O homem propõe e Deus dispõe.
Por mais elaborados que sejam os nossos planos, há dias em que a providência decide trocar-nos as voltas. Pouco importa o tempo investido num objectivo quando, nesse instante preciso, o destino insiste em conduzir-nos por outro caminho. E mesmo que o homem do leme fosse mais do que ele próprio — a força de um povo inteiro — há Adamastores que não se deixam vencer.
A odisseia hospitalar que tantos juram começar no SNS talvez funcionasse se, por detrás de cada linha telefónica, houvesse alguém dependurado. O Minotauro chama-nos ao labirinto, Kafka enreda-nos num processo tortuoso. Duas horas ao telefone, três numa sala de espera esperançosa, cinco para recompor um organismo desregulado, um suplício que nem Kempis anteciparia. O homem pode não rivalizar com Deus em sabedoria, mas domina a arte de esvaziar a dignidade alheia. Uma dor de cabeça monumental ou uma dor num dedo recebem a mesma indiferença, só igualada pelas horas de espera.
A história seria apenas uma aventura sobre a perda de tempo, não fosse transformar-se numa autêntica casa de horrores. As casas de banho da urgência — por onde passam pessoas com todo o tipo de doenças — deveriam ser um espelho de virtudes. Não são. A falta de condições revela não só o desprezo pela higiene como o desrespeito pelos utentes. Frequentemente, as senhoras pedem à recepção uma folha de papel. Aqueles que se encontram debilitados por uma intoxicação alimentar imploram por um pedaço que tarda em chegar. O sabão falta, e não são precisas palavras para ilustrar o resto. As macas desfilam imperiosas pela sala de espera e, apesar das alegorias, o rei continua nu. Bosch parece ter pairado por ali, mas deixou-nos apenas a ala direita do tríptico: o inferno.
Lá dentro, as catacumbas não são melhores. Os corredores acumulam doentes em andaimes encostados às paredes numa espera interminável. Os que ainda se mantêm de pé recebem soros e tratamentos apoiados em cadeiras que vagueiam de canto em canto. A ventilação parece inexistir e a esperança na cura esbate-se no negrume de uma massa humana que se atropela.
Bosch dá lugar a Dante.
Por vezes, a esperança surge sob a forma de um anjo de asas brancas, verdes ou azuis — mas até os anjos migram.
Não sei se mataram a cotovia, mas suspeito que a mantêm debilitada de propósito.
© Fernando Alagoa


