O ser humano perdeu o juízo, mas não se preocupem: foi um processo lento, cuidado e altamente planeado.
É o ciclo virtuoso do planeamento moderno: erradica-se o útil, inventa-se o inútil, cria-se o problema e factura-se a solução com o dinheiro do contribuinte. Afinal, mudar de ideias e de infraestruturas ao sabor do vento é sinal de progresso.
Hoje em dia, graças a este design urbano avançado, ninguém ousa beber água da torneira na rua; tem de se comprar a mesma água numa garrafa de plástico que outrora brotava de uma nascente que os nossos antepassados tiveram a delicadeza de nos deixar de graça. E quanto às outras necessidades básicas? Esqueçam os arbustos; agora mija-se com o aval da alta finança num monstro de aço autolimpante de 40.000 euros por unidade, com uma avença anual de manutenção que custa mais do que um Tesla.
No meu tempo de infância, a Idade da Pedra local, as vilas e cidades tinham a mania arcaica de ter chafarizes, fontes e bicas em cada esquina. Havia água de borla e até sanitários públicos onde o cidadão aliviava a bexiga sem precisar de um mestrado em engenharia civil. Mais bonito ainda: as garrafas de vidro tinham valor. Devolvia-se o vasilhame e davam-nos o troco. Que desperdício de atraso de vida.
Veio a luminosa modernidade e salvou-nos com a sua elite engomada e de pensamento cirurgicamente esterilizado. Com base numa tese académica brilhante, decidiram que o ser humano evoluído deixaria de comer, beber, mijar ou cagar na via pública. Problema resolvido por decreto mental. As garrafas de vidro passaram a ser um insulto ao plástico descartável e, num ápice de génio poluidor, inventou-se a "tara perdida" — o belo conceito de pagar por lixo para encher os vales e os oceanos.
Anos mais tarde, os descendentes desses mesmos iluminados, agora com uma queda natural para a filantropia da usura, descobriram que podiam salvar o planeta cobrando mais 10 cêntimos e baptizaram a salvação com um belo logótipo chamado "Volta". Uma janelinha no supermercado a custo irrisório? Ridículo! Precisávamos era de uma frota de robôs comedores de plástico de 150 milhões de euros para justificar a nossa eterna propensão para complicar o óbvio. Enquanto outros países reintroduzem fontes públicas nas ruas, nós reintroduzimos o plástico com selo de alta tecnologia.
Conclusão lógica: a desgraça humana e a eliminação do bom senso não começaram com a Inteligência Artificial. A cretinice estrutural sempre foi gerida por especialistas — e a merda, quando taxada a preço de ouro, é afinal um negócio de milhões.
© Fernando Alagoa