quarta-feira, 29 de julho de 2026

DEVASSAS GABINETISTAS

Pouco importa o alvo da devassa. A notícia existe, é factual, mas o que realmente sucedeu, como tantas coisas que acontecem entre paredes grossas e corredores silenciosos, ainda terá de ser apurado. O que salta à vista, porém, é a celeridade quase coreografada com que alguns se apressam a inverter a análise: não se questiona a segurança da Assembleia da República, nem se pondera a autoria do acto; discute‑se, isso sim, se o ocupante do gabinete devia ter trancado a porta, como qualquer mortal que teme o furto da bicicleta na arrecadação.

São deliciosos, no seu absurdo, os comentários sobre o fecho da porta à chave e as lições improvisadas sobre a “segurança mínima” que qualquer alma prudente deveria garantir. Como se a casa da democracia fosse um prédio de rendimento, onde cada um deve cuidar do trinco porque o senhorio não aparece há meses. O argumento, além de falacioso, tem um encanto perverso: transforma um problema institucional num alegado descuido doméstico.

Na casa do povo devia imperar uma segurança inabalável — não apenas por decoro, mas por respeito ao próprio símbolo que ali se ergue; podia chover diamantes no corredor, porque a rectidão de carácter deve imperar no inquilinato parlamentar, nem um se perderia. E se, segundo alguns, o cuidado exigido a quem trabalha no Parlamento deve ser o mesmo que qualquer cidadão precisa de ter na via pública, o que pensar? Talvez estejamos a assistir ao nascimento de uma nova doutrina: a democracia como habitação colectiva, onde cada um é responsável pelo seu cadeado.  

© Fernando Alagoa

domingo, 19 de julho de 2026

O PAPEL INSUBSTITUÍVEL DOS PROFESSORES

Num tempo em que tudo parece acelerado, imediato e descartável, há uma força silenciosa que continua a sustentar o futuro: os professores. São eles que, dia após dia, despertam nas salas de aula aquilo que nenhuma tecnologia consegue fabricar, o espírito crítico, a curiosidade, a capacidade de questionar e de imaginar novos mundos.

A missão de ensinar nunca se limita à transmissão de conteúdos. Os professores são, tantas vezes, o primeiro farol que ilumina talentos escondidos, que incentiva vocações, que inspira futuros profissionais de excelência. Quantos engenheiros, artistas, médicos, investigadores, escritores e cidadãos atentos ao mundo começaram o seu caminho porque um professor acreditou neles antes de eles próprios acreditarem.

Em Portugal, este papel ganha ainda maior relevo quando olhamos para a forma como a classe docente tem enfrentado desafios recentes — como a crise na correcção dos testes — com uma dignidade que não se proclama, mas se pratica. Mesmo quando o seu esforço é desvalorizado ou dissimulado, os professores mantêm o compromisso com a verdade, com o rigor e com a justiça educativa. Continuam a trabalhar, a corrigir, a orientar, a garantir que cada aluno recebe aquilo que merece: uma avaliação honesta e um ensino de qualidade.

É um gesto de resistência silenciosa, mas profundamente transformadora. Porque educar é, no fundo, um acto de esperança: acreditar que cada aluno carrega dentro de si um futuro que vale a pena construir.

Por isso, enaltecer os professores não é apenas reconhecer o seu trabalho, é reconhecer que sem eles não há progresso, não há cidadania plena, não há país que se levante. A sua ação é discreta, mas o seu impacto é imenso.

E é tempo de o dizer com clareza: os professores são uma das maiores forças de bem que Portugal tem.

© Fernando Alagoa

Imagem: Jean Geoffroy (1853-1924), L'École maternelle (c 1900), obra do domínio público.