segunda-feira, 5 de outubro de 2026

IMPLANTAÇÃO da REPÚBLICA PORTUGUESA | O ECO das PALAVRAS e o PESO da REALIDADE

Meditando na ampulheta da vida, concluo que sou um sexagenário. A palavra em si mesma parece carregar um peso incomensurável, embora não passe de um mero número, uma marca no calendário da existência. Mas a idade, essa velha conselheira, traz-nos a sabedoria da aprendizagem, a leveza da relativização e, paradoxalmente, a capacidade de reter a juventude da actualidade, olhando o presente de frente.

Serve este preâmbulo para constatar que hoje, uma vez mais — cumpro talvez a quadragésima estação desta romaria na minha vida adulta —, assisti atentamente à liturgia dos discursos proferidos nas comemorações da República. Reconheço que foram belas homilias. No entanto, aquilo que ecoou dos palcos, salvaguardando o verniz tecnológico e global característico da nossa era, podia ter sido declamado em qualquer outro ano ou década. São palavras esculpidas em blocos de gelo, quase de uma beleza poética, mas com a densidade do fumo: perfeitamente moldadas, mas sem força de conteúdo.

Enquanto a retórica oficial brilha sob os holofotes, o País real caminha de costas para o futuro. Chegados a 2026, paira a certeza de que ou tocámos finalmente o fundo do abismo, ou transformámos o próprio abismo na nossa nova morada. E isto não são névoas da percepção; é a realidade nua que nos bate à porta: o florescer impune da criminalidade, a gritante anemia de meios das nossas forças de segurança e um manto de desresponsabilização que absolve quem se dedica à criminalidade. Assistimos ao naufrágio total de pilares que deviam ser as fundações da nossa casa: a saúde na penumbra, a justiça cega e estática, a educação à deriva e a habitação transformada em miragem. Importámos com orgulho os preços da vanguarda europeia, mas oferecemos em troca as condições do terceiro mundo.

Dizem-nos os guardiões do regime que o grande lobo às portas é o extremismo. Que doce ironia. Os decisores actuais não precisam de temer o populismo; os políticos da alegada sensatez, da ponderação de gabinete, da igualdade de retórica e da democracia de fachada bastarão perfeitamente para demolir o que gerações inteiras ergueram com suor, sangue e lágrimas.

Nada haverá de mais extremista, com visíveis sintomas de ditadura, do que vedar o acesso popular aos paços do município por mero temor às contestações. Um País que festeja os seus dias mais importantes à porta fechada, apenas para gáudio das elites, está irremediavelmente condenado ao insucesso — embora, de olhos bem fechados e embriagado pela própria vaidade, ainda o não saiba.

Resta saber se este velho País, que deixa os idosos ao abandono e expulsa os mais jovens para lá das suas fronteiras, ainda conserva no seu povo a coragem de acordar antes que o manto do esquecimento e da ruína cubra em definitivo a nossa História. Uma pátria não se alimenta da mansidão dos discursos; ou reage, ou definha até se tornar numa mera e irrelevante colónia fiscal e identitária. A nossa tolerância com a decadência é, afinal, o preço que pagamos pela nossa própria extinção.

© Fernando Alagoa



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