Há dias, revi “África Minha” do princípio ao fim. Provavelmente, como muitos de vós, marquei presença na estreia, em 1986. As narrativas de Karen fizeram-me recordar uma tia-avó que nos deliciava com as suas histórias.
A minha tia-avó dizia que África não se visita, habita-se. Que não se esquece, mesmo quando a partida se impõe. Visitei África uma única vez, mas tenho família que emigrou, nasceu e cresceu em África até que a vida o permitiu. As imagens do filme, sublimes, acompanhadas pela delicadeza da música transportaram-me para as histórias da minha tia. Não eram histórias de colonos. Eram histórias de vida, de quem aprendeu a amar África, das pessoas, das cores, do cheiro inconfundível da terra: a terra molhada após a primeira chuva, o dourado da savana ao entardecer, o murmúrio das acácias ao vento.
Havia algo na maneira como Karen olhava o horizonte, não com saudade, mas com reconhecimento. Como quem vê o próprio rosto num espelho antigo. Talvez África não seja um lugar, mas um modo de ver. Uma forma de habitar o mundo sem o possuir.
Alguns do meus familiares voltaram, outros conheceram Portugal pela primeira vez, mas África permaneceu-lhes na memória. Não sei se foi o cheiro da terra, ou a luz, ou o silêncio que só existe onde ninguém te ouve chorar. Talvez fosse tudo isso, junto com a certeza de que se pode perder uma pátria e ganhá-la noutro lugar.
John Barry toca-nos a alma. A imagem respira. Fica, no peito, aquela sensação estranha e doce de pertença a algo que nunca foi teu — e que, no entanto, te possuiu por completo.
Quarenta anos depois, e ainda assim, parece que foi ontem. O tempo não passa; dobra-se no trilhar do caminho, e nós ficamos no meio dele.
© Fernando Alagoa

