sábado, 7 de março de 2026

ARTE, ARTISTAS e CIÊNCIA

Vejo a Casa d’Amália com a mesma admiração daquele garoto que sonhava ser cantor, mas a quem Deus, num daqueles gestos que nunca se explicam, decidiu oferecer outros atributos. À bênção de a ouvirmos junta-se este saudosismo que as canções de outrora, nas vozes divinais de hoje, nos devolvem como se fossem cartas antigas encontradas numa gaveta esquecida — em busca do tempo perdido — que já não volta. A idade tem destas ternuras que a juventude raramente entende, talvez porque ainda não aprendeu a despedir-se. E depois penso nesta sociedade de consumo, nos programas que nos entram pelos olhos dentro e nos vão corroendo o cérebro, triturando neurónios como quem passa tudo a pente fino até não sobrar nada, e pergunto-me se as direcções de programas de certas televisões terão perdido o norte ou se a guerra pelas audiências passou a justificar tudo, até o vazio que esses formatos nos oferecem com a arrogância de quem acha que nos faz um favor.

Vinte e seis anos, repito, 26 anos de Big Brother, não é alucinação nem delírio: é uma espécie de transe colectivo, uma dormência prolongada que talvez a ciência um dia consiga explicar. Como se a alienação não bastasse, acrescentam ao catálogo deprimente primeiras companhias, agricultores de plástico e outras pérolas da mesma estirpe, todas embrulhadas no mesmo celofane brilhante que esconde a falta de substância.

A máquina que produz a Casa d’Amália devia ser replicada por toda a cultura e por todo o saber, e daqui envio um abraço ao José Gonçalez — que não conheço — e à sua equipa, pelos momentos extraordinários que nos têm oferecido ao longo dos anos, como quem acende uma luz num corredor demasiado comprido e obscuro.

Imagino, sem a grandeza de John Lennon, o que seria se todas estas equipas e investimentos fossem colocados ao serviço do teatro, do cinema, da música, do bailado, da literatura, da pintura, das ciências?!... Num dia teríamos a Casa d’Amália, no dia seguinte a Casa d’Amélia Rey Colaço, e depois a de Max, de Toni, de Carlos do Carmo, de José Cid, de Paco Bandeira, de Rui Veloso, de Ricardo Ribeiro, de Camané, de Pedro Abrunhosa, de Marisa, de Carminho, de Katia Guerreiro, de Cuca Roseta, e ainda a de Mário Cláudio, de Mário de Carvalho, de Camões, de Saramago, de Pessoa, de Lobo Antunes, de Rui de Carvalho, de Eunice Muñoz, de Diogo Infante, de Júlio Pomar, de Nádir Afonso, de Vieira da Silva, de Graça Morais, de Eduardo Lourenço, de Manuel Sobrinho Simões, de Carolina Beatriz Ângelo, de Raquel Boia, e ao lado delas as casas que guardam as memórias da cultura: Gulbenkian, Casa da Música, Companhia Nacional de Bailado, São Carlos, Casa das Histórias Paula Rego, Serralves, TAS, Comuna, Teatro Dona Maria e de tantos outros que me é impossível enumerar. Lugares onde a arte ainda respira, mesmo quando o país parece esquecer-se de que precisa dela para continuar a ser país, como quem se esquece de regar uma planta e depois se espanta por vê-la morrer.

Em vez disso, temos rios de euros e gravações de coisa nenhuma, e penso muitas vezes nisto, no país que nos tornámos, na pseudo‑democracia que prolifera em interesses, propaganda e alienações, esquecendo que a grandeza de um país se faz pela cultura e também por aqueles que trabalham para que haja comida na mesa, libertando-nos o pensamento para a grandeza da ociosidade. Sim, refiro-me aos verdadeiros agricultores, pescadores, pastores..., esses que mereciam o regresso de um “TV Rural” que lhes desse o destaque que verdadeiramente têm nas nossas vidas.

Um país que esquece a sua cultura não perde apenas memória: perde a capacidade de se reconhecer ao espelho.

© Fernando Alagoa

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