Há gestos políticos que ultrapassam o erro, a imprudência ou a vaidade. Há comportamentos que, pela sua natureza, se tornam uma negação frontal dos valores que afirmam defender. Quando um presidente decide comparar-se a Cristo — e, por consequência, a Deus — não está apenas a cometer um excesso retórico. Está a inverter a lógica moral que deveria orientar qualquer líder democrático. É, simbolicamente, um acto anticristão.
Cristo não procurou poder, não exigiu adoração, não reivindicou privilégios. A sua figura é sinónimo de humildade, serviço e sacrifício. Um governante que se coloca no lugar do sagrado, que se apresenta como salvador, que exige veneração, faz precisamente o contrário. Apropria-se da fé para alimentar o próprio ego. Usa o divino como espelho para engrandecer a própria imagem. E isso, por si só, é uma forma de profanação.
Um governante que se eleva ao estatuto de figura messiânica rompe o contrato democrático e transforma o espaço público num palco de culto. A sua postura deixa de ser vista como participação cívica e passa a ser tratada como blasfémia. A divergência torna-se heresia. E a política, que deveria ser diálogo, degrada-se em liturgia de adoração.
A democracia não tolera deuses. Constrói cidadãos. Enaltece líderes que compreendem que o poder é serviço, não coroação. Que a autoridade é responsabilidade, não glória. Que o cargo é transitório, não eterno. Quando alguém se coloca acima desses princípios, não está a imitar Cristo — está a negar tudo aquilo que Cristo representa.
Nada se opõe mais ao espírito do Evangelho do que a arrogância de quem se proclama salvador. Nada contradiz mais a ética pública do que a fusão entre vaidade pessoal e símbolos sagrados. Nada ameaça mais a liberdade do que um líder que se imagina enviado divino.
É importante lembrar que nenhum governante, por mais poderoso que seja, tem o direito de se colocar no lugar do sagrado, e muito menos de usar o sagrado para justificar a própria sede de poder.
© Fernando Alagoa

Nenhum comentário:
Postar um comentário