domingo, 31 de maio de 2026

BANCOS DE ALIMENTOS e DIGNIDADE HUMANA

O Banco de Alimentos voltou a espalhar-se pelos supermercados, como uma constelação de esperança improvisada, pedindo alimentos para quem vive com a dispensa vazia e o coração cansado. E, como sempre, os portugueses respondem — porque a generosidade, essa, nunca entrou em crise. Mas há uma pergunta que ecoa baixinho, quase envergonhada:

até quando?

Que país seríamos se um dia pudéssemos celebrar o encerramento dos Bancos Alimentares, não por falta de vontade de ajudar, mas porque já ninguém precisasse de ajuda para comer. Que país seríamos se os nossos governantes encontrassem o mesmo entusiasmo, a mesma energia, a mesma capacidade de mobilização que já demonstraram noutros grandes momentos, e a colocassem ao serviço de uma causa simples e gigantesca:

acabar com a fome e com a miséria.

Imaginemos um país que decide, com coragem, resolver um problema de cada vez. Primeiro, garantir que ninguém adormece com o estômago vazio. Depois, com igual dedicação, curar a saúde que falta, reconstruir o ensino que falha, devolver segurança às ruas, justiça aos tribunais. Passo a passo, como quem dá um primeiro passo lunar — firme, histórico, capaz de mudar o rumo de uma geração.

Há lugares no mundo onde este caminho já começou. Não são perfeitos, mas provam que é possível. É para esses horizontes que devíamos olhar, não para copiar, mas para aprender a sonhar mais alto.

Enquanto isso não acontece, continuamos a depender da solidariedade dos mesmos de sempre: pessoas comuns, que dão do pouco que têm para que outros tenham um pouco mais. Mas a solidariedade, por mais bela que seja, não pode ser a tábua de salvação permanente de um Estado que falha no essencial.

Este texto é um murmúrio que quer tornar-se voz.

Um pedido simples e urgente:

que a dignidade humana seja finalmente tratada como prioridade nacional.

© Fernando Alagoa

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