quinta-feira, 6 de agosto de 2026

14 MILHÕES POR DIA. SÃO MIGALHAS, SENHOR.

Portugal tornou‑se um país onde o quotidiano se mede em cêntimos e a esperança em parcelas. Nas filas da saúde pública, nos recibos da renda, nos salários que mal chegam para sustentar uma semana de vida digna, o cidadão aprende a arte antiga da contenção. E, enquanto aperta o cinto, observa a prosperidade exuberante de quem vive do dinheiro dos outros. A desproporção é uma constatação amarga.

A banca, essa entidade abstracta que se apresenta como indispensável, regista lucros diários que ultrapassam os 14 milhões. Não se trata de uma epopeia de inovação, nem de um triunfo da engenhosidade nacional. É, antes, o resultado de uma engenharia mais simples: prestações de crédito que sobem automaticamente, comissões que se multiplicam como cogumelos após a chuva, custos de manutenção de conta que se insinuam nos extractos como pequenas mordidelas, taxas por serviços mínimos que já não têm nada de mínimos. Cada gesto financeiro do cidadão — guardar, transferir, consultar — é convertido em receita. A banca descobriu que pode cobrar por tudo, e fá‑lo com a elegância de quem serve um banquete enquanto recolhe discretamente o ouro dos talheres.

O Estado, que deveria ser árbitro, surge muitas vezes como espectador. Exige com fervor, mas entrega com parcimónia. Cobra impostos como se fosse guardião de um modelo nórdico, mas administra serviços como se estivesse eternamente em remendo. A burocracia, essa velha senhora que nunca se reforma, continua a tratar o cidadão como súbdito, não como contribuinte. E assim, entre exigências e omissões, o país vai aprendendo a sobreviver com o que sobra.

Esta realidade não é fruto do destino, mas de escolhas. Escolhas políticas, escolhas económicas, escolhas de conveniência. A concorrência bancária é limitada, a regulação é tímida, e a economia parece construída para proteger sectores inteiros enquanto expõe a população ao risco e à precariedade. O trabalhador ganha 5 ou 6 euros por hora; a banca lucra milhões no mesmo intervalo. A desigualdade não é acidente: é arquitectura.

Enquanto a banca engorda sem esforço, Portugal emagrece sem alternativa. A classe média encolhe como roupa lavada em água demasiado quente; os jovens partem, não por aventura, mas por necessidade; os idosos sobrevivem com a dignidade possível. E o Estado observa, talvez habituado, talvez resignado, talvez cúmplice.

O contraste é o que fere. Não é o lucro, é a desproporção. Não é a prosperidade, é a assimetria. Não é a economia, é o país que fica de fora dela. Enquanto os bancos celebram resultados históricos, Portugal vive resultados trágicos: salários baixos, habitação inacessível, serviços públicos em colapso. A prosperidade de uns ergue‑se sobre a renúncia de muitos.

E assim, ano após ano, a velha fábula repete‑se: a Grande Porca renasce, os poderosos banqueteiam‑se, e o povo volta a servir‑se do que sobra.

São migalhas, Senhor!

© Fernando Alagoa


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