No início desta guerra atroz, como são todas as guerras, alguém ligado ao sector dos combustíveis apressou‑se a garantir que os portugueses não tinham razões para se preocupar: existiam reservas para vários meses. O gás natural, vindo sobretudo do Norte de África, manteria estável o preço da eletricidade. Mas, no dia seguinte — ainda que a guerra pudesse terminar amanhã — a propaganda já reinava. Os preços dos combustíveis ganharam nova vida, como se tivessem encontrado um pretexto perfeito para crescer antes do tempo.
A ganância, que não conhece limites, é a personificação da falta de vergonha. Armazéns cheios a preços baixos não combinam com aumentos do crude que ainda nem chegaram. Mas isso pouco importa a quem aprendeu, durante a pandemia, que o medo é um negócio rentável. Rumores de uma “pandemia 2” ficaram em suspenso, à espera de dias mais propícios ao saque. Esses dias parecem estar à porta. Nada alimenta melhor fortunas fáceis do que o desespero alheio. Os juros espreitam. As dificuldades, a fome e a miséria também.
A ditadura persegue, silencia, aterroriza, tortura, mata. A pseudo‑democracia persegue, silencia, aterroriza, tortura, mata. Cada uma à sua maneira, ambas esmagam vidas e sonhos. A diferença é que a democracia nos oferece apenas a doce ilusão da liberdade — e talvez por isso a crueldade seja maior. A pseudo‑democracia age na sombra: aterroriza pela calada, mata sonhos com promessas vazias, rouba dignidade sem deixar marcas visíveis.
Na ditadura, um homem pode morrer a lutar pela liberdade — e morre com dignidade. Na pseudo‑democracia, um homem não morre por um ideal; morre lentamente, no degredo de uma imoralidade que não consegue combater.
© Fernando Alagoa.

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