Pouco importa o alvo da devassa. A notícia existe, é factual, mas o que realmente sucedeu, como tantas coisas que acontecem entre paredes grossas e corredores silenciosos, ainda terá de ser apurado. O que salta à vista, porém, é a celeridade quase coreografada com que alguns se apressam a inverter a análise: não se questiona a segurança da Assembleia da República, nem se pondera a autoria do acto; discute‑se, isso sim, se o ocupante do gabinete devia ter trancado a porta, como qualquer mortal que teme o furto da bicicleta na arrecadação.
São deliciosos, no seu absurdo, os
comentários sobre o fecho da porta à chave e as lições
improvisadas sobre a “segurança mínima” que qualquer alma
prudente deveria garantir. Como se a casa da democracia fosse um
prédio de rendimento, onde cada um deve cuidar do trinco porque o
senhorio não aparece há meses. O argumento, além de falacioso, tem
um encanto perverso: transforma um problema institucional num alegado
descuido doméstico.
Na casa do povo devia imperar uma
segurança inabalável — não apenas por decoro, mas por respeito
ao próprio símbolo que ali se ergue; podia chover diamantes no
corredor, porque a rectidão de carácter deve imperar no inquilinato
parlamentar, nem um se perderia. E se, segundo alguns, o cuidado
exigido a quem trabalha no Parlamento deve ser o mesmo que qualquer
cidadão precisa de ter na via pública, o que pensar? Talvez
estejamos a assistir ao nascimento de uma nova doutrina: a democracia como habitação colectiva, onde cada um é responsável pelo seu cadeado.
© Fernando Alagoa

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