quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

DE AVATAR A LAUDATO SI'

 DIA MUNDIAL DA PAZ | VOTOS DE FELIZ ANO NOVO!!!

No dia 30 de dezembro de 2025, vi Avatar, o terceiro filme da saga de James Cameron. Mantém a linha do segundo e, por isso, tendo em conta o impacto da novidade criativa, continuo a considerar o primeiro como o mais marcante de todos. Porém, esta reflexão não pretende classificar filmes, mas destacar a mensagem profunda que lhes dá sentido. Essa mensagem, aliada à beleza visual, é do melhor que o cinema tem oferecido.

Os voos em comunhão com os ikran ou bansheedragões voadores que evocam pterodáctilos, e as viagens com os tulkuns, as majestosas baleias que são irmãs espirituais do povo Na’vi, são de uma grandiosidade rara. O mundo em que vivem, em plena sintonia com a natureza e com a reverência que lhe dedicam, faz-nos recordar os povos indígenas da América do Norte, as comunidades amazónicas ou até os aborígenes australianos.

Esse universo de beleza e encanto, quase paradisíaco, onde cada paisagem, cada ser e cada instante nos deslumbram, contrasta violentamente com a sede do “povo dos céus” — os humanos — que surgem como invasores, exploradores e destruidores de um ambiente sagrado. Enquanto via o filme, lembrei-me também da canção As Baleias, de Roberto Carlos, da qual deixo um pequeno excerto:

«Não é possível que no fundo do seu peito

Seu coração não tenha lágrimas guardadas

Pra derramar sobre o vermelho derramado

No azul das águas que você deixou manchadas

Seus netos vão te perguntar em poucos anos

Pelas baleias que cruzavam oceanos»

Uma mensagem que se estende a tantas outras espécies: o rinoceronte‑branco, os gorilas, os bisontes, os elefantes e, no princípio e no fim, a nós próprios. Somos incapazes de cuidar de nós e do nosso semelhante; como esperar que cuidemos dos nossos irmãos de outras espécies.

Os oceanos, os rios, a Amazónia, o ar que respiramos tudo parece clamar por esperança, e nós continuamos a não a ouvir.

A palavra “humanos”, e o significado que lhe atribuímos — compaixão, benevolência, solidariedade — está muito aquém do que gostaríamos que fosse. Entrámos no século XXI com ambições de alcançar o infinito galáctico, mas sem a mínima determinação de preservar esta casa comum, como tantas vezes Francisco nos alertou na encíclica Laudato Si’.

A imagem final do filme, que interpretei como uma referência à filosofia africana Ubuntu — “Eu sou porque tu és”, “porque nós somos” —, sublinha a interdependência, a solidariedade, a empatia e o sentido de comunidade. Ressoa dentro de nós como o ideal para qualquer sociedade, mas permanece, infelizmente, uma miragem distante.

Ainda assim, creio que há espaço para esperança.

Talvez a força destas histórias, reais ou imaginadas, esteja precisamente na capacidade de nos despertar. Talvez cada filme, cada gesto de beleza, cada memória de um mundo que ainda resiste, seja uma semente. E as sementes, mesmo quando caem em solo árido, têm uma teimosia silenciosa: procuram sempre uma forma de germinar.

Que o novo ano nos encontre mais atentos, mais disponíveis para cuidar, mais conscientes de que não estamos sós, e de que o futuro, embora frágil, continua à espera das nossas melhores escolhas.

Fernando Alagoa © 2026 | Todos os direitos reservados

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