domingo, 20 de setembro de 2026

EVOLUÇÃO, SANITAS DE LUXO E OUTROS RESÍDUOS MODERNOS COM OU SEM VOLTA

O ser humano perdeu o juízo, mas não se preocupem: foi um processo lento, cuidado e altamente planeado.

É o ciclo virtuoso do planeamento moderno: erradica-se o útil, inventa-se o inútil, cria-se o problema e factura-se a solução com o dinheiro do contribuinte. Afinal, mudar de ideias e de infraestruturas ao sabor do vento é sinal de progresso.

Hoje em dia, graças a este design urbano avançado, ninguém ousa beber água da torneira na rua; tem de se comprar a mesma água numa garrafa de plástico que outrora brotava de uma nascente que os nossos antepassados tiveram a delicadeza de nos deixar de graça. E quanto às outras necessidades básicas? Esqueçam os arbustos; agora mija-se com o aval da alta finança num monstro de aço autolimpante de 40.000 euros por unidade, com uma avença anual de manutenção que custa mais do que um Tesla.

No meu tempo de infância, a Idade da Pedra local, as vilas e cidades tinham a mania arcaica de ter chafarizes, fontes e bicas em cada esquina. Havia água de borla e até sanitários públicos onde o cidadão aliviava a bexiga sem precisar de um mestrado em engenharia civil. Mais bonito ainda: as garrafas de vidro tinham valor. Devolvia-se o vasilhame e davam-nos o troco. Que desperdício de atraso de vida.

Veio a luminosa modernidade e salvou-nos com a sua elite engomada e de pensamento cirurgicamente esterilizado. Com base numa tese académica brilhante, decidiram que o ser humano evoluído deixaria de comer, beber, mijar ou cagar na via pública. Problema resolvido por decreto mental. As garrafas de vidro passaram a ser um insulto ao plástico descartável e, num ápice de génio poluidor, inventou-se a "tara perdida" — o belo conceito de pagar por lixo para encher os vales e os oceanos.

Anos mais tarde, os descendentes desses mesmos iluminados, agora com uma queda natural para a filantropia da usura, descobriram que podiam salvar o planeta cobrando mais 10 cêntimos e baptizaram a salvação com um belo logótipo chamado "Volta". Uma janelinha no supermercado a custo irrisório? Ridículo! Precisávamos era de uma frota de robôs comedores de plástico de 150 milhões de euros para justificar a nossa eterna propensão para complicar o óbvio. Enquanto outros países reintroduzem fontes públicas nas ruas, nós reintroduzimos o plástico com selo de alta tecnologia.

Conclusão lógica: a desgraça humana e a eliminação do bom senso não começaram com a Inteligência Artificial. A cretinice estrutural sempre foi gerida por especialistas — e a merda, quando taxada a preço de ouro, é afinal um negócio de milhões.

© Fernando Alagoa

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O PARAÍSO PORTUGUÊS

Ontem, ao deslocar-me a Lisboa, depois de algumas semanas imobilizado devido a uma fractura numa costela, compreendi perfeitamente porque o Governo não cede no que respeita à descida do preço dos combustíveis. A Ponte 25 de Abril estava a abarrotar; veículos de última geração engalfinhavam-se para a atravessar. Até lá chegar, fruto desse instrumento de viabilização dos caminhos que dá pelo nome de rotundas — uma espécie de cogumelos nascidos da inteligência de um qualquer Desmurget, embora aqui os cretinos sejam outros —, há veículos a lutar pelos míseros espaços que a aglutinação permite. A cada entrada na via rápida, alegam, surgem, tal acto felino, mais uma centena enfurecida de motores gritantes.

Já pelas ruas citadinas, o desespero não é menor. Ainda cedo, as esplanadas já rivalizam com as estradas: cafés, bolos, sandes, com os empregados a alternarem-se no virote de pedidos e excentricidades. Ao almoço, cadeiras e mesas são disputadas com entusiasmo quase enfurecido. Almoços e cafés apressados, povoam espaços em autênticas rodas giratórias. Pelas ruas da cidade, apinha-se gente às cotoveladas entre dóceis carteiristas, charros descontraídos e sestas expressivas.

Portugal é o paraíso! Não insistam em anunciar que no Luxemburgo, na Suíça, na Suécia ou na Dinamarca é que se vive bem. Com estes salários de miséria conseguimos milagres, pelo que ganhar mais seria o ócio total. Os combustíveis ainda não alcançaram os 5 euros por litro, mas com este existir sofredor e um espírito crítico que só se manifesta entre futeboladas e big brothers, amanhã tudo é possível.

© Fernando Alagoa

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

BANQUETE DAS MIGALHAS OU A ILUSÃO DOS ABONOS AOS PROFESSORES NA ERA DA DIGITALIZAÇÃO

Depois do caos gerado em torno da digitalização das provas de exame, assistiu-se a uma aparatosa campanha de propaganda governamental destinada a apregoar a "justa compensação" atribuída aos docentes. Apresentada como um acto de elementar justiça, esta remuneração pretendia ressarcir os profissionais que abdicaram do seu tempo de descanso para, com afinco e sentido de Estado, minimizar o desastre provocado pela manifesta incompetência logística da tutela. Contudo, confrontados com a realidade dos números, o que se prometia como uma valorização profissional revelou-se uma profunda afronta.

A aplicação prática do modelo de pagamento por "item" resultou num cenário irrisório: a avaliação minuciosa de cerca de 173 perguntas (num caso em concreto) traduziu-se numa "memorável riqueza" que mal cobre o desgaste psicológico do processo. O paradoxo torna-se ainda mais gritante quando se analisa a dimensão fiscal desta operação. Sob a capa de um pagamento extraordinário, o Estado acaba por reter em impostos uma fatia desproporcional do valor bruto atribuído, arrecadando frequentemente mais do que aquilo que efectivamente paga aos professores. É a consumação de uma ironia perversa: o próprio organismo que cria a crise beneficia financeiramente com o esforço daqueles que a resolveram.

Para agravar esta asfixia fiscal, subsiste o impacto a longo prazo no rendimento anual dos docentes. A inclusão desta escassa remuneração no cômputo global dos rendimentos pode, por via da progressividade do IRS, empurrar hipoteticamente o trabalhador para uma mudança de escalão de retenção ou de liquidação final. O resultado prático é devastador: um acréscimo marginal e pontual de rendimento transforma-se numa carga fiscal significativamente superior sobre todo o salário anual, anulando qualquer vestígio de benefício financeiro.

Em suma, a gestão dos abonos da correção digital demonstra que não há melhor estratégia para o erário público do que capitalizar sobre os seus próprios erros. Cria-se a crise, exige-se o sacrifício de terceiros e, no final, retêm-se os impostos de forma indevida sobre o suor de quem salvou o ano lectivo.

Concretiza-se, assim, o avesso daquela máxima do cinema português que dita que "ou há moralidade ou comem todos": neste caso, sem ponta de moralidade, no fim, só o Estado se banqueteia.

© Fernando Alagoa

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

CANTO DO ESTUDANTE CONQUISTADOR

Reza a história (versão cinematográfica para acentuar o drama) que Alexandre, o Grande, ao olhar para o mapa do mundo conhecido, chorou copiosamente. O jovem imperador, sentado num trono de ouro e mordomias, lavou-se em lágrimas porque já não tinha mais impérios para conquistar, nem reis para humilhar.
Séculos mais tarde, a história repete-se, nos bolsos dos conquistadores do conhecimento.
Hoje, na verdade, foi ontem, o trauma persiste, o estudante moderno olhou para a conta bancária e também chorou.
Não houve lágrimas por falta de mundos para conquistar. Houve lágrimas por falta de fundos para estudar!
Enquanto Alexandre tinha o mundo aos seus pés e uma fortuna incalculável, o jovem conquistador do conhecimento percebeu, num vislumbre de horror e comédia, que o seu orçamento para os estudos foi completamente aniquilado. O "império das propinas", as "hordas de fotocópias e livros" e “as usuras habitacionais”, avançaram mais rápido do que a cavalaria macedónica, deixando os cofres plebeus mais vazios do que a biblioteca de Alexandria depois do incêndio.
E no meio desta crise geopolítica-financeira, ergue-se o grande mistério da humanidade: Porque é que o Euromilhões continua a falhar miseravelmente todas as semanas?!
Aparentemente, as estrelas da Santa Casa decidiram fazer um motim digno dos soldados de Alexandre na Índia. Recusam-se a avançar, recusam-se a alinhar e deixam o nosso herói a ver o elevador social a descer sem esperança de subir. O algoritmo da lotaria tem-se revelado um inimigo mais implacável do que o Rei Dario, cortando a linha de abastecimento financeiro precisamente na noite de sexta-feira.
Alexandre conquistou a Pérsia, o Egito e a Babilónia. O estudante de 2026, por sua vez, tenta a todo o custo conquistar o diploma... rezando para que o próximo sorteio faça justiça histórica e financie, finalmente, a sua campanha académica.
Até lá, o lema é chorar e acender velinhas aos santos. O mundo já não pertence a Alexandre, o Grande. Hoje, os Grandes são outros — a alimentação, os combustíveis, os juros... —, todos bem patrocinados por ilusões que legalizam o esbulho outrora alcançado pelas armas.
© Fernando Alagoa