Hoje é um daqueles dias ricos em comemorações, em que o calendário parece querer lembrar-nos de tudo aquilo que insistimos em esquecer. É Dia Internacional contra a Discriminação Racial, Dia Mundial da Poesia, Dia Internacional da Árvore e Dia Internacional das Florestas — celebrações que, curiosamente, combinam melhor do que se poderia pensar.
Num mundo ideal, seríamos como livros numa estante iluminada: diferentes por fora, surpreendentes por dentro e igualmente dignos de ser lidos. Ainda assim, há quem prefira julgar pela capa, como se a cor da lombada pudesse resumir a profundidade das páginas. Ironias da vida: até os livros, que não têm voz, sabem conviver melhor do que nós.
E já que hoje também se celebra a poesia, importa lembrar que nenhum poema se repete só porque rima, e nenhuma metáfora perde valor por ser diferente. A poesia habita a diversidade — de ritmos que se cruzam, de imagens que se misturam, de sentidos que se revelam quando se ousa ler além da superfície. Talvez fosse útil aplicarmos essa mesma sensibilidade ao mundo real.
E porque é também Dia da Árvore e das Florestas, não custa recordar que nenhuma floresta existe com um só tipo de ser. As árvores crescem lado a lado, sem discutir tonalidades de casca, sem exigir que todas deem o mesmo fruto. Raízes diferentes podem entrelaçar-se no mesmo solo; copas distintas podem partilhar a mesma luz. A natureza não discrimina — floresce.
Hoje, entre livros, poemas e árvores, a mensagem é simples e antiga: a diversidade não é um problema a resolver, mas uma riqueza a preservar. Hoje é o dia para abrir a porta — e deixá-la aberta para sempre.
© Fernando Alagoa

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