quinta-feira, 16 de abril de 2026

O ANTICRISTO

Há gestos políticos que ultrapassam o erro, a imprudência ou a vaidade. Há comportamentos que, pela sua natureza, se tornam uma negação frontal dos valores que afirmam defender. Quando um presidente decide comparar-se a Cristo — e, por consequência, a Deus — não está apenas a cometer um excesso retórico. Está a inverter a lógica moral que deveria orientar qualquer líder democrático. É, simbolicamente, um acto anticristão.

Cristo não procurou poder, não exigiu adoração, não reivindicou privilégios. A sua figura é sinónimo de humildade, serviço e sacrifício. Um governante que se coloca no lugar do sagrado, que se apresenta como salvador, que exige veneração, faz precisamente o contrário. Apropria-se da fé para alimentar o próprio ego. Usa o divino como espelho para engrandecer a própria imagem. E isso, por si só, é uma forma de profanação.

Um governante que se eleva ao estatuto de figura messiânica rompe o contrato democrático e transforma o espaço público num palco de culto. A sua postura deixa de ser vista como participação cívica e passa a ser tratada como blasfémia. A divergência torna-se heresia. E a política, que deveria ser diálogo, degrada-se em liturgia de adoração.

A democracia não tolera deuses. Constrói cidadãos. Enaltece líderes que compreendem que o poder é serviço, não coroação. Que a autoridade é responsabilidade, não glória. Que o cargo é transitório, não eterno. Quando alguém se coloca acima desses princípios, não está a imitar Cristo — está a negar tudo aquilo que Cristo representa.

Nada se opõe mais ao espírito do Evangelho do que a arrogância de quem se proclama salvador. Nada contradiz mais a ética pública do que a fusão entre vaidade pessoal e símbolos sagrados. Nada ameaça mais a liberdade do que um líder que se imagina enviado divino.

É importante lembrar que nenhum governante, por mais poderoso que seja, tem o direito de se colocar no lugar do sagrado, e muito menos de usar o sagrado para justificar a própria sede de poder.

© Fernando Alagoa

terça-feira, 7 de abril de 2026

O POPULISMO NÃO CAI DO CÉU

Volto ao tema, por indignação e repulsa com a ladainha costumeira.

Os partidos tradicionais adoram fingir espanto quando um novo movimento populista começa a ganhar terreno. Falam em “radicalização”, em “ameaça à democracia”, em “perigo para o país”. Mas evitam encarar a verdade mais incómoda: o populismo é, muitas vezes, a consequência directa das suas próprias falhas. É o resultado acumulado de anos de má governação, promessas quebradas, escândalos sucessivos e uma distância crescente entre o poder político e a vida real das pessoas.

E quando o descontentamento finalmente explode, esses mesmos partidos fazem de conta que não percebem de onde veio. Mas não há surpresa nenhuma: o populismo floresce onde a confiança foi destruída.

A responsabilização que nunca chega

Há um ponto que raramente entra no debate público: a responsabilização. Não basta lamentar o crescimento do populismo; é preciso enfrentar as causas que o alimentaram. E isso implica que quem contribuiu para o desgaste do país responda pelas suas acções — não por vingança, mas por justiça.

E aqui surge um contraste gritante.

O exemplo da Islândia

Depois da crise financeira de 2008, a Islândia fez aquilo que muitos países consideravam impensável:

  • priorizou os cidadãos em vez dos bancos,

  • recusou resgates irrestritos,

  • investigou e responsabilizou gestores financeiros,

  • procurou proteger a economia interna antes de proteger accionistas.

Foi um gesto raro de coragem política. Um país pequeno que decidiu que a democracia não existe para salvar instituições poderosas à custa do povo.

E depois há casos como o de Portugal

Em países como Portugal, a história foi bem diferente.
A culpa, como se diz, “morre sempre solteira”.
Os escândalos financeiros sucedem-se, mas as consequências são quase sempre simbólicas.
E, em certos casos, como no colapso do BES,
os accionistas acabaram por lucrar com o modelo de intervenção, enquanto milhares de cidadãos ficaram com prejuízos, incerteza e um profundo sentimento de injustiça.

É difícil pedir ao povo que confie na política quando vê que os erros dos poderosos são pagos pelos mesmos de sempre.

Sem Justiça não há regeneração

Um país não se regenera com discursos sobre estabilidade.
Regenera-se quando:

  • quem abusou do poder enfrenta consequências reais,

  • os danos causados ao povo são reconhecidos e reparados,

  • a transparência deixa de ser excepção e passa a ser regra,

  • a política volta a ser serviço público e não carreira blindada.

Sem isto, tudo o resto é cosmética.

Portanto, a indignação dos partidos tradicionais é tardia e selectiva. Indignam-se com o sintoma, mas ignoram a doença. Criticam o mensageiro, mas recusam-se a admitir que foram eles que deixaram a porta aberta para que ele entrasse.

Se querem combater o populismo, não basta demonizá-lo. É preciso recuperar a credibilidade perdida, reconquistar a confiança que deixaram escapar e, acima de tudo, lembrar que governar não é um privilégio — é uma responsabilidade. Enquanto isso não acontecer, o populismo continuará a crescer. Não por causa dos seus líderes, mas por causa do vazio que os outros deixaram.

P. S. - Aí está, de novo, a usura praticada com os preços dos combustíveis, para ilustrar as malfeitorias cometidas contra o país.

© Fernando Alagoa


segunda-feira, 6 de abril de 2026

NAÇÕES GOVERNADAS POR BULLIES

Há momentos na história em que o poder, em vez de ser exercido com responsabilidade, transforma‑se em instrumento de intimidação. Quando um presidente de uma nação adopta comportamentos típicos de um bully, impondo-se pela força, pelo desprezo ou pela humilhação, o impacto ultrapassa fronteiras. Não se trata apenas de política externa; trata-se de ética, de dignidade e do exemplo que se projecta para o mundo.

O mais inquietante, porém, não é apenas a postura agressiva de um líder, mas a reacção — ou a falta dela — por parte de outros dirigentes globais. Em nome de conveniências diplomáticas, interesses económicos ou simples cálculo político, muitos optam pela passividade. Fecham os olhos, suavizam discursos, relativizam abusos. E, ao fazê-lo, tornam-se cúmplices involuntários de uma dinâmica que corrói princípios fundamentais da convivência internacional.

A submissão disfarçada de pragmatismo é, no fundo, uma forma de abdicação moral. Quando líderes que deveriam defender valores universais escolhem o silêncio, enviam ao mundo a mensagem de que a força vale mais do que o respeito, e que a intimidação pode ser tolerada desde que sirva a determinados interesses.

Mas a história mostra que a complacência com comportamentos abusivos nunca termina bem. A diplomacia não precisa ser subserviente; pode — e deve — ser firme, ética e corajosa. O mundo não avança quando se normaliza o abuso de poder, mas quando se estabelece um limite claro entre autoridade e autoritarismo.

Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente este: lembrar que liderar não é intimidar, e que respeitar não é submeter-se. A verdadeira grandeza de uma nação mede-se não pela força do seu líder, mas pela força dos valores que escolhe defender.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


quarta-feira, 1 de abril de 2026

LAÇO AZUL

Abril chega sempre com uma luz diferente. É como se o mês inteiro respirasse esperança, mesmo quando nos lembra das sombras que nunca deveriam ter tocado os olhos de uma criança. O Movimento Laço Azul ergue-se então como um gesto simples, mas profundamente humano: um símbolo que fala por aqueles que ainda não têm voz suficiente para se protegerem sozinhos.

Há histórias que nunca deviam ter sido escritas. Abril convida-nos a encarar de frente essa realidade, para não nos esquecermos de que nenhuma criança devia crescer a aprender o mundo através da dor.

O laço azul é um abraço que se estende a todas as crianças que precisam de ser vistas, protegidas, amadas. É a lembrança de que cada gesto de cuidado pode ser a diferença entre um futuro ferido e um futuro inteiro.

Proteger as crianças é garantir que o riso delas continue radiante, que os passos delas continuem livres, que os sonhos delas não sejam interrompidos.

Deixemos que o azul nos lembre que a infância é sagrada, que a dignidade é um direito desde o primeiro instante de vida, e que a responsabilidade de cuidar não é de alguns — é de todos. Porque, quando uma criança é feliz, o futuro da humanidade torna-se mais belo.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


É VERDADE

É verdade que, ao longo da democracia, nenhum governo de Portugal contribuiu para a degradação da escola pública;

É verdade que nenhum governo concorreu para a escassez de professores;

É verdade que nenhum governo teve mão na erosão do Serviço Nacional de Saúde;

É verdade que nenhum governo facilitou a fuga de médicos do sector público;

É verdade que nenhum governo alimentou a lentidão crónica da justiça;

É verdade que nenhum governo permitiu a deterioração salarial das forças policiais;

É verdade que nenhum governo deixou a habitação mergulhar no caos;

É verdade que nenhum governo pôde minorar o impacto destrutivo das crises na vida dos portugueses;

É verdade que nenhum governo permitiu o enriquecimento sem causa da banca;

É verdade que nenhum governo salvou bancos enquanto deixava o resto do país à deriva;

É verdade que nenhum governo deixou de combater a corrupção com empenho exemplar.

É verdade que hoje é 1 de Abril, e se comemora o “Dia das Mentiras”!

É verdade.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

sábado, 21 de março de 2026

DIA MUNDIAL da ÁRVORE e DIA INTERNACIONAL das FLORESTAS

As árvores são mais do que paisagem — são presença.

Erguem-se com a serenidade de quem conhece o pulsar da Terra e guardam, nos seus corpos, capítulos inteiros da nossa história. Cada raiz que se estende é um gesto de amabilidade, cada folha que nasce um acto poético, cada fruto uma celebração discreta da vida.

No silêncio das florestas, as árvores ensinam-nos a crescer, a resistir às tempestades e a procurar o caminho da luz. São abrigo, alimento e sombra. São casa comum.

Neste Dia Mundial da Árvore, que possamos honrar aquilo que elas nos oferecem todos os dias — plantando, protegendo e cuidando, porque cada árvore é um sinal de futuro.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


DIA INTERNACIONAL PARA A ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL

Num mundo ideal, seríamos todos como livros numa estante iluminada: diferentes por fora, surpreendentes por dentro e igualmente dignos de ser lidos. Ainda assim, há quem prefira julgar um livro apenas pela capa. Comentam a cor da lombada como se isso dissesse algo sobre as histórias que ela guarda, como se a superfície fosse mais importante do que o enredo.

É curioso, quase trágico, porque qualquer leitor sabe que a magia vive nas páginas: nos capítulos que se entrelaçam, nas ideias que se cruzam, nos mundos que se abrem quando se tem a coragem de folhear. E, no entanto, alguns continuam a agir como se a grande biblioteca da humanidade tivesse prateleiras proibidas, zonas onde certos livros “não deveriam estar”.

O mais irónico é que os próprios livros, esses mestres silenciosos, convivem lado a lado sem reclamar da cor do vizinho, sem exigir que todos pertençam ao mesmo género literário. Não se incomodam com diferenças; pelo contrário, enriquecem-se mutuamente. Talvez seja pedir muito que nós, humanos, alcancemos a maturidade… dos livros.

Hoje, no Dia Internacional contra a Discriminação Racial, vale a pena lembrar o óbvio que tantos insistem em esquecer: a diversidade não é um problema — é a biblioteca inteira.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


LIVROS, POESIA, ÁRVORES E DIVERSIDADE

Hoje é um daqueles dias ricos em comemorações, em que o calendário parece querer lembrar-nos de tudo aquilo que insistimos em esquecer. É Dia Internacional contra a Discriminação Racial, Dia Mundial da Poesia, Dia Internacional da Árvore e Dia Internacional das Florestas — celebrações que, curiosamente, combinam melhor do que se poderia pensar.

Num mundo ideal, seríamos como livros numa estante iluminada: diferentes por fora, surpreendentes por dentro e igualmente dignos de ser lidos. Ainda assim, há quem prefira julgar pela capa, como se a cor da lombada pudesse resumir a profundidade das páginas. Ironias da vida: até os livros, que não têm voz, sabem conviver melhor do que nós.

E já que hoje também se celebra a poesia, importa lembrar que nenhum poema se repete só porque rima, e nenhuma metáfora perde valor por ser diferente. A poesia habita a diversidade — de ritmos que se cruzam, de imagens que se misturam, de sentidos que se revelam quando se ousa ler além da superfície. Talvez fosse útil aplicarmos essa mesma sensibilidade ao mundo real.

E porque é também Dia da Árvore e das Florestas, não custa recordar que nenhuma floresta existe com um só tipo de ser. As árvores crescem lado a lado, sem discutir tonalidades de casca, sem exigir que todas deem o mesmo fruto. Raízes diferentes podem entrelaçar-se no mesmo solo; copas distintas podem partilhar a mesma luz. A natureza não discrimina — floresce.

Hoje, entre livros, poemas e árvores, a mensagem é simples e antiga: a diversidade não é um problema a resolver, mas uma riqueza a preservar. Hoje é o dia para abrir a porta — e deixá-la aberta para sempre.

© Fernando Alagoa


segunda-feira, 16 de março de 2026

SE O MUNDO OUSASSE

E se, em vez de guerras, construíssemos navios que fossem jardins sobre o mar?

Porta‑aviões que não transportam medo, mas sementes por germinar.

Que atravessam o oceano como quem leva um abraço a quem tem frio.

Navios onde o ar cheira a pão acabado de cozer,

onde as paredes guardam risos,

onde cada corredor é um caminho de regresso à dignidade.


E se os drones que cruzam o céu fossem apenas pequenos guardiões,

a deslizar sobre campos de flores,

a seguir o brilho dos rios,

a ouvir o coração profundo dos mares?

Máquinas que não procuram alvos — procuram vida.

Que não vigiam fronteiras — vigiam fragilidades.

Talvez seja isto que nos falta:

virar o mundo com a delicadeza de quem vira uma pétala caída,

e descobrir que, do outro lado, ainda há luz.

Usar a mesma inteligência que hoje ergue muros

para construir abrigos.

A mesma tecnologia que hoje vigia destruição

para vigiar renascimentos.


Imagina um “porta‑esperança”:

um navio onde a noite brilha com estufas suspensas,

onde as vozes ensinam alfabetos e canções,

onde os passos não treinam guerras,

mas gestos de cuidado.


Não é fantasia.

É só uma escolha que ainda não fizemos.

E todas as escolhas começam assim: num sussurro,

num pensamento pequeno, quase tímido,

o de acreditar que o impossível é apenas o que ainda não tentámos.


Porque a verdadeira força nunca esteve no cano de uma arma,

mas na ternura que resiste.

E a vitória verdadeira nunca foi conquistar território,

mas garantir que ninguém fica esquecido.


A humanidade sabe ser grande.

Só precisa de recordar o caminho de volta ao seu próprio coração.


© Fernando Alagoa

quinta-feira, 12 de março de 2026

AGITAR O MUNDO AO SABOR DE CAPRICHOS

Há males que vêm por bem — uso o ditado com reservas, mas a ideia merece destaque. Se há algo que esta guerra nos pode ensinar, é que negociar com ditadores quando convém e descartá‑los quando interessa não é apenas uma postura ingénua: é perigosa. Mais importante ainda, creio que está na hora de o mundo investir seriamente em investigação que permita encontrar alternativas viáveis aos combustíveis fósseis. O planeta agradece, e limita‑se o poder de líderes que não hesitam em pôr o mundo de rastos para servir os seus próprios interesses.

A verdade é que, nestes tempos estranhos, percebemos que tanto os ditadores como certos líderes das democracias, quando desprovidos de bom senso, agitam o mundo ao sabor dos seus caprichos, ignorando o bem da casa comum. As novas evidências — no caso europeu, uma dependência energética que há muito se tornara insustentável — apenas confirmam o óbvio: existiam alternativas que se impunham há décadas. Teria sido ajuizado procurar outras, cuja investigação já demonstrava serem possíveis. Porém, os interesses ligados ao petróleo preferiram perpetuar a dependência, alimentando um sistema que nos mantém vulneráveis e politicamente reféns. Ignorá‑las foi um erro estratégico; persistir nesse erro seria uma irresponsabilidade histórica.

© Fernando Alagoa

quarta-feira, 11 de março de 2026

A MESMA REGRA, A MESMA DOR, A MESMA INJUSTIÇA

MESI - Modelo de Estabilização Social da Inflação

O modelo clássico de combate à inflação precisa urgentemente de ser repensado, com ousadia e criatividade. Manter a mesma receita de sempre — que combate a inflação transferindo o dinheiro das mãos de quem luta para pôr alimentos na mesa para o entregar a jactos e iates particulares — é desajustado, injusto e socialmente insustentável. A política monetária não pode continuar a operar com uma visão cega, indiferente às desigualdades estruturais e às fragilidades específicas de países como Portugal. A estabilidade financeira não pode ser construída à custa da instabilidade, leia-se, da miséria social.

A inflação é um fenómeno económico, mas as suas consequências são profundamente humanas. Quando os preços sobem devido a choques externos — como o aumento dos combustíveis, da energia e das matérias‑primas — não são os mercados que sofrem, são as famílias. Num país como Portugal, onde os salários são baixos, a poupança é reduzida e a dependência do crédito à habitação é elevada, basta a subida dos bens essenciais para empurrar milhares de pessoas para a vulnerabilidade económica. Perante esta realidade, insistir numa política de combate à inflação baseada exclusivamente na subida das taxas de juro, sem olhar às realidades de cada país, é aplicar um castigo duplo a quem bastava um só para viver em aflição.

A subida das taxas de juro, quando aplicada mecanicamente, agrava o sofrimento das famílias e das empresas. Primeiro, a inflação corrói o poder de compra. Depois, o aumento das prestações da habitação e dos créditos empresariais retira o pouco que resta. Este mecanismo transfere rendimento dos devedores para os credores, dos trabalhadores para os detentores de capital, das famílias para o sector financeiro. Não é apenas uma questão económica — é uma questão de justiça social.

Urge a criação de um Modelo de Estabilização Social da Inflação, que eu designaria por MESI, que visaria introduzir um novo paradigma: combater a inflação sem destruir vidas. Este modelo teria como ponto principal o congelamento temporário das taxas de juro dos créditos à habitação e dos créditos empresariais essenciais sempre que a inflação seja causada maioritariamente por factores externos e sempre que a subida das taxas de juro não contribua para resolver a origem do problema. O objectivo é impedir que a política monetária se transforme numa máquina de empobrecimento.

Este congelamento não impede o Banco Central de ajustar as taxas de juro, nem compromete a estabilidade financeira. Pelo contrário: cria um amortecedor social que protegeria famílias e empresas, reduziria incumprimentos, evitaria falências desnecessárias e manteria a economia interna funcional durante períodos de choque externo. Os bancos continuariam a receber, o sistema financeiro manter-se-ia estável, mas o impacto deixaria de recair exclusivamente sobre os mais vulneráveis.

Além disso, é incompreensível que, em períodos de inflação elevada, o Estado arrecade milhões adicionais em impostos — nomeadamente através do IVA e dos combustíveis — sem que exista um mecanismo automático de devolução parcial desse excedente às famílias e empresas mais afectadas. Impõe-se, por isso, que parte das receitas fiscais extraordinárias seja devolvida através de reduções temporárias de IVA nos bens essenciais.

Esta ideia avançada assenta num princípio simples: a economia deve servir a sociedade, não o contrário. Combater a inflação é necessário, mas combatê‑la à custa das pessoas é inaceitável. Portugal precisa de um modelo de política económica que reconheça a sua realidade específica e que proteja o seu tecido social. O MESI oferece uma alternativa equilibrada, humana e eficaz: combater a inflação sem agravar a pobreza, proteger a economia sem sacrificar famílias e garantir que o Estado cumpre o seu papel de estabilizador social.

© Fernando Alagoa

terça-feira, 10 de março de 2026

VIVER É SÓ ISTO?

Questiono-me muitas vezes se viver é só isto.

Não esqueço, nem enjeito, que a vida é feita de momentos: momentos de tristeza, pequenos instantes de felicidade, a importância da família e dos amigos, o tal “sucesso” pessoal e profissional e, entre tudo isso, a relevância absoluta da saúde.

Mas não é disso que falo. Refiro-me ao mundo: ao ódio, à inveja, à exploração do ser humano, às guerras que se repetem como vícios antigos que ninguém que
stiona.

Imaginava que, chegados ao primeiro quartel do século XXI, se não habitássemos já na Lua ou em Marte, tivéssemos pelo menos conseguido aproximar-nos de um paraíso possível aqui na Terra. Não falo de felicidade eterna nem de miragens de pessoas boazinhas ao estilo dos filmes do urso Paddington, onde se celebra a bondade, a educação e o altruísmo genuíno — embora, se assim fosse, ninguém perderia nada.

Falo de um mundo onde, pelo menos, imperassem alguns valores básicos: respeito, honestidade, empatia, responsabilidade, solidariedade. Coisas simples, quase banais, que no entanto,
hoje, parecem luxos de museu milenar.

Infelizmente, tudo isso se tem vindo a perder. Pior ainda: a facilidade com que se invoca o direito à violência para justificar o injustificável. Seja a violência direta entre pessoas
(violência doméstica, violência no namoro, bullying, desacatos, terrorismo), seja a violência entre países, sempre embrulhada em discursos solenes que procuram dar dignidade ao absurdo.

Invoca-se a necessidade de uma guerra e bombardeiam-se países com a mesma leveza com que se vai ao cinema, como se a destruição fosse apenas mais um espetáculo de fim de tarde.

E nós, espectadores obedientes, habituámo-nos.

É talvez isso que mais assusta: a normalidade do horror, a rotina da indiferença, esta capacidade de engolir tragédias como quem toma comprimidos para dormir. A humanidade tornou-se especialista em arrumar cadáveres na gaveta da memória e seguir em frente, desde que o sangue não salpique o sofá e se mantenha do lado de dentro do ecrã do telemóvel.

Vivemos rodeados de discursos sobre progresso, inovação, futuro: palavras bonitas que servem para disfarçar a velha miséria moral que nunca chegámos a resolver. Continuamos a confundir tecnologia com evolução, riqueza com dignidade, ruído com pensamento. E no meio disto tudo, fingimos que sabemos viver, quando na verdade apenas sobrevivemos ao dia seguinte.

Talvez seja esta a nossa maior tragédia: a facilidade com que desistimos de ser melhores e a rapidez com que nos acomodamos ao pior.

No fim, viver não é só isto — mas é isto que fazemos
da vida, e esse é o verdadeiro escândalo.

© Fernando Alagoa

segunda-feira, 9 de março de 2026

USURA PARADISÍACA

Abençoada guerra!

Não há como uma crise internacional e um governo em estado apático permanente para transformar oportunistas em visionários. O meu armazém continua a transbordar de produtos suficientes para abastecer o mercado nacional durante um ano inteiro, mas se o mercado internacional tropeça, por que não aproveitar o tropeção? Subo os preços com a serenidade de quem se limita a seguir “as regras do jogo”. A propaganda encarrega‑se do resto — repete, repete, repete — e eu limito‑me a acenar com ar inocente.

É o mercado a funcionar, murmuram, como quem recita uma lei da natureza. Entretanto, aqueles que viram as casas arrastadas pelas águas e as colheitas devastadas pelas tempestades, tal como o resto da população, serão chamados a pagar o preço destes aumentos escabrosos. Hão de tentar sobreviver com salários que mal chegam para sustentar o corpo, quanto mais o futuro.

Resta‑lhes a magra consolação filosófica de saber que habitam um sistema impecavelmente eficiente, desde que se pertença ao lado certo da eficiência.

Consciência social? Só para quem ainda acredita que o capitalismo tem coração, ou que os colecionadores de marfim choram pelos elefantes.

A insensibilidade tecnocrática, a acumulação de impostos, a falha em garantir direitos económicos e sociais e a permissão de uma escalada imediata de preços — que se traduzem num desequilíbrio entre lucros corporativos e rendimentos das famílias — configuram uma forma de violência estrutural e um abuso por omissão.

© Fernando Alagoa


sábado, 7 de março de 2026

ARTE, ARTISTAS e CIÊNCIA

Vejo a Casa d’Amália com a mesma admiração daquele garoto que sonhava ser cantor, mas a quem Deus, num daqueles gestos que nunca se explicam, decidiu oferecer outros atributos. À bênção de a ouvirmos junta-se este saudosismo que as canções de outrora, nas vozes divinais de hoje, nos devolvem como se fossem cartas antigas encontradas numa gaveta esquecida — em busca do tempo perdido — que já não volta. A idade tem destas ternuras que a juventude raramente entende, talvez porque ainda não aprendeu a despedir-se. E depois penso nesta sociedade de consumo, nos programas que nos entram pelos olhos dentro e nos vão corroendo o cérebro, triturando neurónios como quem passa tudo a pente fino até não sobrar nada, e pergunto-me se as direcções de programas de certas televisões terão perdido o norte ou se a guerra pelas audiências passou a justificar tudo, até o vazio que esses formatos nos oferecem com a arrogância de quem acha que nos faz um favor.

Vinte e seis anos, repito, 26 anos de Big Brother, não é alucinação nem delírio: é uma espécie de transe colectivo, uma dormência prolongada que talvez a ciência um dia consiga explicar. Como se a alienação não bastasse, acrescentam ao catálogo deprimente primeiras companhias, agricultores de plástico e outras pérolas da mesma estirpe, todas embrulhadas no mesmo celofane brilhante que esconde a falta de substância.

A máquina que produz a Casa d’Amália devia ser replicada por toda a cultura e por todo o saber, e daqui envio um abraço ao José Gonçalez — que não conheço — e à sua equipa, pelos momentos extraordinários que nos têm oferecido ao longo dos anos, como quem acende uma luz num corredor demasiado comprido e obscuro.

Imagino, sem a grandeza de John Lennon, o que seria se todas estas equipas e investimentos fossem colocados ao serviço do teatro, do cinema, da música, do bailado, da literatura, da pintura, das ciências?!... Num dia teríamos a Casa d’Amália, no dia seguinte a Casa d’Amélia Rey Colaço, e depois a de Max, de Toni, de Carlos do Carmo, de José Cid, de Paco Bandeira, de Rui Veloso, de Ricardo Ribeiro, de Camané, de Pedro Abrunhosa, de Marisa, de Carminho, de Katia Guerreiro, de Cuca Roseta, e ainda a de Mário Cláudio, de Mário de Carvalho, de Camões, de Saramago, de Pessoa, de Lobo Antunes, de Rui de Carvalho, de Eunice Muñoz, de Diogo Infante, de Júlio Pomar, de Nádir Afonso, de Vieira da Silva, de Graça Morais, de Eduardo Lourenço, de Manuel Sobrinho Simões, de Carolina Beatriz Ângelo, de Raquel Boia, e ao lado delas as casas que guardam as memórias da cultura: Gulbenkian, Casa da Música, Companhia Nacional de Bailado, São Carlos, Casa das Histórias Paula Rego, Serralves, TAS, Comuna, Teatro Dona Maria e de tantos outros que me é impossível enumerar. Lugares onde a arte ainda respira, mesmo quando o país parece esquecer-se de que precisa dela para continuar a ser país, como quem se esquece de regar uma planta e depois se espanta por vê-la morrer.

Em vez disso, temos rios de euros e gravações de coisa nenhuma, e penso muitas vezes nisto, no país que nos tornámos, na pseudo‑democracia que prolifera em interesses, propaganda e alienações, esquecendo que a grandeza de um país se faz pela cultura e também por aqueles que trabalham para que haja comida na mesa, libertando-nos o pensamento para a grandeza da ociosidade. Sim, refiro-me aos verdadeiros agricultores, pescadores, pastores..., esses que mereciam o regresso de um “TV Rural” que lhes desse o destaque que verdadeiramente têm nas nossas vidas.

Um país que esquece a sua cultura não perde apenas memória: perde a capacidade de se reconhecer ao espelho.

© Fernando Alagoa

sexta-feira, 6 de março de 2026

MORTE

Homenagem a António Lobo Antunes

A morte, mais do que assustadora, é um verdadeiro estado de aborrecimento. Hoje estamos e amanhã já não estamos. Há qualquer coisa de ficção científica nisto, tipo Espaço 1999: um momento estamos aqui, no outro enviam-nos para um sítio qualquer sem nos pedirem autorização, como se fossemos um eco ou uma luz fluorescente.

Sempre me pareceu que a morte tem ar de elevador avariado: carregamos no botão, esperamos, esperamos, e quando finalmente chega, vem sempre para o piso errado.

O que mais me irrita é não poder beijar, ouvir música, ler um bom livro, fumar ou comer uma bela feijoada acompanhada de um tinto divinal. Imagino o além como um sítio onde tudo sabe a puré de batata requentado, servido por almas que já desistiram de temperos. Talvez haja feijoada, mas sem sal, sem gordura, sem alegria — uma feijoada metafísica, que é como dizer: nada. Ao menos que no além nos deixassem abusar do tabaco e do colesterol.

Isto de morrer incomoda-me solenemente. Não saber onde vou acordar no dia seguinte, sem hora marcada nem local certo, é muito inconveniente. A vida até era um tanto ou quanto tranquila; já a morte, ao que parece, é uma espécie de intervalo confuso e demasiado longo entre dois pensamentos esquecidos, daqueles que nos fazem perder o fio à meada e perguntar: “O que é que eu vim aqui fazer?”

Às vezes imagino que morrer é acordar num sítio onde finalmente ninguém nos incomoda. Um descanso absoluto. Mas conhecendo‑me, mesmo morto continuaria a entediar-me sem um bom desassossego — o que, convenhamos, estraga um bocado a eternidade.

E depois há esta coisa de não poder avisar ninguém. Como se fosse natural desaparecer sem aviso, sem deixar um bilhete, sem a importância de um “volto já”. Morre‑se e pronto, desaparece‑se como quem sai de fininho de uma festa aborrecida. A diferença é que na festa ainda se podia levar um croquete para o caminho para rematar um último gole de champanhe.

Deixo-vos uns livros e umas crónicas, pelo menos fico com a ideia que enquanto me lerem não morrerei.

Ainda assim, preferia o croquete e o champanhe  eu que até nem gosto de champanhe.

Morrer é mesmo uma chatice!

© Fernando Algoa

quinta-feira, 5 de março de 2026

DOCE ILUSÃO

No início desta guerra atroz, como são todas as guerras, alguém ligado ao sector dos combustíveis apressou‑se a garantir que os portugueses não tinham razões para se preocupar: existiam reservas para vários meses. O gás natural, vindo sobretudo do Norte de África, manteria estável o preço da eletricidade. Mas, no dia seguinte — ainda que a guerra pudesse terminar amanhã — a propaganda já reinava. Os preços dos combustíveis ganharam nova vida, como se tivessem encontrado um pretexto perfeito para crescer antes do tempo.

A ganância, que não conhece limites, é a personificação da falta de vergonha. Armazéns cheios a preços baixos não combinam com aumentos do crude que ainda nem chegaram. Mas isso pouco importa a quem aprendeu, durante a pandemia, que o medo é um negócio rentável. Rumores de uma “pandemia 2” ficaram em suspenso, à espera de dias mais propícios ao saque. Esses dias parecem estar à porta. Nada alimenta melhor fortunas fáceis do que o desespero alheio. Os juros espreitam. As dificuldades, a fome e a miséria também.

A ditadura persegue, silencia, aterroriza, tortura, mata. A pseudo‑democracia persegue, silencia, aterroriza, tortura, mata. Cada uma à sua maneira, ambas esmagam vidas e sonhos. A diferença é que a democracia nos oferece apenas a doce ilusão da liberdade — e talvez por isso a crueldade seja maior. A pseudo‑democracia age na sombra: aterroriza pela calada, mata sonhos com promessas vazias, rouba dignidade sem deixar marcas visíveis.

Na ditadura, um homem pode morrer a lutar pela liberdade — e morre com dignidade. Na pseudo‑democracia, um homem não morre por um ideal; morre lentamente, no degredo de uma imoralidade que não consegue combater.

© Fernando Alagoa.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

A BELEZA DA LIBERDADE | DIA DE ELEIÇÕES

Há dias que parecem suspensos no tempo, dias em que a rotina abranda e a consciência desperta. O dia de eleições é um desses raros instantes colectivos. Não é apenas um ritual democrático; é um encontro silencioso entre cada pessoa e a sua responsabilidade.

Ao entrar na sala de voto, carregamos connosco dúvidas, inquietações e esperanças. Mas, por alguns minutos, tudo se simplifica: somos cidadãos, iguais na dignidade e no direito de escolher. A urna eleitoral, discreta e paciente, recebe cada voto como quem recolhe sementes — pequenas, frágeis, mas capazes de transformar paisagens inteiras. De terras agrestes nasce o deslumbre de um campo de papoilas.

Há uma beleza profunda neste acto. A beleza da liberdade conquistada, da consciência exercida, da pluralidade respeitada. A beleza de saber que, mesmo discordando, caminhamos lado a lado na construção de um futuro comum. E a beleza, sobretudo, de perceber que a democracia não vive nos grandes discursos, mas neste gesto íntimo e sereno de marcar uma cruz num papel.

Hoje, ao votarmos, renovamos um pacto: o de acreditar que a nossa voz importa e que o mundo pode ser moldado pela participação de todos. É um acto simples, mas nunca pequeno. É, talvez, uma das formas mais puras de esperança.

© Fernando Alagoa

sábado, 24 de janeiro de 2026

DIA INTERNACIONAL DA EDUCAÇÃO

EU TENHO UM SONHO

"I have a dream" (1)
Eu tenho um sonho!
Que um dia viveremos para o conhecimento.
Que "um livro, uma caneta, uma criança e um professor” (2) deixem de ser apenas objectos, e passem a ser sementes de um mundo inteiro.
Que cada página seja terra fértil, cada palavra um gesto, e cada gesto um futuro.
Eu tenho um sonho!
Que as espingardas, enfeitadas de cravos, libertem apenas sílabas ao vento.
Que os canhões disparem frases inteiras, e que os únicos ferimentos que existam sejam emoções — emoções que tocam, que despertam, que transformam.
Eu tenho um sonho!
Vejo, no horizonte, aviões outrora de guerra transformados em mensageiros da luz.
Imagino-os a abrir os seus porões para deixar cair milhares de livros, como chuva mansa sobre campos sedentos.
E imagino também uma única bomba atómica — não a que destrói, mas a que ilumina.
A explosão do conhecimento a espalhar-se pelo mundo como uma aurora que nunca se apaga.
Eu tenho um sonho!
Às vezes, este sonho invade-me.
Toma-me pela mão.
E sinto que preciso de o dizer.
"Cantando, espalharei por toda a parte" (3): este é o meu sonho.
Sonho com o dia em que todos saibam ler e escrever, e em que das bocas humanas nasçam apenas palavras de esperança.
Sonho com o tempo em que todas as crianças possam ser simplesmente crianças: correr atrás de um papagaio de papel, vê-lo subir ao céu e voar com ele na imaginação.
Eu tenho um sonho!
E continuo a sonhar.
Que a música seja ponte entre povos.
Que a ciência cure mais do que a dor do corpo.
Que a arte seja abrigo para quem procura beleza.
Que a amizade seja a língua universal.
Que a paz seja o chão onde todos aprendemos a caminhar.
Eu tenho um sonho!
E enquanto houver um coração disposto a escutá-lo, esse sonho continuará vivo — como uma chama que não se deixa apagar.
Eu tenho um sonho!
© Fernando Alagoa
(1) Martin Luther King Jr.
(2) Malala Yousafzai
(3) Luiz Vaz de Camões



sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

NINGUÉM ESCREVE AO CORONEL | 23-01-2026

“Ninguém escreve ao coronel”, título de uma obra de Gabriel García Márquez, ecoa hoje com outra ressonância. A data assinala o Dia Mundial da Escrita à Mão, esse gesto antigo que vai resistindo ao tempo.

A liberdade também celebra o seu aniversário — o Dia Mundial da Liberdade — e convida-nos a revisitar o artigo 1.º da DUDH, ele próprio nascido do traço humano: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

Ainda há por aqui quem mantenha o hábito? Cartas de amor, talvez ridículas. Cartas de Paris, quem sabe.

Porque escrever à mão é mais do que comunicar: é deixar que o pensamento abrande, que a memória se ilumine, que a liberdade encontre espaço para respirar. Num mundo que corre depressa demais, talvez a verdadeira revolução seja esta: continuar a escrever — mesmo quando parece que já ninguém escreve ao coronel.

© Fernando Alagoa


domingo, 18 de janeiro de 2026

A FAZEDORA DE DITADURAS

A memória dos povos há de recordar a América de Trump como o suporte de ditadores.

Nunca uma democracia contribuíra tão intensamente para a manutenção de regimes autoritários, alimentando-os, estimulando-os e desejando reinventar-se a si própria como aprendiz de totalitarismo além‑fronteiras.

Não se trata apenas — e este “apenas” já é demasiado — de uma alteração da ordem mundial, entendida como a troca de protagonistas no jogo da força e do poder. Esta nova ordem transporta consigo um despotismo inqualificável.

Enquanto eleva a amigos os deuses da repressão, hostiliza aliados e insulta os vizinhos fronteiriços.

Surreal: uma realidade distópica, digna apenas de filmes de má qualidade, protagonizada por um prémio Nobel que, tendo sido oferecido ao aprendiz de tiranete, deveria — se tal fosse possível — ser devolvido à própria Academia que o atribuiu.

Nada tendo a ver, aparentemente, com esta cacotopia, ocorreu‑me Mário de Sá‑Carneiro e o seu poema "Quase": já tínhamos visto quase tudo; agora já vimos tudo.

© Fernando Alagoa