A recente polémica em torno da proposta que pretende proibir o içar de determinadas bandeiras em edifícios públicos tornou‑se um daqueles debates em que o símbolo engole o essencial. Discutem‑se bandeiras e cores quando talvez devêssemos discutir outra coisa: que tipo de sociedade queremos ser.
Uma sociedade madura não se constrói à força de símbolos impostos, nem de proibições precipitadas. Constrói‑se com educação, mas educação no sentido mais profundo do termo. Educar para respeitar todos, sem excepção, é muito diferente de educar para aceitar todas as ideias, mesmo as mais excêntricas (quando o são), sem espaço para debate ou crítica. Uma democracia saudável não exige unanimidade; exige convivência.
O problema surge quando a defesa das minorias se transforma (quando transforma), inadvertidamente, numa espécie de blindagem contra qualquer contestação. Respeitar pessoas é obrigatório; aceitar todas as ideias como equivalentes não é. Uma sociedade que teme discordar, com receio de ser “cancelada”, deixa de pensar livremente. E quando deixamos de pensar, deixamos de educar.
É aqui que a discussão sobre bandeiras se torna quase irrelevante. Uma bandeira pode representar orgulho, luta, memória, mas não substitui políticas públicas, nem resolve dilemas sociais complexos. Não educa, não cuida, não integra. Apenas sinaliza.
E há ainda um ponto que raramente se discute: como lidar com identidades individuais que se afastam radicalmente das categorias tradicionais. Se alguém diz sentir‑se um animal, uma entidade abstracta ou uma personagem de banda desenhada, não é içando uma bandeira que se responde a essa realidade. A questão não é simbólica; é social, legal, psicológica, económica... Quem cuida? Quem apoia? Como se integra? Como se garante que a liberdade individual não se transforma em desresponsabilização colectiva?
Se amanhã fossem cinco milhões a reivindicar identidades que os afastam da participação social, não seria uma bandeira no topo de um mastro que resolveria o problema. Seria a capacidade — ou incapacidade — de a sociedade cuidar, incluir e responsabilizar.
Talvez devêssemos, então, recentrar o debate: menos bandeiras, mais educação; menos ruído simbólico, mais clareza ética; menos medo de discordar, mais coragem de pensar. Uma sociedade verdadeiramente humanista não se mede pelo número de bandeiras que içamos, mas pela qualidade das pontes que construímos entre pessoas diferentes.
© Fernando Alagoa

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