segunda-feira, 16 de março de 2026

SE O MUNDO OUSASSE

E se, em vez de guerras, construíssemos navios que fossem jardins sobre o mar?

Porta‑aviões que não transportam medo, mas sementes por germinar.

Que atravessam o oceano como quem leva um abraço a quem tem frio.

Navios onde o ar cheira a pão acabado de cozer,

onde as paredes guardam risos,

onde cada corredor é um caminho de regresso à dignidade.


E se os drones que cruzam o céu fossem apenas pequenos guardiões,

a deslizar sobre campos de flores,

a seguir o brilho dos rios,

a ouvir o coração profundo dos mares?

Máquinas que não procuram alvos — procuram vida.

Que não vigiam fronteiras — vigiam fragilidades.

Talvez seja isto que nos falta:

virar o mundo com a delicadeza de quem vira uma pétala caída,

e descobrir que, do outro lado, ainda há luz.

Usar a mesma inteligência que hoje ergue muros

para construir abrigos.

A mesma tecnologia que hoje vigia destruição

para vigiar renascimentos.


Imagina um “porta‑esperança”:

um navio onde a noite brilha com estufas suspensas,

onde as vozes ensinam alfabetos e canções,

onde os passos não treinam guerras,

mas gestos de cuidado.


Não é fantasia.

É só uma escolha que ainda não fizemos.

E todas as escolhas começam assim: num sussurro,

num pensamento pequeno, quase tímido,

o de acreditar que o impossível é apenas o que ainda não tentámos.


Porque a verdadeira força nunca esteve no cano de uma arma,

mas na ternura que resiste.

E a vitória verdadeira nunca foi conquistar território,

mas garantir que ninguém fica esquecido.


A humanidade sabe ser grande.

Só precisa de recordar o caminho de volta ao seu próprio coração.


© Fernando Alagoa

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