que deveria ser árbitro, surge muitas vezes como espectador. Exige com fervor, mas entrega com parcimónia. Cobra impostos como se fosse guardião de um modelo nórdico, mas administra serviços como se estivesse eternamente em remendo. A burocracia, essa velha senhora que nunca se reforma, continua a tratar o cidadão como súbdito, não como contribuinte. E assim, entre exigências e omissões, o país vai aprendendo a sobreviver com o que sobra.

Esta realidade não é fruto do destino, mas de escolhas. Escolhas políticas, escolhas económicas, escolhas de conveniência. A concorrência bancária é limitada, a regulação é tímida, e a economia parece construída para proteger sectores inteiros enquanto expõe a população ao risco e à precariedade. O trabalhador ganha 5 ou 6 euros por hora; a banca lucra milhões no mesmo intervalo. A desigualdade não é acidente: é arquitectura.

Enquanto a banca engorda sem esforço, Portugal emagrece sem alternativa. A classe média encolhe como roupa lavada em água demasiado quente; os jovens partem, não por aventura, mas por necessidade; os idosos sobrevivem com a dignidade possível. E o Estado observa, talvez habituado, talvez resignado, talvez cúmplice.

O contraste é o que fere. Não é o lucro, é a desproporção. Não é a prosperidade, é a assimetria. Não é a economia, é o país que fica de fora dela. Enquanto os bancos celebram resultados históricos, Portugal vive resultados trágicos: salários baixos, habitação inacessível, serviços públicos em colapso. A prosperidade de uns ergue‑se sobre a renúncia de muitos.

E assim, ano após ano, a velha fábula repete‑se: a Grande Porca renasce, os poderosos banqueteiam‑se, e o povo volta a servir‑se do que sobra.

São migalhas, Senhor!

© Fernando Alagoa


quarta-feira, 29 de julho de 2026

DEVASSAS GABINETISTAS

Pouco importa o alvo da devassa. A notícia existe, é factual, mas o que realmente sucedeu, como tantas coisas que acontecem entre paredes grossas e corredores silenciosos, ainda terá de ser apurado. O que salta à vista, porém, é a celeridade quase coreografada com que alguns se apressam a inverter a análise: não se questiona a segurança da Assembleia da República, nem se pondera a autoria do acto; discute‑se, isso sim, se o ocupante do gabinete devia ter trancado a porta, como qualquer mortal que teme o furto da bicicleta na arrecadação.

São deliciosos, no seu absurdo, os comentários sobre o fecho da porta à chave e as lições improvisadas sobre a “segurança mínima” que qualquer alma prudente deveria garantir. Como se a casa da democracia fosse um prédio de rendimento, onde cada um deve cuidar do trinco porque o senhorio não aparece há meses. O argumento, além de falacioso, tem um encanto perverso: transforma um problema institucional num alegado descuido doméstico.

Na casa do povo devia imperar uma segurança inabalável — não apenas por decoro, mas por respeito ao próprio símbolo que ali se ergue; podia chover diamantes no corredor, porque a rectidão de carácter deve imperar no inquilinato parlamentar, nem um se perderia. E se, segundo alguns, o cuidado exigido a quem trabalha no Parlamento deve ser o mesmo que qualquer cidadão precisa de ter na via pública, o que pensar? Talvez estejamos a assistir ao nascimento de uma nova doutrina: a democracia como habitação colectiva, onde cada um é responsável pelo seu cadeado.  

© Fernando Alagoa

domingo, 19 de julho de 2026

O PAPEL INSUBSTITUÍVEL DOS PROFESSORES

Num tempo em que tudo parece acelerado, imediato e descartável, há uma força silenciosa que continua a sustentar o futuro: os professores. São eles que, dia após dia, despertam nas salas de aula aquilo que nenhuma tecnologia consegue fabricar, o espírito crítico, a curiosidade, a capacidade de questionar e de imaginar novos mundos.

A missão de ensinar nunca se limita à transmissão de conteúdos. Os professores são, tantas vezes, o primeiro farol que ilumina talentos escondidos, que incentiva vocações, que inspira futuros profissionais de excelência. Quantos engenheiros, artistas, médicos, investigadores, escritores e cidadãos atentos ao mundo começaram o seu caminho porque um professor acreditou neles antes de eles próprios acreditarem.

Em Portugal, este papel ganha ainda maior relevo quando olhamos para a forma como a classe docente tem enfrentado desafios recentes — como a crise na correcção dos testes — com uma dignidade que não se proclama, mas se pratica. Mesmo quando o seu esforço é desvalorizado ou dissimulado, os professores mantêm o compromisso com a verdade, com o rigor e com a justiça educativa. Continuam a trabalhar, a corrigir, a orientar, a garantir que cada aluno recebe aquilo que merece: uma avaliação honesta e um ensino de qualidade.

É um gesto de resistência silenciosa, mas profundamente transformadora. Porque educar é, no fundo, um acto de esperança: acreditar que cada aluno carrega dentro de si um futuro que vale a pena construir.

Por isso, enaltecer os professores não é apenas reconhecer o seu trabalho, é reconhecer que sem eles não há progresso, não há cidadania plena, não há país que se levante. A sua ação é discreta, mas o seu impacto é imenso.

E é tempo de o dizer com clareza: os professores são uma das maiores forças de bem que Portugal tem.

© Fernando Alagoa

Imagem: Jean Geoffroy (1853-1924), L'École maternelle (c 1900), obra do domínio público.

domingo, 21 de junho de 2026

SNS, UMA AVENTURA HOSPITALAR

O homem propõe e Deus dispõe.

Por mais elaborados que sejam os nossos planos, há dias em que a providência decide trocar-nos as voltas. Pouco importa o tempo investido num objectivo quando, nesse instante preciso, o destino insiste em conduzir-nos por outro caminho. E mesmo que o homem do leme fosse mais do que ele próprio — a força de um povo inteiro — há Adamastores que não se deixam vencer.

A odisseia hospitalar que tantos juram começar no SNS talvez funcionasse se, por detrás de cada linha telefónica, houvesse alguém dependurado. O Minotauro chama-nos ao labirinto, Kafka enreda-nos num processo tortuoso. Duas horas ao telefone, três numa sala de espera esperançosa, cinco para recompor um organismo desregulado, um suplício que nem Kempis anteciparia. O homem pode não rivalizar com Deus em sabedoria, mas domina a arte de esvaziar a dignidade alheia. Uma dor de cabeça monumental ou uma dor num dedo recebem a mesma indiferença, só igualada pelas horas de espera.

A história seria apenas uma aventura sobre a perda de tempo, não fosse transformar-se numa autêntica casa de horrores. As casas de banho da urgência — por onde passam pessoas com todo o tipo de doenças — deveriam ser um espelho de virtudes. Não são. A falta de condições revela não só o desprezo pela higiene como o desrespeito pelos utentes. Frequentemente, as senhoras pedem à recepção uma folha de papel. Aqueles que se encontram debilitados por uma intoxicação alimentar imploram por um pedaço que tarda em chegar. O sabão falta, e não são precisas palavras para ilustrar o resto. As macas desfilam imperiosas pela sala de espera e, apesar das alegorias, o rei continua nu. Bosch parece ter pairado por ali, mas deixou-nos apenas a ala direita do tríptico: o inferno.

Lá dentro, as catacumbas não são melhores. Os corredores acumulam doentes em andaimes encostados às paredes numa espera interminável. Os que ainda se mantêm de pé recebem soros e tratamentos apoiados em cadeiras que vagueiam de canto em canto. A ventilação parece inexistir e a esperança na cura esbate-se no negrume de uma massa humana que se atropela.

Bosch dá lugar a Dante.

Por vezes, a esperança surge sob a forma de um anjo de asas brancas, verdes ou azuis — mas até os anjos migram.

Não sei se mataram a cotovia, mas suspeito que a mantêm debilitada de propósito.

© Fernando Alagoa

domingo, 14 de junho de 2026

BANDEIRAS

A recente polémica em torno da proposta que pretende proibir o içar de determinadas bandeiras em edifícios públicos tornou‑se um daqueles debates em que o símbolo engole o essencial. Discutem‑se bandeiras e cores quando talvez devêssemos discutir outra coisa: que tipo de sociedade queremos ser.

Uma sociedade madura não se constrói à força de símbolos impostos, nem de proibições precipitadas. Constrói‑se com educação, mas educação no sentido mais profundo do termo. Educar para respeitar todos, sem excepção, é muito diferente de educar para aceitar todas as ideias, mesmo as mais excêntricas (quando o são), sem espaço para debate ou crítica. Uma democracia saudável não exige unanimidade; exige convivência.

O problema surge quando a defesa das minorias se transforma (quando transforma), inadvertidamente, numa espécie de blindagem contra qualquer contestação. Respeitar pessoas é obrigatório; aceitar todas as ideias como equivalentes não é. Uma sociedade que teme discordar, com receio de ser “cancelada”, deixa de pensar livremente. E quando deixamos de pensar, deixamos de educar.

É aqui que a discussão sobre bandeiras se torna quase irrelevante. Uma bandeira pode representar orgulho, luta, memória, mas não substitui políticas públicas, nem resolve dilemas sociais complexos. Não educa, não cuida, não integra. Apenas sinaliza.

E há ainda um ponto que raramente se discute: como lidar com identidades individuais que se afastam radicalmente das categorias tradicionais. Se alguém diz sentir‑se um animal, uma entidade abstracta ou uma personagem de banda desenhada, não é içando uma bandeira que se responde a essa realidade. A questão não é simbólica; é social, legal, psicológica, económica... Quem cuida? Quem apoia? Como se integra? Como se garante que a liberdade individual não se transforma em desresponsabilização colectiva?

Se amanhã fossem cinco milhões a reivindicar identidades que os afastam da participação social, não seria uma bandeira no topo de um mastro que resolveria o problema. Seria a capacidade — ou incapacidade — de a sociedade cuidar, incluir e responsabilizar.

Talvez devêssemos, então, recentrar o debate: menos bandeiras, mais educação; menos ruído simbólico, mais clareza ética; menos medo de discordar, mais coragem de pensar. Uma sociedade verdadeiramente humanista não se mede pelo número de bandeiras que içamos, mas pela qualidade das pontes que construímos entre pessoas diferentes.

© Fernando Alagoa

quarta-feira, 10 de junho de 2026

PORTUGAL | 10-06-2026

Hoje celebramos Portugal, uma nação antiga que nunca deixou de ser jovem.

Comemoramos a língua que nos embala e nos ergue, o povo que nos leva mais longe e o poeta que nos ensinou a sonhar para além do horizonte. Somos herdeiros de um país uno e pacífico, que fez do mar caminho, da distância força e da palavra saudade, lugar onde a nossa identidade repousa.

De um território pequeno nasceu um mundo maior: abrimos rotas onde só havia silêncio, cruzámos culturas como quem acende luzes no mapa, levámos connosco a curiosidade inquieta, a coragem serena e a rara capacidade de criar pontes onde outros ergueriam muros. Demos mundos ao mundo, e continuamos a dá-los, agora com ciência, arte, inovação e humanidade, como quem semeia futuro com mãos antigas.

No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebramos também a democracia que construímos, firme na defesa dos direitos humanos e voltada para o amanhã. Comemoramos os que ficaram e os que partiram, porque Portugal é maior do que a sua extensão de terra: vive no sotaque de quem regressa, no coração de quem partiu, na memória de quem nunca esqueceu.

Que este dia nos lembre que somos feitos de resistência tranquila, de esperança teimosa e de uma beleza discreta que não precisa de alarde. Somos um país que invoca um poeta para se celebrar, e isso diz tudo sobre a alma que nos habita.

E celebramos, por fim, aqueles que ainda não sabem que celebramos por eles: as crianças, futuro vivo de uma nação que se renova em cada olhar curioso. São elas que nos lembram, como escreveu Rómulo de Carvalho, que «o sonho comanda a vida», e é por isso que lhes devemos um país onde possam sonhar mais alto do que nós alguma vez ousámos. Nelas repousa a promessa de um Portugal que continua — mais justo, mais sábio, mais luminoso.

© Fernando Alagoa

Imagem: retrato de Luiz Vaz de Camões

P. S. - Hoje decidi que, sempre que fizer referência a Camões e ilustrar o texto com a sua imagem, deixarei de o retratar como cego de um olho. Camões não nasceu cego, nem viveu sempre sob essa marca; só mais tarde a vida lha impôs. Talvez seja tempo de deixarmos de olhar o outro pelo que lhe falta e começarmos a vê‑lo pelo brilho que carrega.

domingo, 31 de maio de 2026

BANCOS DE ALIMENTOS e DIGNIDADE HUMANA

O Banco de Alimentos voltou a espalhar-se pelos supermercados, como uma constelação de esperança improvisada, pedindo alimentos para quem vive com a dispensa vazia e o coração cansado. E, como sempre, os portugueses respondem — porque a generosidade, essa, nunca entrou em crise. Mas há uma pergunta que ecoa baixinho, quase envergonhada:

até quando?

Que país seríamos se um dia pudéssemos celebrar o encerramento dos Bancos Alimentares, não por falta de vontade de ajudar, mas porque já ninguém precisasse de ajuda para comer. Que país seríamos se os nossos governantes encontrassem o mesmo entusiasmo, a mesma energia, a mesma capacidade de mobilização que já demonstraram noutros grandes momentos, e a colocassem ao serviço de uma causa simples e gigantesca:

acabar com a fome e com a miséria.

Imaginemos um país que decide, com coragem, resolver um problema de cada vez. Primeiro, garantir que ninguém adormece com o estômago vazio. Depois, com igual dedicação, curar a saúde que falta, reconstruir o ensino que falha, devolver segurança às ruas, justiça aos tribunais. Passo a passo, como quem dá um primeiro passo lunar — firme, histórico, capaz de mudar o rumo de uma geração.

Há lugares no mundo onde este caminho já começou. Não são perfeitos, mas provam que é possível. É para esses horizontes que devíamos olhar, não para copiar, mas para aprender a sonhar mais alto.

Enquanto isso não acontece, continuamos a depender da solidariedade dos mesmos de sempre: pessoas comuns, que dão do pouco que têm para que outros tenham um pouco mais. Mas a solidariedade, por mais bela que seja, não pode ser a tábua de salvação permanente de um Estado que falha no essencial.

Este texto é um murmúrio que quer tornar-se voz.

Um pedido simples e urgente:

que a dignidade humana seja finalmente tratada como prioridade nacional.

© Fernando Alagoa

sexta-feira, 29 de maio de 2026

TRIBUNAL A CONTAS

Há três frases que me acompanham com frequência. Uma é minha: “gerir é antecipar”. As outras pertencem a dois mestres. Júlio César observava que «Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar». António Manuel Hespanha lembrava-nos que «O que se procura é olhar o direito de mais sítios e de sítios mais improváveis do que se tornou habitual».

Custa, por isso, compreender que quem nos governa — ou desgoverna — persista em contrariar os princípios que estas frases convocam: falha em antecipar, ignora as lições do passado e aborda os problemas sempre pela mesma e estreita perspectiva.

O SEF prevaricou, não se corrigiu e acabou extinto sem que se prevenissem as consequências dessa extinção. Agora, afirma-se que o Tribunal de Contas “atrapalha”, que decide devagar. Em vez de reforçar meios, modernizar processos e permitir que a instituição cumpra melhor a sua missão, opta-se por uma solução enviesada: retirar-lhe funções, como se o problema estivesse no escrutínio e não na incapacidade de o acompanhar.

Nestes casos — tal como nas TAP, nos bancos ou nos SIRESP — nunca há milhões para investir, melhorar ou modernizar. Há, isso sim, uma pressa em reduzir competências ou extinguir estruturas. Multiplicam-se argumentos, quase sempre comparando o nosso penoso retângulo com países mais desenvolvidos, referências que raramente surgem quando falamos de salários, qualidade de vida ou condições laborais, mas que aparecem prontas quando se pretende justificar o injustificável. Países onde quem perde uma carteira regressa dias depois ao mesmo local e a encontra intacta. Entre nós, desaparece a carteira, a mesa e, se possível, as cadeiras.

Lamento que, tal como referi aquando da Jornada Mundial da Juventude, os nossos responsáveis políticos não se unam com o mesmo empenho para fortalecer os serviços que ainda nos protegem. Seria esse o verdadeiro sinal de governação responsável.

Teima-se em importar realidades alheias, muitas vezes incompatíveis com os conflitos que nos são próprios, em vez de analisar e melhorar o que realmente se impõe.

© Fernando Alagoa

sexta-feira, 22 de maio de 2026

DIA DO AUTOR PORTUGUÊS

(Revisitação)

Ao longo da história, os autores têm sido alvo de perseguições e silenciamentos. Ainda assim, com coragem inabalável e criatividade sem fronteiras, desafiam o tempo, enriquecem a cultura, moldam o pensamento e alimentam a alma de gerações.

Sem os autores, a nossa identidade seria irremediavelmente mais pobre. São eles que esculpem as palavras que atravessam séculos, que provocam reflexão, despertam emoções profundas e fazem de Portugal um farol vibrante no universo artístico.

Do lirismo arrebatador de Camões à ousadia visionária de Saramago, da delicadeza profunda de Sophia à genial multiplicidade de Pessoa, do sarcasmo mordaz de Bordalo ao grito de resistência de Zeca Afonso, cada um deixou um legado que transcende o tempo. São arquitectos da nossa memória colectiva, guardiões incansáveis da língua e eternos construtores de sonhos.

No Dia do Autor Português, celebramos a resistência, o talento e a paixão daqueles que, mesmo perante adversidades, nunca se calam e continuam a dar voz à cultura. São pilares da nossa identidade e mestres que moldam e perpetuam o espírito criativo da nação.

Que nunca nos faltem palavras para os honrar — e que, através delas, Portugal continue a viver eternamente na arte e na história.

© Fernando Alagoa

sexta-feira, 15 de maio de 2026

IMI — IMPOSTO DESAJUSTADO

(Revisitação)

Há alguns anos descrevi o IMI como um imposto injusto. Hoje, mantenho essa avaliação, mas acrescento que a sua configuração atual ultrapassa largamente aquilo que uma sociedade equilibrada deveria aceitar.

Como tenho sublinhado ao longo do tempo, o IMI carrega ainda traços de um modelo fiscal antiquado, herdeiro de lógicas que já não se coadunam com a realidade contemporânea. Quando aplicado à casa de morada de família, torna-se particularmente penalizador. Basta considerar que um proprietário que mantenha o mesmo imóvel durante meio século poderá, ao longo da vida, entregar ao Estado uma fatia significativa do valor inicial da aquisição — tudo isto por um bem que já comprou e que continua a manter às suas próprias custas.

Existem concelhos que optam sistematicamente pela taxa máxima, sem ponderar o impacto social dessa decisão. Paralelamente, a máquina administrativa, tantas vezes incapaz de assegurar eficazmente funções essenciais — desde a preservação do património público ao combate à criminalidade e à corrupção — revela, no entanto, grande eficiência quando se trata de cobrar este imposto.

O silêncio institucional mantém-se. Não se flexibilizam pagamentos, não se revêem critérios, e o valor patrimonial tributário continua a ser atualizado de forma a aumentar a receita, mesmo quando a realidade do mercado aponta para desvalorizações. As reavaliações, curiosamente, só parecem ocorrer de forma automática quando resultam em agravamentos.

Importa recordar que nem o Estado nem as autarquias suportam custos de manutenção dos imóveis privados, mas beneficiam amplamente da sua existência através de uma cobrança contínua e crescente.

Pagamos muitos impostos, pagamos impostos elevados e pagamo-los repetidamente, mas continuamos a assistir a um país permanentemente endividado. A sensação de desproporção é inevitável.

A questão impõe-se: até quando se continuará a tributar a casa de morada de família com valores que muitos consideram desajustados da realidade económica e social?

© Fernando Alagoa

quinta-feira, 7 de maio de 2026

NACIONALIDADE, UM ACTO DE PERTENÇA

Sumário: A democracia não se defende cedendo; defende-se esclarecendo, educando, dialogando e, quando necessário, aplicando a lei com justiça e proporcionalidade. A verdadeira tolerância não é a que tudo aceita, mas a que sabe distinguir entre aquilo que enriquece a comunidade e aquilo que a fere. E é nessa distinção — difícil, mas indispensável — que a democracia deixa de ser refém de si própria e se torna plenamente fiel ao que promete.

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A democracia, enquanto construção histórica e ética, assenta em princípios fundadores. É por isso que se compromete com os direitos humanos, com a liberdade de expressão, com o Estado de direito e com a protecção das minorias. Esses valores não são acessórios; são o próprio alicerce do regime democrático. Contudo, é precisamente por serem tão essenciais que exigem vigilância constante. Uma democracia que, em nome da tolerância, abdica da defesa coerente dos seus próprios princípios corre o risco de se tornar refém de si própria.

Não está em causa relativizar culturas, tradições ou identidades. Está, isso sim, em reconhecer que nenhuma sociedade plural se sustenta se aceitar como inevitável aquilo que contradiz frontalmente os direitos fundamentais que proclama. Quando um Estado define a maioridade aos 18 anos, quando estabelece limites claros para o casamento, para a autonomia civil ou para a responsabilidade penal, fá-lo com base em critérios jurídicos e éticos que visam proteger os mais vulneráveis. Ignorar práticas que, ainda que informais, atentem contra essa proteção, como uniões envolvendo menores, não é um gesto de tolerância cultural; é uma renúncia à obrigação democrática de salvaguardar a integridade e o futuro das crianças.

O mesmo dilema surge quando, em nome de uma inclusão mal compreendida, se alteram práticas públicas consolidadas. Quando escolas evitam celebrar o Natal, retiram símbolos tradicionais ou modificam ementas inteiras para acomodar preferências alimentares de grupos específicos, não estão a promover integração; estão a diluir a identidade cultural comum que sustenta a convivência democrática. A hospitalidade não exige que um país renuncie às suas tradições, mas que as abra a todos. Quem chega deve ser respeitado, mas também deve compreender que a integração implica conviver com os elementos culturais que estruturam a comunidade de acolhimento, e não substituí-los.

Também no quotidiano escolar surgem tensões semelhantes. A liberdade religiosa é um direito fundamental, mas não existe isolada: convive com normas de funcionamento das instituições públicas, com regras de neutralidade e com práticas sociais que visam garantir igualdade de tratamento. A questão não é proibir expressões identitárias, mas assegurar que a escola — espaço de formação cívica — permanece um lugar onde nenhum aluno se sinta privilegiado ou excluído por motivos religiosos, culturais ou sociais. A democracia deve acolher a diversidade, mas não pode permitir que essa diversidade se transforme em excepções permanentes que fragilizam a coesão comum.

A mesma lógica aplica-se à vida cívica. E aqui torna-se essencial distinguir entre “residência”, “cidadania” (no sentido cívico) e “nacionalidade” (no sentido jurídico). A residência, com os seus direitos e deveres, deve ser acessível a quem vive, trabalha e contribui para a sociedade. A cidadania, entendida como participação e respeito pelos valores fundamentais, pode existir mesmo antes da nacionalidade. Mas a nacionalidade, essa, deve ser um vínculo mais profundo: um reconhecimento de pertença, de compromisso e de adesão aos princípios democráticos da comunidade que se escolheu integrar. A nacionalidade não deve ser atribuída apenas porque alguém reside num território; deve ser conquistada através de um percurso de mérito, responsabilidade e respeito pelo país de acolhimento.

Outros países democráticos ilustram esta distinção com clareza. O Japão separa nitidamente residência, cidadania cívica e nacionalidade: um estrangeiro pode viver décadas no país, cumprir deveres e integrar-se socialmente, mas a nacionalidade exige comportamentos exemplares. O Canadá, por sua vez, distingue rigorosamente residentes permanentes de cidadãos: um residente pode ser deportado por crimes graves, mesmo após muitos anos no país. Em ambos os casos, a mensagem é clara: “a nacionalidade é um estatuto forte, exigente e não automático”.

É legítimo, portanto, que Portugal, como qualquer democracia madura, reflicta sobre o significado da sua própria nacionalidade. A pertença jurídica à comunidade nacional não deve ser banalizada. Deve ser um reconhecimento de verdadeira integração, não um mero efeito colateral da residência. Deve ser atribuída a quem demonstra respeito pelo país, adesão aos seus valores e vontade autêntica de pertença.

Em todos estes casos, o desafio é o mesmo: como conciliar a abertura democrática com a firmeza ética? A resposta não está na rigidez dogmática nem na permissividade ilimitada. Está na capacidade de afirmar, com serenidade e clareza, que o respeito pela diferença não pode significar a aceitação de práticas que negam a dignidade humana ou que corroem os fundamentos culturais e jurídicos da comunidade. A democracia não se defende cedendo; defende-se esclarecendo, educando, dialogando e, quando necessário, aplicando a lei com justiça e proporcionalidade.

Uma democracia madura não teme discutir os seus limites, porque sabe que é dessa reflexão que nasce a sua força. Não se trata de fechar portas, mas de garantir que as portas abertas não conduzem à erosão dos princípios que nos permitem viver juntos. A verdadeira tolerância não é a que tudo aceita, mas a que sabe distinguir entre aquilo que enriquece a comunidade e aquilo que a fere. E é nessa distinção — difícil, mas indispensável — que a democracia deixa de ser refém de si própria e se torna plenamente fiel ao que promete.

© Fernando Alagoa

terça-feira, 5 de maio de 2026

DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA | 5 MAIO

A língua portuguesa que nos une não é apenas um conjunto de sons organizados para comunicar.

É um território vivo, tecido por séculos de encontros, partidas, regressos e reinvenções.

Carrega em si um modo de estar no mundo: a delicadeza de quem sente fundo, a coragem de quem atravessa mares, a saudade que insiste em permanecer mesmo quando tudo muda.

Falar português é caminhar por uma história que nos antecede e que continua a ser escrita em cada gesto, em cada palavra que escolhemos para nomear o que sentimos.

É reconhecer que dentro desta língua cabem mundos inteiros — o riso fácil, o silêncio que diz tanto, a emoção que se derrama sem pedir licença.

E, por tudo isso, esta língua que partilhamos não é apenas um código.
É abraço.
É sonho.
É casa.
É chão.
É o lugar onde guardamos aquilo que sentimos quando não sabemos como dizer.

No Dia da Língua Portuguesa, celebramos essa magia discreta que nos acompanha desde o primeiro sopro de voz.

© Fernando Alagoa

sexta-feira, 1 de maio de 2026

BAIRRO USURA | DIA INTERNACIONAL DO TRABALHADOR

O 1.º de Maio nasceu como um grito colectivo contra a exploração, um dia em que trabalhadores de todo o mundo reivindicaram dignidade, tempo, salário justo e condições humanas. Mais de um século depois, a data continua carregada de simbolismo, mas também de ironia. Porque, apesar das conquistas, a exploração não desapareceu; apenas mudou de forma, de linguagem e de estratégia.

Se olharmos para Portugal no contexto global, quase parece que habitamos um “bairro usura”. Tal como as grandes cidades têm o seu bairro chinês, italiano ou japonês, nós temos um bairro peculiar: o bairro onde a usura é estrutural, silenciosa e legitimada. Não se trata de uma usura de esquina, mas de um sistema inteiro que, perante qualquer crise, encontra sempre a mesma solução: fazer com que os mais frágeis paguem a conta.

Quando surge uma crise — seja financeira, sanitária ou geopolítica — seria lógico que fossem aqueles com maior capacidade de resistência a assumir o maior peso. Mas o que acontece é o contrário. Os preços das casas disparam, o combustível aumenta, as taxas de juro sobem, a energia encarece, a alimentação torna-se um luxo para muitos. E tudo isto num país onde os salários permanecem estagnados e a mobilidade social é quase uma miragem.

Do lado de quem governa, a resposta às crises raramente passa por proteger os mais vulneráveis. A prioridade parece ser criar novas linhas de crédito, alterar leis laborais, impor seguros adicionais e multiplicar obrigações. Enquanto isso, não só o povo vai empobrecendo, como os serviços públicos vão definhando — escolas, hospitais, transportes — todos a perder capacidade, todos a perder fôlego, todos a reflectir o mesmo padrão de desgaste.

O resultado é um mecanismo perverso: o dinheiro flui das mãos dos pobres para os bolsos dos ricos, que saem das crises ainda mais fortalecidos. Os pobres tornam-se mais pobres, e muitos deixam de ser apenas pobres para se tornarem miseráveis. É uma transferência de riqueza ao contrário, um Robin Hood invertido, institucionalizado e repetido crise após crise.

O 1.º de Maio, então, não é apenas um dia de celebração histórica. É um lembrete incómodo de que a luta continua, não porque os trabalhadores não tenham conquistado direitos, mas porque o sistema encontrou novas formas de os contornar. É um convite a olhar para este “bairro usura” que habitamos e a perguntar se queremos continuar a viver nele ou se está na altura de reconstruir o bairro, a cidade e o país com regras mais justas.

© Fernando Alagoa