terça-feira, 10 de março de 2026

VIVER É SÓ ISTO?

Questiono-me muitas vezes se viver é só isto.

Não esqueço, nem enjeito, que a vida é feita de momentos: momentos de tristeza, pequenos instantes de felicidade, a importância da família e dos amigos, o tal “sucesso” pessoal e profissional e, entre tudo isso, a relevância absoluta da saúde.

Mas não é disso que falo. Refiro-me ao mundo: ao ódio, à inveja, à exploração do ser humano, às guerras que se repetem como vícios antigos que ninguém que
stiona.

Imaginava que, chegados ao primeiro quartel do século XXI, se não habitássemos já na Lua ou em Marte, tivéssemos pelo menos conseguido aproximar-nos de um paraíso possível aqui na Terra. Não falo de felicidade eterna nem de miragens de pessoas boazinhas ao estilo dos filmes do urso Paddington, onde se celebra a bondade, a educação e o altruísmo genuíno — embora, se assim fosse, ninguém perderia nada.

Falo de um mundo onde, pelo menos, imperassem alguns valores básicos: respeito, honestidade, empatia, responsabilidade, solidariedade. Coisas simples, quase banais, que no entanto,
hoje, parecem luxos de museu milenar.

Infelizmente, tudo isso se tem vindo a perder. Pior ainda: a facilidade com que se invoca o direito à violência para justificar o injustificável. Seja a violência direta entre pessoas
(violência doméstica, violência no namoro, bullying, desacatos, terrorismo), seja a violência entre países, sempre embrulhada em discursos solenes que procuram dar dignidade ao absurdo.

Invoca-se a necessidade de uma guerra e bombardeiam-se países com a mesma leveza com que se vai ao cinema, como se a destruição fosse apenas mais um espetáculo de fim de tarde.

E nós, espectadores obedientes, habituámo-nos.

É talvez isso que mais assusta: a normalidade do horror, a rotina da indiferença, esta capacidade de engolir tragédias como quem toma comprimidos para dormir. A humanidade tornou-se especialista em arrumar cadáveres na gaveta da memória e seguir em frente, desde que o sangue não salpique o sofá e se mantenha do lado de dentro do ecrã do telemóvel.

Vivemos rodeados de discursos sobre progresso, inovação, futuro: palavras bonitas que servem para disfarçar a velha miséria moral que nunca chegámos a resolver. Continuamos a confundir tecnologia com evolução, riqueza com dignidade, ruído com pensamento. E no meio disto tudo, fingimos que sabemos viver, quando na verdade apenas sobrevivemos ao dia seguinte.

Talvez seja esta a nossa maior tragédia: a facilidade com que desistimos de ser melhores e a rapidez com que nos acomodamos ao pior.

No fim, viver não é só isto — mas é isto que fazemos
da vida, e esse é o verdadeiro escândalo.

© Fernando Alagoa

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