domingo, 31 de maio de 2026

BANCOS DE ALIMENTOS e DIGNIDADE HUMANA

O Banco de Alimentos voltou a espalhar-se pelos supermercados, como uma constelação de esperança improvisada, pedindo alimentos para quem vive com a dispensa vazia e o coração cansado. E, como sempre, os portugueses respondem — porque a generosidade, essa, nunca entrou em crise. Mas há uma pergunta que ecoa baixinho, quase envergonhada:

até quando?

Que país seríamos se um dia pudéssemos celebrar o encerramento dos Bancos Alimentares, não por falta de vontade de ajudar, mas porque já ninguém precisasse de ajuda para comer. Que país seríamos se os nossos governantes encontrassem o mesmo entusiasmo, a mesma energia, a mesma capacidade de mobilização que já demonstraram noutros grandes momentos, e a colocassem ao serviço de uma causa simples e gigantesca:

acabar com a fome e com a miséria.

Imaginemos um país que decide, com coragem, resolver um problema de cada vez. Primeiro, garantir que ninguém adormece com o estômago vazio. Depois, com igual dedicação, curar a saúde que falta, reconstruir o ensino que falha, devolver segurança às ruas, justiça aos tribunais. Passo a passo, como quem dá um primeiro passo lunar — firme, histórico, capaz de mudar o rumo de uma geração.

Há lugares no mundo onde este caminho já começou. Não são perfeitos, mas provam que é possível. É para esses horizontes que devíamos olhar, não para copiar, mas para aprender a sonhar mais alto.

Enquanto isso não acontece, continuamos a depender da solidariedade dos mesmos de sempre: pessoas comuns, que dão do pouco que têm para que outros tenham um pouco mais. Mas a solidariedade, por mais bela que seja, não pode ser a tábua de salvação permanente de um Estado que falha no essencial.

Este texto é um murmúrio que quer tornar-se voz.

Um pedido simples e urgente:

que a dignidade humana seja finalmente tratada como prioridade nacional.

© Fernando Alagoa

sexta-feira, 29 de maio de 2026

TRIBUNAL A CONTAS

Há três frases que me acompanham com frequência. Uma é minha: “gerir é antecipar”. As outras pertencem a dois mestres. Júlio César observava que «Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar». António Manuel Hespanha lembrava-nos que «O que se procura é olhar o direito de mais sítios e de sítios mais improváveis do que se tornou habitual».

Custa, por isso, compreender que quem nos governa — ou desgoverna — persista em contrariar os princípios que estas frases convocam: falha em antecipar, ignora as lições do passado e aborda os problemas sempre pela mesma e estreita perspectiva.

O SEF prevaricou, não se corrigiu e acabou extinto sem que se prevenissem as consequências dessa extinção. Agora, afirma-se que o Tribunal de Contas “atrapalha”, que decide devagar. Em vez de reforçar meios, modernizar processos e permitir que a instituição cumpra melhor a sua missão, opta-se por uma solução enviesada: retirar-lhe funções, como se o problema estivesse no escrutínio e não na incapacidade de o acompanhar.

Nestes casos — tal como nas TAP, nos bancos ou nos SIRESP — nunca há milhões para investir, melhorar ou modernizar. Há, isso sim, uma pressa em reduzir competências ou extinguir estruturas. Multiplicam-se argumentos, quase sempre comparando o nosso penoso retângulo com países mais desenvolvidos, referências que raramente surgem quando falamos de salários, qualidade de vida ou condições laborais, mas que aparecem prontas quando se pretende justificar o injustificável. Países onde quem perde uma carteira regressa dias depois ao mesmo local e a encontra intacta. Entre nós, desaparece a carteira, a mesa e, se possível, as cadeiras.

Lamento que, tal como referi aquando da Jornada Mundial da Juventude, os nossos responsáveis políticos não se unam com o mesmo empenho para fortalecer os serviços que ainda nos protegem. Seria esse o verdadeiro sinal de governação responsável.

Teima-se em importar realidades alheias, muitas vezes incompatíveis com os conflitos que nos são próprios, em vez de analisar e melhorar o que realmente se impõe.

© Fernando Alagoa

sexta-feira, 22 de maio de 2026

DIA DO AUTOR PORTUGUÊS

(Revisitação)

Ao longo da história, os autores têm sido alvo de perseguições e silenciamentos. Ainda assim, com coragem inabalável e criatividade sem fronteiras, desafiam o tempo, enriquecem a cultura, moldam o pensamento e alimentam a alma de gerações.

Sem os autores, a nossa identidade seria irremediavelmente mais pobre. São eles que esculpem as palavras que atravessam séculos, que provocam reflexão, despertam emoções profundas e fazem de Portugal um farol vibrante no universo artístico.

Do lirismo arrebatador de Camões à ousadia visionária de Saramago, da delicadeza profunda de Sophia à genial multiplicidade de Pessoa, do sarcasmo mordaz de Bordalo ao grito de resistência de Zeca Afonso, cada um deixou um legado que transcende o tempo. São arquitectos da nossa memória colectiva, guardiões incansáveis da língua e eternos construtores de sonhos.

No Dia do Autor Português, celebramos a resistência, o talento e a paixão daqueles que, mesmo perante adversidades, nunca se calam e continuam a dar voz à cultura. São pilares da nossa identidade e mestres que moldam e perpetuam o espírito criativo da nação.

Que nunca nos faltem palavras para os honrar — e que, através delas, Portugal continue a viver eternamente na arte e na história.

© Fernando Alagoa

sexta-feira, 15 de maio de 2026

IMI — IMPOSTO DESAJUSTADO

(Revisitação)

Há alguns anos descrevi o IMI como um imposto injusto. Hoje, mantenho essa avaliação, mas acrescento que a sua configuração atual ultrapassa largamente aquilo que uma sociedade equilibrada deveria aceitar.

Como tenho sublinhado ao longo do tempo, o IMI carrega ainda traços de um modelo fiscal antiquado, herdeiro de lógicas que já não se coadunam com a realidade contemporânea. Quando aplicado à casa de morada de família, torna-se particularmente penalizador. Basta considerar que um proprietário que mantenha o mesmo imóvel durante meio século poderá, ao longo da vida, entregar ao Estado uma fatia significativa do valor inicial da aquisição — tudo isto por um bem que já comprou e que continua a manter às suas próprias custas.

Existem concelhos que optam sistematicamente pela taxa máxima, sem ponderar o impacto social dessa decisão. Paralelamente, a máquina administrativa, tantas vezes incapaz de assegurar eficazmente funções essenciais — desde a preservação do património público ao combate à criminalidade e à corrupção — revela, no entanto, grande eficiência quando se trata de cobrar este imposto.

O silêncio institucional mantém-se. Não se flexibilizam pagamentos, não se revêem critérios, e o valor patrimonial tributário continua a ser atualizado de forma a aumentar a receita, mesmo quando a realidade do mercado aponta para desvalorizações. As reavaliações, curiosamente, só parecem ocorrer de forma automática quando resultam em agravamentos.

Importa recordar que nem o Estado nem as autarquias suportam custos de manutenção dos imóveis privados, mas beneficiam amplamente da sua existência através de uma cobrança contínua e crescente.

Pagamos muitos impostos, pagamos impostos elevados e pagamo-los repetidamente, mas continuamos a assistir a um país permanentemente endividado. A sensação de desproporção é inevitável.

A questão impõe-se: até quando se continuará a tributar a casa de morada de família com valores que muitos consideram desajustados da realidade económica e social?

© Fernando Alagoa

quinta-feira, 7 de maio de 2026

NACIONALIDADE, UM ACTO DE PERTENÇA

Sumário: A democracia não se defende cedendo; defende-se esclarecendo, educando, dialogando e, quando necessário, aplicando a lei com justiça e proporcionalidade. A verdadeira tolerância não é a que tudo aceita, mas a que sabe distinguir entre aquilo que enriquece a comunidade e aquilo que a fere. E é nessa distinção — difícil, mas indispensável — que a democracia deixa de ser refém de si própria e se torna plenamente fiel ao que promete.

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A democracia, enquanto construção histórica e ética, assenta em princípios fundadores. É por isso que se compromete com os direitos humanos, com a liberdade de expressão, com o Estado de direito e com a protecção das minorias. Esses valores não são acessórios; são o próprio alicerce do regime democrático. Contudo, é precisamente por serem tão essenciais que exigem vigilância constante. Uma democracia que, em nome da tolerância, abdica da defesa coerente dos seus próprios princípios corre o risco de se tornar refém de si própria.

Não está em causa relativizar culturas, tradições ou identidades. Está, isso sim, em reconhecer que nenhuma sociedade plural se sustenta se aceitar como inevitável aquilo que contradiz frontalmente os direitos fundamentais que proclama. Quando um Estado define a maioridade aos 18 anos, quando estabelece limites claros para o casamento, para a autonomia civil ou para a responsabilidade penal, fá-lo com base em critérios jurídicos e éticos que visam proteger os mais vulneráveis. Ignorar práticas que, ainda que informais, atentem contra essa proteção, como uniões envolvendo menores, não é um gesto de tolerância cultural; é uma renúncia à obrigação democrática de salvaguardar a integridade e o futuro das crianças.

O mesmo dilema surge quando, em nome de uma inclusão mal compreendida, se alteram práticas públicas consolidadas. Quando escolas evitam celebrar o Natal, retiram símbolos tradicionais ou modificam ementas inteiras para acomodar preferências alimentares de grupos específicos, não estão a promover integração; estão a diluir a identidade cultural comum que sustenta a convivência democrática. A hospitalidade não exige que um país renuncie às suas tradições, mas que as abra a todos. Quem chega deve ser respeitado, mas também deve compreender que a integração implica conviver com os elementos culturais que estruturam a comunidade de acolhimento, e não substituí-los.

Também no quotidiano escolar surgem tensões semelhantes. A liberdade religiosa é um direito fundamental, mas não existe isolada: convive com normas de funcionamento das instituições públicas, com regras de neutralidade e com práticas sociais que visam garantir igualdade de tratamento. A questão não é proibir expressões identitárias, mas assegurar que a escola — espaço de formação cívica — permanece um lugar onde nenhum aluno se sinta privilegiado ou excluído por motivos religiosos, culturais ou sociais. A democracia deve acolher a diversidade, mas não pode permitir que essa diversidade se transforme em excepções permanentes que fragilizam a coesão comum.

A mesma lógica aplica-se à vida cívica. E aqui torna-se essencial distinguir entre “residência”, “cidadania” (no sentido cívico) e “nacionalidade” (no sentido jurídico). A residência, com os seus direitos e deveres, deve ser acessível a quem vive, trabalha e contribui para a sociedade. A cidadania, entendida como participação e respeito pelos valores fundamentais, pode existir mesmo antes da nacionalidade. Mas a nacionalidade, essa, deve ser um vínculo mais profundo: um reconhecimento de pertença, de compromisso e de adesão aos princípios democráticos da comunidade que se escolheu integrar. A nacionalidade não deve ser atribuída apenas porque alguém reside num território; deve ser conquistada através de um percurso de mérito, responsabilidade e respeito pelo país de acolhimento.

Outros países democráticos ilustram esta distinção com clareza. O Japão separa nitidamente residência, cidadania cívica e nacionalidade: um estrangeiro pode viver décadas no país, cumprir deveres e integrar-se socialmente, mas a nacionalidade exige comportamentos exemplares. O Canadá, por sua vez, distingue rigorosamente residentes permanentes de cidadãos: um residente pode ser deportado por crimes graves, mesmo após muitos anos no país. Em ambos os casos, a mensagem é clara: “a nacionalidade é um estatuto forte, exigente e não automático”.

É legítimo, portanto, que Portugal, como qualquer democracia madura, reflicta sobre o significado da sua própria nacionalidade. A pertença jurídica à comunidade nacional não deve ser banalizada. Deve ser um reconhecimento de verdadeira integração, não um mero efeito colateral da residência. Deve ser atribuída a quem demonstra respeito pelo país, adesão aos seus valores e vontade autêntica de pertença.

Em todos estes casos, o desafio é o mesmo: como conciliar a abertura democrática com a firmeza ética? A resposta não está na rigidez dogmática nem na permissividade ilimitada. Está na capacidade de afirmar, com serenidade e clareza, que o respeito pela diferença não pode significar a aceitação de práticas que negam a dignidade humana ou que corroem os fundamentos culturais e jurídicos da comunidade. A democracia não se defende cedendo; defende-se esclarecendo, educando, dialogando e, quando necessário, aplicando a lei com justiça e proporcionalidade.

Uma democracia madura não teme discutir os seus limites, porque sabe que é dessa reflexão que nasce a sua força. Não se trata de fechar portas, mas de garantir que as portas abertas não conduzem à erosão dos princípios que nos permitem viver juntos. A verdadeira tolerância não é a que tudo aceita, mas a que sabe distinguir entre aquilo que enriquece a comunidade e aquilo que a fere. E é nessa distinção — difícil, mas indispensável — que a democracia deixa de ser refém de si própria e se torna plenamente fiel ao que promete.

© Fernando Alagoa

terça-feira, 5 de maio de 2026

DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA | 5 MAIO

A língua portuguesa que nos une não é apenas um conjunto de sons organizados para comunicar.

É um território vivo, tecido por séculos de encontros, partidas, regressos e reinvenções.

Carrega em si um modo de estar no mundo: a delicadeza de quem sente fundo, a coragem de quem atravessa mares, a saudade que insiste em permanecer mesmo quando tudo muda.

Falar português é caminhar por uma história que nos antecede e que continua a ser escrita em cada gesto, em cada palavra que escolhemos para nomear o que sentimos.

É reconhecer que dentro desta língua cabem mundos inteiros — o riso fácil, o silêncio que diz tanto, a emoção que se derrama sem pedir licença.

E, por tudo isso, esta língua que partilhamos não é apenas um código.
É abraço.
É sonho.
É casa.
É chão.
É o lugar onde guardamos aquilo que sentimos quando não sabemos como dizer.

No Dia da Língua Portuguesa, celebramos essa magia discreta que nos acompanha desde o primeiro sopro de voz.

© Fernando Alagoa

sexta-feira, 1 de maio de 2026

BAIRRO USURA | DIA INTERNACIONAL DO TRABALHADOR

O 1.º de Maio nasceu como um grito colectivo contra a exploração, um dia em que trabalhadores de todo o mundo reivindicaram dignidade, tempo, salário justo e condições humanas. Mais de um século depois, a data continua carregada de simbolismo, mas também de ironia. Porque, apesar das conquistas, a exploração não desapareceu; apenas mudou de forma, de linguagem e de estratégia.

Se olharmos para Portugal no contexto global, quase parece que habitamos um “bairro usura”. Tal como as grandes cidades têm o seu bairro chinês, italiano ou japonês, nós temos um bairro peculiar: o bairro onde a usura é estrutural, silenciosa e legitimada. Não se trata de uma usura de esquina, mas de um sistema inteiro que, perante qualquer crise, encontra sempre a mesma solução: fazer com que os mais frágeis paguem a conta.

Quando surge uma crise — seja financeira, sanitária ou geopolítica — seria lógico que fossem aqueles com maior capacidade de resistência a assumir o maior peso. Mas o que acontece é o contrário. Os preços das casas disparam, o combustível aumenta, as taxas de juro sobem, a energia encarece, a alimentação torna-se um luxo para muitos. E tudo isto num país onde os salários permanecem estagnados e a mobilidade social é quase uma miragem.

Do lado de quem governa, a resposta às crises raramente passa por proteger os mais vulneráveis. A prioridade parece ser criar novas linhas de crédito, alterar leis laborais, impor seguros adicionais e multiplicar obrigações. Enquanto isso, não só o povo vai empobrecendo, como os serviços públicos vão definhando — escolas, hospitais, transportes — todos a perder capacidade, todos a perder fôlego, todos a reflectir o mesmo padrão de desgaste.

O resultado é um mecanismo perverso: o dinheiro flui das mãos dos pobres para os bolsos dos ricos, que saem das crises ainda mais fortalecidos. Os pobres tornam-se mais pobres, e muitos deixam de ser apenas pobres para se tornarem miseráveis. É uma transferência de riqueza ao contrário, um Robin Hood invertido, institucionalizado e repetido crise após crise.

O 1.º de Maio, então, não é apenas um dia de celebração histórica. É um lembrete incómodo de que a luta continua, não porque os trabalhadores não tenham conquistado direitos, mas porque o sistema encontrou novas formas de os contornar. É um convite a olhar para este “bairro usura” que habitamos e a perguntar se queremos continuar a viver nele ou se está na altura de reconstruir o bairro, a cidade e o país com regras mais justas.

© Fernando Alagoa

sábado, 25 de abril de 2026

INDIGNADA PANTOMIMA

Há declarações políticas que, envoltas em moralidade de catálogo, me fazem recordar A Corja de Camilo ou Os Maias de Eça. Não por capricho literário, mas porque a actualidade portuguesa parece empenhada em ressuscitar, com zelo quase académico, os vícios que esses autores tão bem dissecaram.

É curioso observar como certos protagonistas do nosso panorama político, sempre tão alarmados com o “perigo do populismo”, acabam por ser os seus mais dedicados fornecedores. Alimentam-no com angústias instantâneas, promessas que evaporam ao sol e discursos que oscilam entre o sermão e a pantomima.

É provável que, por conveniência ou mero cálculo, se finja desconhecer o que acontece em países como a Suécia — referência de honestidade institucional e ética pública. Talvez por isso valha a pena insistir: vejam o vídeo que vos deixo. Informem‑se, comparem. A indignação fingida oferece sempre mais conforto do que a verdade.

O contraste é tão evidente que quase se torna cómico: enquanto por cá se ensaia a mesma peça teatral de sempre — promessas, recuos, exasperações coreografadas — há países que seguem em frente com uma sobriedade que nos deveria envergonhar, ou pelo menos inspirar.


© Fernando Alagoa

sexta-feira, 24 de abril de 2026

ECOS DE ABRIL

A democracia pode ser o menos imperfeito dos regimes, mas quando se acomoda às suas próprias sombras, arrisca tornar-se confortável demais para quem deveria inquietar.

© Fernando Alagoa

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O ANTICRISTO

Há gestos políticos que ultrapassam o erro, a imprudência ou a vaidade. Há comportamentos que, pela sua natureza, se tornam uma negação frontal dos valores que afirmam defender. Quando um presidente decide comparar-se a Cristo — e, por consequência, a Deus — não está apenas a cometer um excesso retórico. Está a inverter a lógica moral que deveria orientar qualquer líder democrático. É, simbolicamente, um acto anticristão.

Cristo não procurou poder, não exigiu adoração, não reivindicou privilégios. A sua figura é sinónimo de humildade, serviço e sacrifício. Um governante que se coloca no lugar do sagrado, que se apresenta como salvador, que exige veneração, faz precisamente o contrário. Apropria-se da fé para alimentar o próprio ego. Usa o divino como espelho para engrandecer a própria imagem. E isso, por si só, é uma forma de profanação.

Um governante que se eleva ao estatuto de figura messiânica rompe o contrato democrático e transforma o espaço público num palco de culto. A sua postura deixa de ser vista como participação cívica e passa a ser tratada como blasfémia. A divergência torna-se heresia. E a política, que deveria ser diálogo, degrada-se em liturgia de adoração.

A democracia não tolera deuses. Constrói cidadãos. Enaltece líderes que compreendem que o poder é serviço, não coroação. Que a autoridade é responsabilidade, não glória. Que o cargo é transitório, não eterno. Quando alguém se coloca acima desses princípios, não está a imitar Cristo — está a negar tudo aquilo que Cristo representa.

Nada se opõe mais ao espírito do Evangelho do que a arrogância de quem se proclama salvador. Nada contradiz mais a ética pública do que a fusão entre vaidade pessoal e símbolos sagrados. Nada ameaça mais a liberdade do que um líder que se imagina enviado divino.

É importante lembrar que nenhum governante, por mais poderoso que seja, tem o direito de se colocar no lugar do sagrado, e muito menos de usar o sagrado para justificar a própria sede de poder.

© Fernando Alagoa

terça-feira, 7 de abril de 2026

O POPULISMO NÃO CAI DO CÉU

Volto ao tema, por indignação e repulsa com a ladainha costumeira.

Os partidos tradicionais adoram fingir espanto quando um novo movimento populista começa a ganhar terreno. Falam em “radicalização”, em “ameaça à democracia”, em “perigo para o país”. Mas evitam encarar a verdade mais incómoda: o populismo é, muitas vezes, a consequência directa das suas próprias falhas. É o resultado acumulado de anos de má governação, promessas quebradas, escândalos sucessivos e uma distância crescente entre o poder político e a vida real das pessoas.

E quando o descontentamento finalmente explode, esses mesmos partidos fazem de conta que não percebem de onde veio. Mas não há surpresa nenhuma: o populismo floresce onde a confiança foi destruída.

A responsabilização que nunca chega

Há um ponto que raramente entra no debate público: a responsabilização. Não basta lamentar o crescimento do populismo; é preciso enfrentar as causas que o alimentaram. E isso implica que quem contribuiu para o desgaste do país responda pelas suas acções — não por vingança, mas por justiça.

E aqui surge um contraste gritante.

O exemplo da Islândia

Depois da crise financeira de 2008, a Islândia fez aquilo que muitos países consideravam impensável:

  • priorizou os cidadãos em vez dos bancos,

  • recusou resgates irrestritos,

  • investigou e responsabilizou gestores financeiros,

  • procurou proteger a economia interna antes de proteger accionistas.

Foi um gesto raro de coragem política. Um país pequeno que decidiu que a democracia não existe para salvar instituições poderosas à custa do povo.

E depois há casos como o de Portugal

Em países como Portugal, a história foi bem diferente.
A culpa, como se diz, “morre sempre solteira”.
Os escândalos financeiros sucedem-se, mas as consequências são quase sempre simbólicas.
E, em certos casos, como no colapso do BES,
os accionistas acabaram por lucrar com o modelo de intervenção, enquanto milhares de cidadãos ficaram com prejuízos, incerteza e um profundo sentimento de injustiça.

É difícil pedir ao povo que confie na política quando vê que os erros dos poderosos são pagos pelos mesmos de sempre.

Sem Justiça não há regeneração

Um país não se regenera com discursos sobre estabilidade.
Regenera-se quando:

  • quem abusou do poder enfrenta consequências reais,

  • os danos causados ao povo são reconhecidos e reparados,

  • a transparência deixa de ser excepção e passa a ser regra,

  • a política volta a ser serviço público e não carreira blindada.

Sem isto, tudo o resto é cosmética.

Portanto, a indignação dos partidos tradicionais é tardia e selectiva. Indignam-se com o sintoma, mas ignoram a doença. Criticam o mensageiro, mas recusam-se a admitir que foram eles que deixaram a porta aberta para que ele entrasse.

Se querem combater o populismo, não basta demonizá-lo. É preciso recuperar a credibilidade perdida, reconquistar a confiança que deixaram escapar e, acima de tudo, lembrar que governar não é um privilégio — é uma responsabilidade. Enquanto isso não acontecer, o populismo continuará a crescer. Não por causa dos seus líderes, mas por causa do vazio que os outros deixaram.

P. S. - Aí está, de novo, a usura praticada com os preços dos combustíveis, para ilustrar as malfeitorias cometidas contra o país.

© Fernando Alagoa


segunda-feira, 6 de abril de 2026

NAÇÕES GOVERNADAS POR BULLIES

Há momentos na história em que o poder, em vez de ser exercido com responsabilidade, transforma‑se em instrumento de intimidação. Quando um presidente de uma nação adopta comportamentos típicos de um bully, impondo-se pela força, pelo desprezo ou pela humilhação, o impacto ultrapassa fronteiras. Não se trata apenas de política externa; trata-se de ética, de dignidade e do exemplo que se projecta para o mundo.

O mais inquietante, porém, não é apenas a postura agressiva de um líder, mas a reacção — ou a falta dela — por parte de outros dirigentes globais. Em nome de conveniências diplomáticas, interesses económicos ou simples cálculo político, muitos optam pela passividade. Fecham os olhos, suavizam discursos, relativizam abusos. E, ao fazê-lo, tornam-se cúmplices involuntários de uma dinâmica que corrói princípios fundamentais da convivência internacional.

A submissão disfarçada de pragmatismo é, no fundo, uma forma de abdicação moral. Quando líderes que deveriam defender valores universais escolhem o silêncio, enviam ao mundo a mensagem de que a força vale mais do que o respeito, e que a intimidação pode ser tolerada desde que sirva a determinados interesses.

Mas a história mostra que a complacência com comportamentos abusivos nunca termina bem. A diplomacia não precisa ser subserviente; pode — e deve — ser firme, ética e corajosa. O mundo não avança quando se normaliza o abuso de poder, mas quando se estabelece um limite claro entre autoridade e autoritarismo.

Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente este: lembrar que liderar não é intimidar, e que respeitar não é submeter-se. A verdadeira grandeza de uma nação mede-se não pela força do seu líder, mas pela força dos valores que escolhe defender.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


quarta-feira, 1 de abril de 2026

LAÇO AZUL

Abril chega sempre com uma luz diferente. É como se o mês inteiro respirasse esperança, mesmo quando nos lembra das sombras que nunca deveriam ter tocado os olhos de uma criança. O Movimento Laço Azul ergue-se então como um gesto simples, mas profundamente humano: um símbolo que fala por aqueles que ainda não têm voz suficiente para se protegerem sozinhos.

Há histórias que nunca deviam ter sido escritas. Abril convida-nos a encarar de frente essa realidade, para não nos esquecermos de que nenhuma criança devia crescer a aprender o mundo através da dor.

O laço azul é um abraço que se estende a todas as crianças que precisam de ser vistas, protegidas, amadas. É a lembrança de que cada gesto de cuidado pode ser a diferença entre um futuro ferido e um futuro inteiro.

Proteger as crianças é garantir que o riso delas continue radiante, que os passos delas continuem livres, que os sonhos delas não sejam interrompidos.

Deixemos que o azul nos lembre que a infância é sagrada, que a dignidade é um direito desde o primeiro instante de vida, e que a responsabilidade de cuidar não é de alguns — é de todos. Porque, quando uma criança é feliz, o futuro da humanidade torna-se mais belo.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


É VERDADE

É verdade que, ao longo da democracia, nenhum governo de Portugal contribuiu para a degradação da escola pública;

É verdade que nenhum governo concorreu para a escassez de professores;

É verdade que nenhum governo teve mão na erosão do Serviço Nacional de Saúde;

É verdade que nenhum governo facilitou a fuga de médicos do sector público;

É verdade que nenhum governo alimentou a lentidão crónica da justiça;

É verdade que nenhum governo permitiu a deterioração salarial das forças policiais;

É verdade que nenhum governo deixou a habitação mergulhar no caos;

É verdade que nenhum governo pôde minorar o impacto destrutivo das crises na vida dos portugueses;

É verdade que nenhum governo permitiu o enriquecimento sem causa da banca;

É verdade que nenhum governo salvou bancos enquanto deixava o resto do país à deriva;

É verdade que nenhum governo deixou de combater a corrupção com empenho exemplar.

É verdade que hoje é 1 de Abril, e se comemora o “Dia das Mentiras”!

É verdade.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

sábado, 21 de março de 2026

DIA MUNDIAL da ÁRVORE e DIA INTERNACIONAL das FLORESTAS

As árvores são mais do que paisagem — são presença.

Erguem-se com a serenidade de quem conhece o pulsar da Terra e guardam, nos seus corpos, capítulos inteiros da nossa história. Cada raiz que se estende é um gesto de amabilidade, cada folha que nasce um acto poético, cada fruto uma celebração discreta da vida.

No silêncio das florestas, as árvores ensinam-nos a crescer, a resistir às tempestades e a procurar o caminho da luz. São abrigo, alimento e sombra. São casa comum.

Neste Dia Mundial da Árvore, que possamos honrar aquilo que elas nos oferecem todos os dias — plantando, protegendo e cuidando, porque cada árvore é um sinal de futuro.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


DIA INTERNACIONAL PARA A ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL

Num mundo ideal, seríamos todos como livros numa estante iluminada: diferentes por fora, surpreendentes por dentro e igualmente dignos de ser lidos. Ainda assim, há quem prefira julgar um livro apenas pela capa. Comentam a cor da lombada como se isso dissesse algo sobre as histórias que ela guarda, como se a superfície fosse mais importante do que o enredo.

É curioso, quase trágico, porque qualquer leitor sabe que a magia vive nas páginas: nos capítulos que se entrelaçam, nas ideias que se cruzam, nos mundos que se abrem quando se tem a coragem de folhear. E, no entanto, alguns continuam a agir como se a grande biblioteca da humanidade tivesse prateleiras proibidas, zonas onde certos livros “não deveriam estar”.

O mais irónico é que os próprios livros, esses mestres silenciosos, convivem lado a lado sem reclamar da cor do vizinho, sem exigir que todos pertençam ao mesmo género literário. Não se incomodam com diferenças; pelo contrário, enriquecem-se mutuamente. Talvez seja pedir muito que nós, humanos, alcancemos a maturidade… dos livros.

Hoje, no Dia Internacional contra a Discriminação Racial, vale a pena lembrar o óbvio que tantos insistem em esquecer: a diversidade não é um problema — é a biblioteca inteira.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


LIVROS, POESIA, ÁRVORES E DIVERSIDADE

Hoje é um daqueles dias ricos em comemorações, em que o calendário parece querer lembrar-nos de tudo aquilo que insistimos em esquecer. É Dia Internacional contra a Discriminação Racial, Dia Mundial da Poesia, Dia Internacional da Árvore e Dia Internacional das Florestas — celebrações que, curiosamente, combinam melhor do que se poderia pensar.

Num mundo ideal, seríamos como livros numa estante iluminada: diferentes por fora, surpreendentes por dentro e igualmente dignos de ser lidos. Ainda assim, há quem prefira julgar pela capa, como se a cor da lombada pudesse resumir a profundidade das páginas. Ironias da vida: até os livros, que não têm voz, sabem conviver melhor do que nós.

E já que hoje também se celebra a poesia, importa lembrar que nenhum poema se repete só porque rima, e nenhuma metáfora perde valor por ser diferente. A poesia habita a diversidade — de ritmos que se cruzam, de imagens que se misturam, de sentidos que se revelam quando se ousa ler além da superfície. Talvez fosse útil aplicarmos essa mesma sensibilidade ao mundo real.

E porque é também Dia da Árvore e das Florestas, não custa recordar que nenhuma floresta existe com um só tipo de ser. As árvores crescem lado a lado, sem discutir tonalidades de casca, sem exigir que todas deem o mesmo fruto. Raízes diferentes podem entrelaçar-se no mesmo solo; copas distintas podem partilhar a mesma luz. A natureza não discrimina — floresce.

Hoje, entre livros, poemas e árvores, a mensagem é simples e antiga: a diversidade não é um problema a resolver, mas uma riqueza a preservar. Hoje é o dia para abrir a porta — e deixá-la aberta para sempre.

© Fernando Alagoa


segunda-feira, 16 de março de 2026

SE O MUNDO OUSASSE

E se, em vez de guerras, construíssemos navios que fossem jardins sobre o mar?

Porta‑aviões que não transportam medo, mas sementes por germinar.

Que atravessam o oceano como quem leva um abraço a quem tem frio.

Navios onde o ar cheira a pão acabado de cozer,

onde as paredes guardam risos,

onde cada corredor é um caminho de regresso à dignidade.


E se os drones que cruzam o céu fossem apenas pequenos guardiões,

a deslizar sobre campos de flores,

a seguir o brilho dos rios,

a ouvir o coração profundo dos mares?

Máquinas que não procuram alvos — procuram vida.

Que não vigiam fronteiras — vigiam fragilidades.

Talvez seja isto que nos falta:

virar o mundo com a delicadeza de quem vira uma pétala caída,

e descobrir que, do outro lado, ainda há luz.

Usar a mesma inteligência que hoje ergue muros

para construir abrigos.

A mesma tecnologia que hoje vigia destruição

para vigiar renascimentos.


Imagina um “porta‑esperança”:

um navio onde a noite brilha com estufas suspensas,

onde as vozes ensinam alfabetos e canções,

onde os passos não treinam guerras,

mas gestos de cuidado.


Não é fantasia.

É só uma escolha que ainda não fizemos.

E todas as escolhas começam assim: num sussurro,

num pensamento pequeno, quase tímido,

o de acreditar que o impossível é apenas o que ainda não tentámos.


Porque a verdadeira força nunca esteve no cano de uma arma,

mas na ternura que resiste.

E a vitória verdadeira nunca foi conquistar território,

mas garantir que ninguém fica esquecido.


A humanidade sabe ser grande.

Só precisa de recordar o caminho de volta ao seu próprio coração.


© Fernando Alagoa

quinta-feira, 12 de março de 2026

AGITAR O MUNDO AO SABOR DE CAPRICHOS

Há males que vêm por bem — uso o ditado com reservas, mas a ideia merece destaque. Se há algo que esta guerra nos pode ensinar, é que negociar com ditadores quando convém e descartá‑los quando interessa não é apenas uma postura ingénua: é perigosa. Mais importante ainda, creio que está na hora de o mundo investir seriamente em investigação que permita encontrar alternativas viáveis aos combustíveis fósseis. O planeta agradece, e limita‑se o poder de líderes que não hesitam em pôr o mundo de rastos para servir os seus próprios interesses.

A verdade é que, nestes tempos estranhos, percebemos que tanto os ditadores como certos líderes das democracias, quando desprovidos de bom senso, agitam o mundo ao sabor dos seus caprichos, ignorando o bem da casa comum. As novas evidências — no caso europeu, uma dependência energética que há muito se tornara insustentável — apenas confirmam o óbvio: existiam alternativas que se impunham há décadas. Teria sido ajuizado procurar outras, cuja investigação já demonstrava serem possíveis. Porém, os interesses ligados ao petróleo preferiram perpetuar a dependência, alimentando um sistema que nos mantém vulneráveis e politicamente reféns. Ignorá‑las foi um erro estratégico; persistir nesse erro seria uma irresponsabilidade histórica.

© Fernando Alagoa

quarta-feira, 11 de março de 2026

A MESMA REGRA, A MESMA DOR, A MESMA INJUSTIÇA

MESI - Modelo de Estabilização Social da Inflação

O modelo clássico de combate à inflação precisa urgentemente de ser repensado, com ousadia e criatividade. Manter a mesma receita de sempre — que combate a inflação transferindo o dinheiro das mãos de quem luta para pôr alimentos na mesa para o entregar a jactos e iates particulares — é desajustado, injusto e socialmente insustentável. A política monetária não pode continuar a operar com uma visão cega, indiferente às desigualdades estruturais e às fragilidades específicas de países como Portugal. A estabilidade financeira não pode ser construída à custa da instabilidade, leia-se, da miséria social.

A inflação é um fenómeno económico, mas as suas consequências são profundamente humanas. Quando os preços sobem devido a choques externos — como o aumento dos combustíveis, da energia e das matérias‑primas — não são os mercados que sofrem, são as famílias. Num país como Portugal, onde os salários são baixos, a poupança é reduzida e a dependência do crédito à habitação é elevada, basta a subida dos bens essenciais para empurrar milhares de pessoas para a vulnerabilidade económica. Perante esta realidade, insistir numa política de combate à inflação baseada exclusivamente na subida das taxas de juro, sem olhar às realidades de cada país, é aplicar um castigo duplo a quem bastava um só para viver em aflição.

A subida das taxas de juro, quando aplicada mecanicamente, agrava o sofrimento das famílias e das empresas. Primeiro, a inflação corrói o poder de compra. Depois, o aumento das prestações da habitação e dos créditos empresariais retira o pouco que resta. Este mecanismo transfere rendimento dos devedores para os credores, dos trabalhadores para os detentores de capital, das famílias para o sector financeiro. Não é apenas uma questão económica — é uma questão de justiça social.

Urge a criação de um Modelo de Estabilização Social da Inflação, que eu designaria por MESI, que visaria introduzir um novo paradigma: combater a inflação sem destruir vidas. Este modelo teria como ponto principal o congelamento temporário das taxas de juro dos créditos à habitação e dos créditos empresariais essenciais sempre que a inflação seja causada maioritariamente por factores externos e sempre que a subida das taxas de juro não contribua para resolver a origem do problema. O objectivo é impedir que a política monetária se transforme numa máquina de empobrecimento.

Este congelamento não impede o Banco Central de ajustar as taxas de juro, nem compromete a estabilidade financeira. Pelo contrário: cria um amortecedor social que protegeria famílias e empresas, reduziria incumprimentos, evitaria falências desnecessárias e manteria a economia interna funcional durante períodos de choque externo. Os bancos continuariam a receber, o sistema financeiro manter-se-ia estável, mas o impacto deixaria de recair exclusivamente sobre os mais vulneráveis.

Além disso, é incompreensível que, em períodos de inflação elevada, o Estado arrecade milhões adicionais em impostos — nomeadamente através do IVA e dos combustíveis — sem que exista um mecanismo automático de devolução parcial desse excedente às famílias e empresas mais afectadas. Impõe-se, por isso, que parte das receitas fiscais extraordinárias seja devolvida através de reduções temporárias de IVA nos bens essenciais.

Esta ideia avançada assenta num princípio simples: a economia deve servir a sociedade, não o contrário. Combater a inflação é necessário, mas combatê‑la à custa das pessoas é inaceitável. Portugal precisa de um modelo de política económica que reconheça a sua realidade específica e que proteja o seu tecido social. O MESI oferece uma alternativa equilibrada, humana e eficaz: combater a inflação sem agravar a pobreza, proteger a economia sem sacrificar famílias e garantir que o Estado cumpre o seu papel de estabilizador social.

© Fernando Alagoa

terça-feira, 10 de março de 2026

VIVER É SÓ ISTO?

Questiono-me muitas vezes se viver é só isto.

Não esqueço, nem enjeito, que a vida é feita de momentos: momentos de tristeza, pequenos instantes de felicidade, a importância da família e dos amigos, o tal “sucesso” pessoal e profissional e, entre tudo isso, a relevância absoluta da saúde.

Mas não é disso que falo. Refiro-me ao mundo: ao ódio, à inveja, à exploração do ser humano, às guerras que se repetem como vícios antigos que ninguém que
stiona.

Imaginava que, chegados ao primeiro quartel do século XXI, se não habitássemos já na Lua ou em Marte, tivéssemos pelo menos conseguido aproximar-nos de um paraíso possível aqui na Terra. Não falo de felicidade eterna nem de miragens de pessoas boazinhas ao estilo dos filmes do urso Paddington, onde se celebra a bondade, a educação e o altruísmo genuíno — embora, se assim fosse, ninguém perderia nada.

Falo de um mundo onde, pelo menos, imperassem alguns valores básicos: respeito, honestidade, empatia, responsabilidade, solidariedade. Coisas simples, quase banais, que no entanto,
hoje, parecem luxos de museu milenar.

Infelizmente, tudo isso se tem vindo a perder. Pior ainda: a facilidade com que se invoca o direito à violência para justificar o injustificável. Seja a violência direta entre pessoas
(violência doméstica, violência no namoro, bullying, desacatos, terrorismo), seja a violência entre países, sempre embrulhada em discursos solenes que procuram dar dignidade ao absurdo.

Invoca-se a necessidade de uma guerra e bombardeiam-se países com a mesma leveza com que se vai ao cinema, como se a destruição fosse apenas mais um espetáculo de fim de tarde.

E nós, espectadores obedientes, habituámo-nos.

É talvez isso que mais assusta: a normalidade do horror, a rotina da indiferença, esta capacidade de engolir tragédias como quem toma comprimidos para dormir. A humanidade tornou-se especialista em arrumar cadáveres na gaveta da memória e seguir em frente, desde que o sangue não salpique o sofá e se mantenha do lado de dentro do ecrã do telemóvel.

Vivemos rodeados de discursos sobre progresso, inovação, futuro: palavras bonitas que servem para disfarçar a velha miséria moral que nunca chegámos a resolver. Continuamos a confundir tecnologia com evolução, riqueza com dignidade, ruído com pensamento. E no meio disto tudo, fingimos que sabemos viver, quando na verdade apenas sobrevivemos ao dia seguinte.

Talvez seja esta a nossa maior tragédia: a facilidade com que desistimos de ser melhores e a rapidez com que nos acomodamos ao pior.

No fim, viver não é só isto — mas é isto que fazemos
da vida, e esse é o verdadeiro escândalo.

© Fernando Alagoa

segunda-feira, 9 de março de 2026

USURA PARADISÍACA

Abençoada guerra!

Não há como uma crise internacional e um governo em estado apático permanente para transformar oportunistas em visionários. O meu armazém continua a transbordar de produtos suficientes para abastecer o mercado nacional durante um ano inteiro, mas se o mercado internacional tropeça, por que não aproveitar o tropeção? Subo os preços com a serenidade de quem se limita a seguir “as regras do jogo”. A propaganda encarrega‑se do resto — repete, repete, repete — e eu limito‑me a acenar com ar inocente.

É o mercado a funcionar, murmuram, como quem recita uma lei da natureza. Entretanto, aqueles que viram as casas arrastadas pelas águas e as colheitas devastadas pelas tempestades, tal como o resto da população, serão chamados a pagar o preço destes aumentos escabrosos. Hão de tentar sobreviver com salários que mal chegam para sustentar o corpo, quanto mais o futuro.

Resta‑lhes a magra consolação filosófica de saber que habitam um sistema impecavelmente eficiente, desde que se pertença ao lado certo da eficiência.

Consciência social? Só para quem ainda acredita que o capitalismo tem coração, ou que os colecionadores de marfim choram pelos elefantes.

A insensibilidade tecnocrática, a acumulação de impostos, a falha em garantir direitos económicos e sociais e a permissão de uma escalada imediata de preços — que se traduzem num desequilíbrio entre lucros corporativos e rendimentos das famílias — configuram uma forma de violência estrutural e um abuso por omissão.

© Fernando Alagoa