terça-feira, 6 de janeiro de 2026

DIA DE REIS

«Quando um trabalhador, em qualquer parte do mundo, ergue os seus punhos nus diante de um tanque e grita que não é um escravo, que somos nós se a isso ficarmos indiferentes?»

Encontrei esta frase na internet atribuída a Camus, embora não a tenha conseguido validar. Mas, no fundo, o essencial não é o autor: é a mensagem. Há nela uma plasticidade que permite adaptá‑la aos tempos que vivemos, sem perder a sua força moral. No contexto actual, se fosse minha, talvez a reformulasse assim: Quando uma pessoa, em qualquer parte do mundo, ergue os seus punhos nus diante da tirania e afirma que não é um escravo, que somos nós se a isso ficarmos indiferentes?

A dignidade humana não é um conceito abstracto nem um luxo filosófico; é o fundamento mínimo que permite a cada ser humano existir sem medo, sem humilhação e sem violência. Sempre que alguém, em qualquer latitude, se levanta contra a opressão — seja ela política, económica, social ou simbólica — está a recordar-nos que a liberdade não é um privilégio, mas um direito inalienável. E quando testemunhamos esse gesto e escolhemos o silêncio, não somos apenas espectadores: tornamo-nos cúmplices involuntários da injustiça.

Indignar‑nos é, por isso, um acto de humanidade. Reconhecer a dor do outro é reconhecer a nossa própria vulnerabilidade. E defender quem resiste, mesmo à distância, é afirmar que nenhuma pessoa deve ser reduzida a instrumento, número ou engrenagem. A dignidade humana começa precisamente aí: no instante em que recusamos aceitar que alguém seja tratado como menos do que um ser humano pleno.

Neste Dia de Reis, quando se celebra a Epifania do Senhor — esse instante simbólico em que a luz se manifesta ao mundo e o convida a reconhecer o valor absoluto de cada vida — somos lembrados de que a dignidade humana não é apenas um princípio moral, mas uma verdade que se revela sempre que alguém se ergue contra a tirania. A Epifania, entendida filosoficamente, é o momento em que o humano desperta para o humano: quando percebemos que a liberdade do outro está inevitavelmente ligada à nossa própria liberdade. Por isso, cada gesto de resistência, por mais isolado que pareça, renova a exigência ética que nos atravessa a todos. E a pergunta permanece, tão simples quanto inescapável: que somos nós, se ficarmos indiferentes?

© Fernando Alagoa


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