Abençoada guerra!
Não há como uma crise internacional e um governo em estado apático permanente para transformar oportunistas em visionários. O meu armazém continua a transbordar de produtos suficientes para abastecer o mercado nacional durante um ano inteiro, mas se o mercado internacional tropeça, por que não aproveitar o tropeção? Subo os preços com a serenidade de quem se limita a seguir “as regras do jogo”. A propaganda encarrega‑se do resto — repete, repete, repete — e eu limito‑me a acenar com ar inocente.
É o mercado a funcionar, murmuram, como quem recita uma lei da natureza. Entretanto, aqueles que viram as casas arrastadas pelas águas e as colheitas devastadas pelas tempestades, tal como o resto da população, serão chamados a pagar o preço destes aumentos escabrosos. Hão de tentar sobreviver com salários que mal chegam para sustentar o corpo, quanto mais o futuro.
Resta‑lhes a magra consolação filosófica de saber que habitam um sistema impecavelmente eficiente, desde que se pertença ao lado certo da eficiência.
Consciência social? Só para quem ainda acredita que o capitalismo tem coração, ou que os colecionadores de marfim choram pelos elefantes.
A insensibilidade tecnocrática, a acumulação de impostos, a falha em garantir direitos económicos e sociais e a permissão de uma escalada imediata de preços — que se traduzem num desequilíbrio entre lucros corporativos e rendimentos das famílias — configuram uma forma de violência estrutural e um abuso por omissão.
© Fernando Alagoa

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