terça-feira, 25 de agosto de 2026

África

Há dias, revi “África Minha” do princípio ao fim. Provavelmente, como muitos de vós, marquei presença na estreia, em 1986. As narrativas de Karen fizeram-me recordar uma tia-avó que nos deliciava com as suas histórias.

A minha tia-avó dizia que África não se visita, habita-se. Que não se esquece, mesmo quando a partida se impõe. Visitei África uma única vez, mas tenho família que emigrou, nasceu e cresceu em África até que a vida o permitiu. As imagens do filme, sublimes, acompanhadas pela delicadeza da música transportaram-me para as histórias da minha tia. Não eram histórias de colonos. Eram histórias de vida, de quem aprendeu a amar África, das pessoas, das cores, do cheiro inconfundível da terra: a terra molhada após a primeira chuva, o dourado da savana ao entardecer, o murmúrio das acácias ao vento.

Havia algo na maneira como Karen olhava o horizonte, não com saudade, mas com reconhecimento. Como quem vê o próprio rosto num espelho antigo. Talvez África não seja um lugar, mas um modo de ver. Uma forma de habitar o mundo sem o possuir.

Alguns do meus familiares voltaram, outros conheceram Portugal pela primeira vez, mas África permaneceu-lhes na memória. Não sei se foi o cheiro da terra, ou a luz, ou o silêncio que só existe onde ninguém te ouve chorar. Talvez fosse tudo isso, junto com a certeza de que se pode perder uma pátria e ganhá-la noutro lugar.

John Barry toca-nos a alma. A imagem respira. Fica, no peito, aquela sensação estranha e doce de pertença a algo que nunca foi teu — e que, no entanto, te possuiu por completo.

Quarenta anos depois, e ainda assim, parece que foi ontem. O tempo não passa; dobra-se no trilhar do caminho, e nós ficamos no meio dele.

© Fernando Alagoa

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

14 MILHÕES POR DIA. SÃO MIGALHAS, SENHOR.

Portugal tornou‑se um país onde o quotidiano se mede em cêntimos e a esperança em parcelas. Nas filas da saúde pública, nos recibos da renda, nos salários que mal chegam para sustentar uma semana de vida digna, o cidadão aprende a arte antiga da contenção. E, enquanto aperta o cinto, observa a prosperidade exuberante de quem vive do dinheiro dos outros. A desproporção é uma constatação amarga.

A banca, essa entidade abstracta que se apresenta como indispensável, regista lucros diários que ultrapassam os 14 milhões. Não se trata de uma epopeia de inovação, nem de um triunfo da engenhosidade nacional. É, antes, o resultado de uma engenharia mais simples: prestações de crédito que sobem automaticamente, comissões que se multiplicam como cogumelos após a chuva, custos de manutenção de conta que se insinuam nos extractos como pequenas mordidelas, taxas por serviços mínimos que já não têm nada de mínimos. Cada gesto financeiro do cidadão — guardar, transferir, consultar — é convertido em receita. A banca descobriu que pode cobrar por tudo, e fá‑lo com a elegância de quem serve um banquete enquanto recolhe discretamente o ouro dos talheres.

O Estado, que deveria ser árbitro, surge muitas vezes como espectador. Exige com fervor, mas entrega com parcimónia. Cobra impostos como se fosse guardião de um modelo nórdico, mas administra serviços como se estivesse eternamente em remendo. A burocracia, essa velha senhora que nunca se reforma, continua a tratar o cidadão como súbdito, não como contribuinte. E assim, entre exigências e omissões, o país vai aprendendo a sobreviver com o que sobra.

Esta realidade não é fruto do destino, mas de escolhas. Escolhas políticas, escolhas económicas, escolhas de conveniência. A concorrência bancária é limitada, a regulação é tímida, e a economia parece construída para proteger sectores inteiros enquanto expõe a população ao risco e à precariedade. O trabalhador ganha 5 ou 6 euros por hora; a banca lucra milhões no mesmo intervalo. A desigualdade não é acidente: é arquitectura.

Enquanto a banca engorda sem esforço, Portugal emagrece sem alternativa. A classe média encolhe como roupa lavada em água demasiado quente; os jovens partem, não por aventura, mas por necessidade; os idosos sobrevivem com a dignidade possível. E o Estado observa, talvez habituado, talvez resignado, talvez cúmplice.

O contraste é o que fere. Não é o lucro, é a desproporção. Não é a prosperidade, é a assimetria. Não é a economia, é o país que fica de fora dela. Enquanto os bancos celebram resultados históricos, Portugal vive resultados trágicos: salários baixos, habitação inacessível, serviços públicos em colapso. A prosperidade de uns ergue‑se sobre a renúncia de muitos.

E assim, ano após ano, a velha fábula repete‑se: a Grande Porca renasce, os poderosos banqueteiam‑se, e o povo volta a servir‑se do que sobra.

São migalhas, Senhor!

© Fernando Alagoa