Há declarações políticas que, envoltas em moralidade de catálogo,
me fazem recordar A Corja de Camilo ou Os Maias de Eça. Não por
capricho literário, mas porque a actualidade portuguesa parece
empenhada em ressuscitar, com zelo quase académico, os vícios que
esses autores tão bem dissecaram.
É curioso observar
como certos protagonistas do nosso panorama político, sempre tão
alarmados com o “perigo do populismo”, acabam por ser os seus
mais dedicados fornecedores. Alimentam-no com indignações
instantâneas, promessas que evaporam ao sol e discursos que oscilam
entre o sermão e a pantomima.
É provável que, por
conveniência ou mero cálculo, se finja desconhecer o que acontece
em países como a Suécia — referência de sobriedade institucional
e ética pública. Talvez por isso valha a pena insistir: vejam o
vídeo que vos deixo. Informem‑se, comparem. A indignação
fingida oferece sempre mais conforto do que a verdade.
O
contraste é tão evidente que quase se torna cómico: enquanto por
cá se ensaia a mesma peça de sempre — promessas, recuos,
indignações coreografadas — há países que seguem em frente com
uma sobriedade que nos deveria envergonhar, ou pelo menos inspirar.
© Fernando Alagoa

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