domingo, 21 de junho de 2026

SNS, UMA AVENTURA HOSPITALAR

O homem propõe e Deus dispõe.

Por mais elaborados que sejam os nossos planos, há dias em que a providência decide trocar-nos as voltas. Pouco importa o tempo investido num objectivo quando, nesse instante preciso, o destino insiste em conduzir-nos por outro caminho. E mesmo que o homem do leme fosse mais do que ele próprio — a força de um povo inteiro — há Adamastores que não se deixam vencer.

A odisseia hospitalar que tantos juram começar no SNS talvez funcionasse se, por detrás de cada linha telefónica, houvesse alguém dependurado. O Minotauro chama-nos ao labirinto, Kafka enreda-nos num processo tortuoso. Duas horas ao telefone, três numa sala de espera esperançosa, cinco para recompor um organismo desregulado, um suplício que nem Kempis anteciparia. O homem pode não rivalizar com Deus em sabedoria, mas domina a arte de esvaziar a dignidade alheia. Uma dor de cabeça monumental ou uma dor num dedo recebem a mesma indiferença, só igualada pelas horas de espera.

A história seria apenas uma aventura sobre a perda de tempo, não fosse transformar-se numa autêntica casa de horrores. As casas de banho da urgência — por onde passam pessoas com todo o tipo de doenças — deveriam ser um espelho de virtudes. Não são. A falta de condições revela não só o desprezo pela higiene como o desrespeito pelos utentes. Frequentemente, as senhoras pedem à recepção uma folha de papel. Aqueles que se encontram debilitados por uma intoxicação alimentar imploram por um pedaço que tarda em chegar. O sabão falta, e não são precisas palavras para ilustrar o resto. As macas desfilam imperiosas pela sala de espera e, apesar das alegorias, o rei continua nu. Bosch parece ter pairado por ali, mas deixou-nos apenas a ala direita do tríptico: o inferno.

Lá dentro, as catacumbas não são melhores. Os corredores acumulam doentes em andaimes encostados às paredes numa espera interminável. Os que ainda se mantêm de pé recebem soros e tratamentos apoiados em cadeiras que vagueiam de canto em canto. A ventilação parece inexistir e a esperança na cura esbate-se no negrume de uma massa humana que se atropela.

Bosch dá lugar a Dante.

Por vezes, a esperança surge sob a forma de um anjo de asas brancas, verdes ou azuis — mas até os anjos migram.

Não sei se mataram a cotovia, mas suspeito que a mantêm debilitada de propósito.

© Fernando Alagoa

domingo, 14 de junho de 2026

BANDEIRAS

A recente polémica em torno da proposta que pretende proibir o içar de determinadas bandeiras em edifícios públicos tornou‑se um daqueles debates em que o símbolo engole o essencial. Discutem‑se bandeiras e cores quando talvez devêssemos discutir outra coisa: que tipo de sociedade queremos ser.

Uma sociedade madura não se constrói à força de símbolos impostos, nem de proibições precipitadas. Constrói‑se com educação, mas educação no sentido mais profundo do termo. Educar para respeitar todos, sem excepção, é muito diferente de educar para aceitar todas as ideias, mesmo as mais excêntricas (quando o são), sem espaço para debate ou crítica. Uma democracia saudável não exige unanimidade; exige convivência.

O problema surge quando a defesa das minorias se transforma (quando transforma), inadvertidamente, numa espécie de blindagem contra qualquer contestação. Respeitar pessoas é obrigatório; aceitar todas as ideias como equivalentes não é. Uma sociedade que teme discordar, com receio de ser “cancelada”, deixa de pensar livremente. E quando deixamos de pensar, deixamos de educar.

É aqui que a discussão sobre bandeiras se torna quase irrelevante. Uma bandeira pode representar orgulho, luta, memória, mas não substitui políticas públicas, nem resolve dilemas sociais complexos. Não educa, não cuida, não integra. Apenas sinaliza.

E há ainda um ponto que raramente se discute: como lidar com identidades individuais que se afastam radicalmente das categorias tradicionais. Se alguém diz sentir‑se um animal, uma entidade abstracta ou uma personagem de banda desenhada, não é içando uma bandeira que se responde a essa realidade. A questão não é simbólica; é social, legal, psicológica, económica... Quem cuida? Quem apoia? Como se integra? Como se garante que a liberdade individual não se transforma em desresponsabilização colectiva?

Se amanhã fossem cinco milhões a reivindicar identidades que os afastam da participação social, não seria uma bandeira no topo de um mastro que resolveria o problema. Seria a capacidade — ou incapacidade — de a sociedade cuidar, incluir e responsabilizar.

Talvez devêssemos, então, recentrar o debate: menos bandeiras, mais educação; menos ruído simbólico, mais clareza ética; menos medo de discordar, mais coragem de pensar. Uma sociedade verdadeiramente humanista não se mede pelo número de bandeiras que içamos, mas pela qualidade das pontes que construímos entre pessoas diferentes.

© Fernando Alagoa

quarta-feira, 10 de junho de 2026

PORTUGAL | 10-06-2026

Hoje celebramos Portugal, uma nação antiga que nunca deixou de ser jovem.

Comemoramos a língua que nos embala e nos ergue, o povo que nos leva mais longe e o poeta que nos ensinou a sonhar para além do horizonte. Somos herdeiros de um país uno e pacífico, que fez do mar caminho, da distância força e da palavra saudade, lugar onde a nossa identidade repousa.

De um território pequeno nasceu um mundo maior: abrimos rotas onde só havia silêncio, cruzámos culturas como quem acende luzes no mapa, levámos connosco a curiosidade inquieta, a coragem serena e a rara capacidade de criar pontes onde outros ergueriam muros. Demos mundos ao mundo, e continuamos a dá-los, agora com ciência, arte, inovação e humanidade, como quem semeia futuro com mãos antigas.

No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebramos também a democracia que construímos, firme na defesa dos direitos humanos e voltada para o amanhã. Comemoramos os que ficaram e os que partiram, porque Portugal é maior do que a sua extensão de terra: vive no sotaque de quem regressa, no coração de quem partiu, na memória de quem nunca esqueceu.

Que este dia nos lembre que somos feitos de resistência tranquila, de esperança teimosa e de uma beleza discreta que não precisa de alarde. Somos um país que invoca um poeta para se celebrar, e isso diz tudo sobre a alma que nos habita.

E celebramos, por fim, aqueles que ainda não sabem que celebramos por eles: as crianças, futuro vivo de uma nação que se renova em cada olhar curioso. São elas que nos lembram, como escreveu Rómulo de Carvalho, que «o sonho comanda a vida», e é por isso que lhes devemos um país onde possam sonhar mais alto do que nós alguma vez ousámos. Nelas repousa a promessa de um Portugal que continua — mais justo, mais sábio, mais luminoso.

© Fernando Alagoa

Imagem: retrato de Luiz Vaz de Camões

P. S. - Hoje decidi que, sempre que fizer referência a Camões e ilustrar o texto com a sua imagem, deixarei de o retratar como cego de um olho. Camões não nasceu cego, nem viveu sempre sob essa marca; só mais tarde a vida lha impôs. Talvez seja tempo de deixarmos de olhar o outro pelo que lhe falta e começarmos a vê‑lo pelo brilho que carrega.