A memória dos povos há de recordar a América de Trump como o suporte de ditadores.
Nunca uma democracia contribuíra tão intensamente para a manutenção de regimes autoritários, alimentando-os, estimulando-os e desejando reinventar-se a si própria como aprendiz de totalitarismo além‑fronteiras.
Não se trata apenas — e este “apenas” já é demasiado — de uma alteração da ordem mundial, entendida como a troca de protagonistas no jogo da força e do poder. Esta nova ordem transporta consigo um despotismo inqualificável.
Enquanto eleva a amigos os deuses da repressão, hostiliza aliados e insulta os vizinhos fronteiriços.
Surreal: uma realidade distópica, digna apenas de filmes de má qualidade, protagonizada por um prémio Nobel que, tendo sido oferecido ao aprendiz de tiranete, deveria — se tal fosse possível — ser devolvido à própria Academia que o atribuiu.
Nada tendo a ver, aparentemente, com esta cacotopia, ocorreu‑me Mário de Sá‑Carneiro e o seu poema "Quase": já tínhamos visto quase tudo; agora já vimos tudo.
© Fernando Alagoa

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