EU TENHO UM SONHO
sábado, 24 de janeiro de 2026
DIA INTERNACIONAL DA EDUCAÇÃO
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
NINGUÉM ESCREVE AO CORONEL | 23-01-2026
“Ninguém escreve ao coronel”, título de uma obra de Gabriel García Márquez, ecoa hoje com outra ressonância. A data assinala o Dia Mundial da Escrita à Mão, esse gesto antigo que vai resistindo ao tempo.
A liberdade também celebra o seu aniversário — o Dia Mundial da Liberdade — e convida-nos a revisitar o artigo 1.º da DUDH, ele próprio nascido do traço humano: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”
Ainda há por aqui quem mantenha o hábito? Cartas de amor, talvez ridículas. Cartas de Paris, quem sabe.
Porque escrever à mão é mais do que comunicar: é deixar que o pensamento abrande, que a memória se ilumine, que a liberdade encontre espaço para respirar. Num mundo que corre depressa demais, talvez a verdadeira revolução seja esta: continuar a escrever — mesmo quando parece que já ninguém escreve ao coronel.
© Fernando Alagoa
domingo, 18 de janeiro de 2026
A FAZEDORA DE DITADURAS
A memória dos povos há de recordar a América de Trump como o suporte de ditadores.
Nunca uma democracia contribuíra tão intensamente para a manutenção de regimes autoritários, alimentando-os, estimulando-os e desejando reinventar-se a si própria como aprendiz de totalitarismo além‑fronteiras.
Não se trata apenas — e este “apenas” já é demasiado — de uma alteração da ordem mundial, entendida como a troca de protagonistas no jogo da força e do poder. Esta nova ordem transporta consigo um despotismo inqualificável.
Enquanto eleva a amigos os deuses da repressão, hostiliza aliados e insulta os vizinhos fronteiriços.
Surreal: uma realidade distópica, digna apenas de filmes de má qualidade, protagonizada por um prémio Nobel que, tendo sido oferecido ao aprendiz de tiranete, deveria — se tal fosse possível — ser devolvido à própria Academia que o atribuiu.
Nada tendo a ver, aparentemente, com esta cacotopia, ocorreu‑me Mário de Sá‑Carneiro e o seu poema "Quase": já tínhamos visto quase tudo; agora já vimos tudo.
© Fernando Alagoa
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
DIA DE REIS
«Quando um trabalhador, em qualquer parte do mundo, ergue os seus punhos nus diante de um tanque e grita que não é um escravo, que somos nós se a isso ficarmos indiferentes?»
Encontrei esta frase na internet atribuída a Camus, embora não a tenha conseguido validar. Mas, no fundo, o essencial não é o autor: é a mensagem. Há nela uma plasticidade que permite adaptá‑la aos tempos que vivemos, sem perder a sua força moral. No contexto actual, se fosse minha, talvez a reformulasse assim: Quando uma pessoa, em qualquer parte do mundo, ergue os seus punhos nus diante da tirania e afirma que não é um escravo, que somos nós se a isso ficarmos indiferentes?
A dignidade humana não é um conceito abstracto nem um luxo filosófico; é o fundamento mínimo que permite a cada ser humano existir sem medo, sem humilhação e sem violência. Sempre que alguém, em qualquer latitude, se levanta contra a opressão — seja ela política, económica, social ou simbólica — está a recordar-nos que a liberdade não é um privilégio, mas um direito inalienável. E quando testemunhamos esse gesto e escolhemos o silêncio, não somos apenas espectadores: tornamo-nos cúmplices involuntários da injustiça.
Indignar‑nos é, por isso, um acto de humanidade. Reconhecer a dor do outro é reconhecer a nossa própria vulnerabilidade. E defender quem resiste, mesmo à distância, é afirmar que nenhuma pessoa deve ser reduzida a instrumento, número ou engrenagem. A dignidade humana começa precisamente aí: no instante em que recusamos aceitar que alguém seja tratado como menos do que um ser humano pleno.
Neste Dia de Reis, quando se celebra a Epifania do Senhor — esse instante simbólico em que a luz se manifesta ao mundo e o convida a reconhecer o valor absoluto de cada vida — somos lembrados de que a dignidade humana não é apenas um princípio moral, mas uma verdade que se revela sempre que alguém se ergue contra a tirania. A Epifania, entendida filosoficamente, é o momento em que o humano desperta para o humano: quando percebemos que a liberdade do outro está inevitavelmente ligada à nossa própria liberdade. Por isso, cada gesto de resistência, por mais isolado que pareça, renova a exigência ética que nos atravessa a todos. E a pergunta permanece, tão simples quanto inescapável: que somos nós, se ficarmos indiferentes?
© Fernando Alagoa
sábado, 3 de janeiro de 2026
A HIPOCRISIA DO DIREITO
Referiu Ulpiano que os juristas são sacerdotes, já que prestam culto à Justiça e não ao direito. Talvez por isso o direito, tantas vezes injusto, nos obrigue a contar as suas falhas pelos dedos… e a perder a conta logo de seguida.
Se a postura dos Estados Unidos violou o Direito Internacional, então talvez esteja na hora de repensarmos o próprio Direito Internacional. Se a autodeterminação de um povo só a esse povo diz respeito, devemos perguntar-nos se tal autodeterminação deve prevalecer apenas perante outros Estados ou também perante os seus próprios governantes — sobretudo quando esses governantes confundem poder com propriedade.
As cartas das Nações Unidas (Carta fundadora, DUDH, Pactos Internacionais…) são cristalinas quanto à proibição do uso da força contra a integridade territorial ou a independência de um Estado. Porém, a mesma DUDH ergue-se como baluarte do direito à vida, à liberdade e à dignidade humana.
Em que ficamos? Em muito pouco — ou quase nada.
A verdade é que certas atitudes que se apresentam como altruístas não passam, na maioria das vezes, de jogos de poder habilmente embrulhados em discursos humanitários. A velha arte de fazer o bem… quando dá jeito.
Onde estão todos aqueles que passam décadas a negociar com ditadores criminosos, fechando os olhos ao sacrifício dos povos? Onde se escondem quando as câmaras se desligam e os contratos se assinam?
Irão os Estados Unidos seguir o caminho do bom samaritano e libertar todos os povos oprimidos do planeta? Não. Irá a comunidade internacional mudar de rumo e promover os direitos humanos a todo o custo? Não. Deixará de negociar com criminosos de guerra? Também não.
A hipocrisia dos interesses continua a imperar. E quando os interesses se sobrepõem aos direitos humanos, estes últimos ficam sempre para trás — esmagados, silenciados, convenientemente esquecidos.
Invoca-se a autodeterminação e os direitos humanos apenas quando servem a narrativa do momento. É por isso que vemos anjos e diabos a citá-los com a mesma convicção, como se ambos tivessem descoberto subitamente a moralidade… desde que não lhes custe nada.
No que respeita ao Direito Internacional, talvez devêssemos seguir os ensinamentos de António Hespanha no seu Caleidoscópio do Direito: olhar o direito de mais lados, “... olhar o direito de mais sítios e de sítios mais improváveis do que se tornou habitual.”
Se o legalismo cego nos conduz a concluir que houve violação do Direito Internacional, talvez o direito dos povos — esse que raramente entra nas salas de decisão — nos ofereça uma justificação adequada, até moderada, para a libertação de um povo oprimido.
Pena que, mais uma vez, o motivo real navegue no vasto e confortável reino da hipocrisia.
Fernando Alagoa © 2026 | Todos os direitos reservados
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
DE AVATAR A LAUDATO SI'
DIA MUNDIAL DA PAZ | VOTOS DE FELIZ ANO NOVO!!!
No dia 30 de dezembro de 2025, vi Avatar, o terceiro filme da saga de James Cameron. Mantém a linha do segundo e, por isso, tendo em conta o impacto da novidade criativa, continuo a considerar o primeiro como o mais marcante de todos. Porém, esta reflexão não pretende classificar filmes, mas destacar a mensagem profunda que lhes dá sentido. Essa mensagem, aliada à beleza visual, é do melhor que o cinema tem oferecido.
Os voos em comunhão com os ikran ou banshee, dragões voadores que evocam pterodáctilos, e as viagens com os tulkuns, as majestosas baleias que são irmãs espirituais do povo Na’vi, são de uma grandiosidade rara. O mundo em que vivem, em plena sintonia com a natureza e com a reverência que lhe dedicam, faz-nos recordar os povos indígenas da América do Norte, as comunidades amazónicas ou até os aborígenes australianos.
Esse universo de beleza e encanto, quase paradisíaco, onde cada paisagem, cada ser e cada instante nos deslumbram, contrasta violentamente com a sede do “povo dos céus” — os humanos — que surgem como invasores, exploradores e destruidores de um ambiente sagrado. Enquanto via o filme, lembrei-me também da canção As Baleias, de Roberto Carlos, da qual deixo um pequeno excerto:
«Não é possível que no fundo do seu peito
Seu coração não tenha lágrimas guardadas
Pra derramar sobre o vermelho derramado
No azul das águas que você deixou manchadas
Seus netos vão te perguntar em poucos anos
Pelas baleias que cruzavam oceanos»
Uma mensagem que se estende a tantas outras espécies: o rinoceronte‑branco, os gorilas, os bisontes, os elefantes e, no princípio e no fim, a nós próprios. Somos incapazes de cuidar de nós e do nosso semelhante; como esperar que cuidemos dos nossos irmãos de outras espécies.
Os oceanos, os rios, a Amazónia, o ar que respiramos tudo parece clamar por esperança, e nós continuamos a não a ouvir.
A palavra “humanos”, e o significado que lhe atribuímos — compaixão, benevolência, solidariedade — está muito aquém do que gostaríamos que fosse. Entrámos no século XXI com ambições de alcançar o infinito galáctico, mas sem a mínima determinação de preservar esta casa comum, como tantas vezes Francisco nos alertou na encíclica Laudato Si’.
A imagem final do filme, que interpretei como uma referência à filosofia africana Ubuntu — “Eu sou porque tu és”, “porque nós somos” —, sublinha a interdependência, a solidariedade, a empatia e o sentido de comunidade. Ressoa dentro de nós como o ideal para qualquer sociedade, mas permanece, infelizmente, uma miragem distante.
Ainda assim, creio que há espaço para esperança.
Talvez a força destas histórias, reais ou imaginadas, esteja precisamente na capacidade de nos despertar. Talvez cada filme, cada gesto de beleza, cada memória de um mundo que ainda resiste, seja uma semente. E as sementes, mesmo quando caem em solo árido, têm uma teimosia silenciosa: procuram sempre uma forma de germinar.
Que o novo ano nos encontre mais atentos, mais disponíveis para cuidar, mais conscientes de que não estamos sós, e de que o futuro, embora frágil, continua à espera das nossas melhores escolhas.
Fernando Alagoa © 2026 | Todos os direitos reservados




