Há três frases que me acompanham com frequência. Uma é minha: “gerir é antecipar”. As outras pertencem a dois mestres. Júlio César observava que «Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar». António Manuel Hespanha lembrava-nos que «O que se procura é olhar o direito de mais sítios e de sítios mais improváveis do que se tornou habitual».
Custa, por isso, compreender que quem nos governa — ou desgoverna — persista em contrariar os princípios que estas frases convocam: falha em antecipar, ignora as lições do passado e aborda os problemas sempre pela mesma e estreita perspectiva.
O SEF prevaricou, não se corrigiu e acabou extinto sem que se prevenissem as consequências dessa extinção. Agora, afirma-se que o Tribunal de Contas “atrapalha”, que decide devagar. Em vez de reforçar meios, modernizar processos e permitir que a instituição cumpra melhor a sua missão, opta-se por uma solução enviesada: retirar-lhe funções, como se o problema estivesse no escrutínio e não na incapacidade de o acompanhar.
Nestes casos — tal como nas TAP, nos bancos ou nos SIRESP — nunca há milhões para investir, melhorar ou modernizar. Há, isso sim, uma pressa em reduzir competências ou extinguir estruturas. Multiplicam-se argumentos, quase sempre comparando o nosso penoso retângulo com países mais desenvolvidos, referências que raramente surgem quando falamos de salários, qualidade de vida ou condições laborais, mas que aparecem prontas quando se pretende justificar o injustificável. Países onde quem perde uma carteira regressa dias depois ao mesmo local e a encontra intacta. Entre nós, desaparece a carteira, a mesa e, se possível, as cadeiras.
Lamento que, tal como referi aquando da Jornada Mundial da Juventude, os nossos responsáveis políticos não se unam com o mesmo empenho para fortalecer os serviços que ainda nos protegem. Seria esse o verdadeiro sinal de governação responsável.
Teima-se em importar realidades alheias, muitas vezes incompatíveis com os conflitos que nos são próprios, em vez de analisar e melhorar o que realmente se impõe.
© Fernando Alagoa

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