quinta-feira, 15 de outubro de 2026

PAÍS DE BRINCADEIRA: O REINO DO MIMIMI

O País de Brincadeira continua um espanto de consistência, habitado por um povo cuja submissão atinge níveis de um romantismo absolutamente comovente.

Miguel Torga, que já nos topava à légua, explicou o fenómeno com precisão cirúrgica: «É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.»

Sou e serei sempre contra a violência. O que se passa em França, por exemplo, é de um civismo bizarro. Aquela necessidade folclórica de queimar carros e vandalizar o património alheio, tudo sob o pretexto de exigir direitos, é incompreensível.

Mas sejamos justos: quando os governos franceses ou espanhóis decidem colocar-lhes o garrote ao pescoço, aquela gente tem a má educação de se zangar e sair à rua para estragar o jantar aos governantes. E estes, coitados, mesmo que fingindo com uma hipocrisia de mestre, lá têm de vir a público gaguejar respostas para acalmar a plebe.

Por cá? Por cá elevámos o mimimi a uma forma de arte abstrata.

Ocupar ruas, becos e jardins com tendas de protesto? Por quem nos tomam! Esse privilégio estético está estritamente reservado aos sem-abrigo de longa data e às "flores do narcotráfico" que os nossos sucessivos desgovernos criaram, alimentaram e mimaram com subsídios de ilusão.

O mundo evoluiu, mas a nossa burocracia estatal é intocável. Qualquer manifestação que ouse ser espontânea comete o sacrilégio de perder a legalidade se não enviar um requerimento com carimbo e pré-aviso, tal como manda uma venerável lei com mais de meio século. Até para gritar na rua é preciso pedir licença ao Estado. O espírito da ditadura dá sempre jeito a quem governa.

Se a história se escrevesse hoje, Abril não daria o sinal pela rádio; enviaria uma notificação formal com 48 horas de antecedência para garantir a legalidade da revolução.

Mas o verdadeiro brilhantismo, o toque de génio, não esteve em proibir as tendas, mas na belíssima histeria criada à volta delas. Com uma destreza mediática que merece palmas, os ilusionistas do poder conseguiram o milagre de apagar do mapa o pequeno detalhe que gerou o protesto: o facto de as rendas custarem os olhos da cara e a habitação ser um mito urbano.

Num passe de magia digno de Hollywood, o debate sério evaporou-se. O discurso “oficial”, convenientemente ofendido, ficou encalhado na arquitectura das tendas montadas por jovens numa contestação pacífica. A falta de casas? Um pormenor irrelevante. Discuta-se antes o impacto visual das tendas no espaço público, a legalidade, as cores, o feitio, a rapidez da montagem… mimimi. mimimi, mimimi.

Os nossos jovens ou são amavelmente convidados pelos governantes a emigrar, ou são brutalmente corridos à bastonada.

Que bom seria se um par de bastonadas implacáveis, no momento certo, fizesse aparecer as casas para quem delas precisa.

O populismo nem precisa de se dar ao traba
lho. Os nossos
ilustres governantes, auto-proclamados guardiões do "bom senso", tratam de nos guiar — com o fulgor das suas acções — directamente para o abismo previsível.

© Fernando Alagoa


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

IMPLANTAÇÃO da REPÚBLICA PORTUGUESA | O ECO das PALAVRAS e o PESO da REALIDADE

Meditando na ampulheta da vida, concluo que sou um sexagenário. A palavra em si mesma parece carregar um peso incomensurável, embora não passe de um mero número, uma marca no calendário da existência. Mas a idade, essa velha conselheira, traz-nos a sabedoria da aprendizagem, a leveza da relativização e, paradoxalmente, a capacidade de reter a juventude da actualidade, olhando o presente de frente.

Serve este preâmbulo para constatar que hoje, uma vez mais — cumpro talvez a quadragésima estação desta romaria na minha vida adulta —, assisti atentamente à liturgia dos discursos proferidos nas comemorações da República. Reconheço que foram belas homilias. No entanto, aquilo que ecoou dos palcos, salvaguardando o verniz tecnológico e global característico da nossa era, podia ter sido declamado em qualquer outro ano ou década. São palavras esculpidas em blocos de gelo, quase de uma beleza poética, mas com a densidade do fumo: perfeitamente moldadas, mas sem força de conteúdo.

Enquanto a retórica oficial brilha sob os holofotes, o País real caminha de costas para o futuro. Chegados a 2026, paira a certeza de que ou tocámos finalmente o fundo do abismo, ou transformámos o próprio abismo na nossa nova morada. E isto não são névoas da percepção; é a realidade nua que nos bate à porta: o florescer impune da criminalidade, a gritante anemia de meios das nossas forças de segurança e um manto de desresponsabilização que absolve quem se dedica à criminalidade. Assistimos ao naufrágio total de pilares que deviam ser as fundações da nossa casa: a saúde na penumbra, a justiça cega e estática, a educação à deriva e a habitação transformada em miragem. Importámos com orgulho os preços da vanguarda europeia, mas oferecemos em troca as condições do terceiro mundo.

Dizem-nos os guardiões do regime que o grande lobo às portas é o extremismo. Que doce ironia. Os decisores actuais não precisam de temer o populismo; os políticos da alegada sensatez, da ponderação de gabinete, da igualdade de retórica e da democracia de fachada bastarão perfeitamente para demolir o que gerações inteiras ergueram com suor, sangue e lágrimas.

Nada haverá de mais extremista, com visíveis sintomas de ditadura, do que vedar o acesso popular aos paços do município por mero temor às contestações. Um País que festeja os seus dias mais importantes à porta fechada, apenas para gáudio das elites, está irremediavelmente condenado ao insucesso — embora, de olhos bem fechados e embriagado pela própria vaidade, ainda o não saiba.

Resta saber se este velho País, que deixa os idosos ao abandono e expulsa os mais jovens para lá das suas fronteiras, ainda conserva no seu povo a coragem de acordar antes que o manto do esquecimento e da ruína cubra em definitivo a nossa História. Uma pátria não se alimenta da mansidão dos discursos; ou reage, ou definha até se tornar numa mera e irrelevante colónia fiscal e identitária. A nossa tolerância com a decadência é, afinal, o preço que pagamos pela nossa própria extinção.

© Fernando Alagoa