quarta-feira, 29 de julho de 2026

DEVASSAS GABINETISTAS

Pouco importa o alvo da devassa. A notícia existe, é factual, mas o que realmente sucedeu, como tantas coisas que acontecem entre paredes grossas e corredores silenciosos, ainda terá de ser apurado. O que salta à vista, porém, é a celeridade quase coreografada com que alguns se apressam a inverter a análise: não se questiona a segurança da Assembleia da República, nem se pondera a autoria do acto; discute‑se, isso sim, se o ocupante do gabinete devia ter trancado a porta, como qualquer mortal que teme o furto da bicicleta na arrecadação.

São deliciosos, no seu absurdo, os comentários sobre o fecho da porta à chave e as lições improvisadas sobre a “segurança mínima” que qualquer alma prudente deveria garantir. Como se a casa da democracia fosse um prédio de rendimento, onde cada um deve cuidar do trinco porque o senhorio não aparece há meses. O argumento, além de falacioso, tem um encanto perverso: transforma um problema institucional num alegado descuido doméstico.

Na casa do povo devia imperar uma segurança inabalável — não apenas por decoro, mas por respeito ao próprio símbolo que ali se ergue; podia chover diamantes no corredor, porque a rectidão de carácter deve imperar no inquilinato parlamentar, nem um se perderia. E se, segundo alguns, o cuidado exigido a quem trabalha no Parlamento deve ser o mesmo que qualquer cidadão precisa de ter na via pública, o que pensar? Talvez estejamos a assistir ao nascimento de uma nova doutrina: a democracia como habitação colectiva, onde cada um é responsável pelo seu cadeado.  

© Fernando Alagoa

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