quarta-feira, 2 de setembro de 2026

CANTO DO ESTUDANTE CONQUISTADOR

Reza a história (versão cinematográfica para acentuar o drama) que Alexandre, o Grande, ao olhar para o mapa do mundo conhecido, chorou copiosamente. O jovem imperador, sentado num trono de ouro e mordomias, lavou-se em lágrimas porque já não tinha mais impérios para conquistar, nem reis para humilhar.
Séculos mais tarde, a história repete-se, nos bolsos dos conquistadores do conhecimento.
Hoje, na verdade, foi ontem, o trauma persiste, o estudante moderno olhou para a conta bancária e também chorou.
Não houve lágrimas por falta de mundos para conquistar. Houve lágrimas por falta de fundos para estudar!
Enquanto Alexandre tinha o mundo aos seus pés e uma fortuna incalculável, o jovem conquistador do conhecimento percebeu, num vislumbre de horror e comédia, que o seu orçamento para os estudos foi completamente aniquilado. O "império das propinas", as "hordas de fotocópias e livros" e “as usuras habitacionais”, avançaram mais rápido do que a cavalaria macedónica, deixando os cofres plebeus mais vazios do que a biblioteca de Alexandria depois do incêndio.
E no meio desta crise geopolítica-financeira, ergue-se o grande mistério da humanidade: Porque é que o Euromilhões continua a falhar miseravelmente todas as semanas?!
Aparentemente, as estrelas da Santa Casa decidiram fazer um motim digno dos soldados de Alexandre na Índia. Recusam-se a avançar, recusam-se a alinhar e deixam o nosso herói a ver o elevador social a descer sem esperança de subir. O algoritmo da lotaria tem-se revelado um inimigo mais implacável do que o Rei Dario, cortando a linha de abastecimento financeiro precisamente na noite de sexta-feira.
Alexandre conquistou a Pérsia, o Egito e a Babilónia. O estudante de 2026, por sua vez, tenta a todo o custo conquistar o diploma... rezando para que o próximo sorteio faça justiça histórica e financie, finalmente, a sua campanha académica.
Até lá, o lema é chorar e acender velinhas aos santos. O mundo já não pertence a Alexandre, o Grande. Hoje, os Grandes são outros — a alimentação, os combustíveis, os juros... —, todos bem patrocinados por ilusões que legalizam o esbulho outrora alcançado pelas armas.
© Fernando Alagoa