Homenagem a António Lobo Antunes
A morte, mais do que assustadora, é um verdadeiro estado de aborrecimento. Hoje estamos e amanhã já não estamos. Há qualquer coisa de ficção científica nisto, tipo Espaço 1999: um momento estamos aqui, no outro enviam-nos para um sítio qualquer sem nos pedirem autorização, como se fossemos um eco ou uma luz fluorescente.
Sempre me pareceu que a morte tem ar de elevador avariado: carregamos no botão, esperamos, esperamos, e quando finalmente chega, vem sempre para o piso errado.
O que mais me irrita é não poder beijar, ouvir música, ler um bom livro, fumar ou comer uma bela feijoada acompanhada de um tinto divinal. Imagino o além como um sítio onde tudo sabe a puré de batata requentado, servido por almas que já desistiram de temperos. Talvez haja feijoada, mas sem sal, sem gordura, sem alegria — uma feijoada metafísica, que é como dizer: nada. Ao menos que no além nos deixassem abusar do tabaco e do colesterol.
Isto de morrer incomoda-me solenemente. Não saber onde vou acordar no dia seguinte, sem hora marcada nem local certo, é muito inconveniente. A vida até era um tanto ou quanto tranquila; já a morte, ao que parece, é uma espécie de intervalo confuso e demasiado longo entre dois pensamentos esquecidos, daqueles que nos fazem perder o fio à meada e perguntar: “O que é que eu vim aqui fazer?”
Às vezes imagino que morrer é acordar num sítio onde finalmente ninguém nos incomoda. Um descanso absoluto. Mas conhecendo‑me, mesmo morto continuaria a entediar-me sem um bom desassossego — o que, convenhamos, estraga um bocado a eternidade.
E depois há esta coisa de não poder avisar ninguém. Como se fosse natural desaparecer sem aviso, sem deixar um bilhete, sem a importância de um “volto já”. Morre‑se e pronto, desaparece‑se como quem sai de fininho de uma festa aborrecida. A diferença é que na festa ainda se podia levar um croquete para o caminho para rematar um último gole de champanhe.
Deixo-vos uns livros e umas crónicas, pelo menos fico com a ideia que enquanto me lerem não morrerei.
Ainda assim, preferia o croquete e o champanhe – eu que até nem gosto de champanhe.
Morrer é mesmo uma chatice!
© Fernando Algoa

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