E se, em vez de guerras, construíssemos navios que fossem jardins sobre o mar?
Porta‑aviões que não transportam medo, mas sementes por germinar.
Que atravessam o oceano como quem leva um abraço a quem tem frio.
Navios onde o ar cheira a pão acabado de cozer,
onde as paredes guardam risos,
onde cada corredor é um caminho de regresso à dignidade.
E se os drones que cruzam o céu fossem apenas pequenos guardiões,
a deslizar sobre campos de flores,
a seguir o brilho dos rios,
a ouvir o coração profundo dos mares?
Máquinas que não procuram alvos — procuram vida.
Que não vigiam fronteiras — vigiam fragilidades.
Talvez seja isto que nos falta:
virar o mundo com a delicadeza de quem vira uma pétala caída,
e descobrir que, do outro lado, ainda há luz.
Usar a mesma inteligência que hoje ergue muros
para construir abrigos.
A mesma tecnologia que hoje vigia destruição
para vigiar renascimentos.
Imagina um “porta‑esperança”:
um navio onde a noite brilha com estufas suspensas,
onde as vozes ensinam alfabetos e canções,
onde os passos não treinam guerras,
mas gestos de cuidado.
Não é fantasia.
É só uma escolha que ainda não fizemos.
E todas as escolhas começam assim: num sussurro,
num pensamento pequeno, quase tímido,
o de acreditar que o impossível é apenas o que ainda não tentámos.
Porque a verdadeira força nunca esteve no cano de uma arma,
mas na ternura que resiste.
E a vitória verdadeira nunca foi conquistar território,
mas garantir que ninguém fica esquecido.
A humanidade sabe ser grande.
Só precisa de recordar o caminho de volta ao seu próprio coração.
© Fernando Alagoa

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