Questiono-me muitas vezes se viver é só isto.
Não
esqueço, nem enjeito, que a vida é feita de momentos: momentos de
tristeza, pequenos instantes de felicidade, a importância da família
e dos amigos, o tal “sucesso” pessoal e profissional e, entre
tudo isso, a relevância absoluta da saúde.
Mas não é
disso que falo. Refiro-me ao mundo: ao ódio, à inveja, à
exploração do ser humano, às guerras que se repetem como vícios
antigos que ninguém questiona.
Imaginava
que, chegados ao primeiro quartel do século XXI, se não
habitássemos já na Lua ou em Marte, tivéssemos pelo menos
conseguido aproximar-nos de um paraíso possível aqui na Terra. Não
falo de felicidade eterna nem de miragens de pessoas boazinhas ao
estilo dos filmes do urso Paddington, onde se celebra a bondade, a
educação e o altruísmo genuíno — embora, se assim fosse,
ninguém perderia nada.
Falo de um mundo onde, pelo menos,
imperassem alguns valores básicos: respeito, honestidade, empatia,
responsabilidade, solidariedade. Coisas simples, quase banais, que no
entanto, hoje,
parecem luxos de museu milenar.
Infelizmente,
tudo isso se tem vindo a perder. Pior ainda: a facilidade com que se
invoca o direito à violência para justificar o injustificável.
Seja a violência direta entre pessoas (violência
doméstica, violência no namoro, bullying, desacatos, terrorismo),
seja
a violência entre países, sempre embrulhada em discursos solenes
que procuram
dar dignidade ao absurdo.
Invoca-se a necessidade de uma
guerra e bombardeiam-se países com a mesma leveza com que se vai ao
cinema, como se a destruição fosse apenas mais um espetáculo de
fim de tarde.
E nós, espectadores obedientes,
habituámo-nos.
É
talvez isso que mais assusta: a normalidade do horror, a rotina da
indiferença, esta capacidade de engolir tragédias como quem toma
comprimidos para dormir. A humanidade tornou-se especialista em
arrumar cadáveres na gaveta da memória e seguir em frente, desde
que o sangue não salpique o sofá
e se mantenha do lado de dentro do ecrã
do telemóvel.
Vivemos rodeados de discursos sobre
progresso, inovação, futuro: palavras bonitas que servem para
disfarçar a velha miséria moral que nunca chegámos a resolver.
Continuamos a confundir tecnologia com evolução, riqueza com
dignidade, ruído com pensamento. E no meio disto tudo, fingimos que
sabemos viver, quando na verdade apenas sobrevivemos ao dia
seguinte.
Talvez seja esta a nossa maior tragédia: a
facilidade com que desistimos de ser melhores e a rapidez com que nos
acomodamos ao pior.
No fim, viver não é só isto — mas
é isto que fazemos da
vida,
e esse é o verdadeiro escândalo.
© Fernando Alagoa

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