Hoje celebramos Portugal, uma nação antiga que nunca deixou de ser jovem.
Comemoramos a língua que nos embala e nos ergue, o povo que nos leva mais longe e o poeta que nos ensinou a sonhar para além do horizonte. Somos herdeiros de um país uno e pacífico, que fez do mar caminho, da distância força e da palavra saudade, lugar onde a nossa identidade repousa.
De um território pequeno nasceu um mundo maior: abrimos rotas onde só havia silêncio, cruzámos culturas como quem acende luzes no mapa, levámos connosco a curiosidade inquieta, a coragem serena e a rara capacidade de criar pontes onde outros ergueriam muros. Demos mundos ao mundo, e continuamos a dá-los, agora com ciência, arte, inovação e humanidade, como quem semeia futuro com mãos antigas.
No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebramos também a democracia que construímos, firme na defesa dos direitos humanos e voltada para o amanhã. Comemoramos os que ficaram e os que partiram, porque Portugal é maior do que a sua extensão de terra: vive no sotaque de quem regressa, no coração de quem partiu, na memória de quem nunca esqueceu.
Que este dia nos lembre que somos feitos de resistência tranquila, de esperança teimosa e de uma beleza discreta que não precisa de alarde. Somos um país que invoca um poeta para se celebrar, e isso diz tudo sobre a alma que nos habita.
E celebramos, por fim, aqueles que ainda não sabem que celebramos por eles: as crianças, futuro vivo de uma nação que se renova em cada olhar curioso. São elas que nos lembram, como escreveu Rómulo de Carvalho, que «o sonho comanda a vida», e é por isso que lhes devemos um país onde possam sonhar mais alto do que nós alguma vez ousámos. Nelas repousa a promessa de um Portugal que continua — mais justo, mais sábio, mais luminoso.
© Fernando Alagoa
Imagem: retrato de Luiz Vaz de Camões
P. S. - Hoje decidi que, sempre que fizer referência a Camões e ilustrar o texto com a sua imagem, deixarei de o retratar como cego de um olho. Camões não nasceu cego, nem viveu sempre sob essa marca; só mais tarde a vida lha impôs. Talvez seja tempo de deixarmos de olhar o outro pelo que lhe falta e começarmos a vê‑lo pelo brilho que carrega.

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